O SONHO

Poemas

Lúcia Azevêdo

Voltando ao ponto em que deixou amarras
Onde esquece razão por instigação
Entregando pedaços de vida a simulacro
Que chega como as águas no costado em noite
Tenebrosa, e com finura astuciosa vertendo
Sua fala de amásio, concedendo ilusões revestidas
De sonhos...

Faz os sons sussurrarem, naquelas noites
Sem tempo, como samisém vibrando com o
Plectro de marfim.
Exerce vigilância cuidadosa e ali vende fantásticos
Sonhos, e quem compra sonha o que quer sonhar.

E prescindem do amor brincando, arrogam como se
Fossem deuses, e como tudo escapa das mãos, sôfregos,
Sorvem o sonho e, como querem, amam, porque sonhos
Não contrariam nenhuma norma moral.

O fementido amor vibra ao som estrépito das centelhas
Faiscantes emitidas das estrelas ao alcance.
E ali deitam nas águas turbulentas até onde ninguém pode
Escapar.

E alguém sabe não haver nada definitivo; tudo se perde
No tempo; só em sonho encontra-se o presente
Que nunca se torna passado e que nunca foi futuro.
E deseja encontrar aquele lugar que nunca existiu
Até que ali chegasse.

Viver novamente o presente eterno
No espaço e no tempo como lá viveu.
Como por arte de sonar, desperta caindo
Do insólito sonho
Creu haver companhia, mas estava sozinha.
A deidade já não se encontrava lá...
Sabe não dispor de autoridade
Que possa ocultar sentimentos que quer camuflar

E lutando pelo equilíbrio retorna ao ponto onde deixou
Amarras quando adormeceu entregue ao sonho contingente.

É obrigada a acordar, e faz da terra morada deixando
Sonhos com as estrelas, semeando vazio profundo na rota
Que desperta segue porque não pode parar.

Maceió, 10 de outubro de 2009.

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