CHAPÉU FURADO

Crônicas

Antonio Machado*

Pedrão é um povoado mais que centenário, outrora acanhado e perdido nos confins do município de Olho d’ Água das Flores, porém hoje já chegou à era da informática. Em vista de sua longevidade, tem sido palco de muitas cenas engraçadas, tristes e até inusitadas. Ostenta em sua história a passagem de Lampião e onze cangaceiros nos meados de julho de 1926, com poucos remanescentes dessa época.

Ocorreu, porém, que, o cidadão Etelvino Palmeira, sobrinho do empresário do passado José Porfírio Palmeira, cujo nome ostenta uma das ruas de Santana do Ipanema, em sendo Etelvino agricultor e carreiro por profissão e nesse binômio viveu sua vida, casou, teve família e depois foi prestar contas ao Criador como todo mortal.

Era Etelvino chegado a uma quenga, diante disto arranjou um namoro com Maria José de Bililo, residente no Pedrão, ele morando no Sítio Gameleiro, contigua ao povoado. E nos fins de tarde, quando a brisa da noite vinda da lagoa próxima, bafejava o povoado, sorrateiramente, Etelvino, chegava à casa de Maria José. Ela mulher alta, mais bonita que feia, pernas grossas, branca, pobre, era uma morena vistosa, conseguia conquistar alguns parceiros com boa condição financeira, aí se junta ao carreiro. Dona Ló, sua esposa, brigava o tempo todo, e vendo que o marido não largava à ”distinta”, resolveu abandoná-lo.

Etelvino já setentão, começou a falhar nas investidas sexuais, gerando ciúmes da garota, foi quando os amigos mais chegados passaram a criticar Etelvino, pois ele deveria usar um chapéu furado, sempre adébito de um chapéu de couro próprio dos carreiros sertanejos, ficou espantado e resolveu ”tucaiar” a namorada. Coisa da peste ser corno de puta, e depois de velho andar escondido pastorando rapariga, dizia Etelvino aos amigos.

E numa dessas pesquisas, na busca da verdade, chega Etelvino tarde da noite, à casa de Maria José, já cirieiro, observou pelas frechas da porta a garota deitada na sala, ao lado de Antônio de Julho, conhecido por “dezoito” em vista ter arrancado dois dedos do pé, enganchado numa corda, daí o apelido, que ele até hoje ele não gosta. E para surpresa de Etelvino, já ferido com a cena inusitada, ambos estavam nus e deitados dormindo. Ora depois do coito vem sempre o relaxamento, e, consequentemente, o sono, ambos dormiam a peito solto, com a brisa da lagoa do Pedrão, visto que ficava a casa em frente aquele caudal, tão belo quanto bonito, com os chuviscos prateado da lua cheia que indiferente aquele idílio, fazia sua jornada rumo ao poente. O Pedrão dormia.

O cidadão vai a porta da cozinha e tenta tirar a tramela que fechava a inditosa porta, contudo foi inútil, pois a garota havia fechado com um ferrolho na parte baixa da porta que ele não conhecia. Era o pulo do gato nas emergências românticas. Desesperado, Etelvino bate na porta e chama o nome da dona da casa, ela acorda atarantada. Futuca o concubino, e pede para sair pela porta da frente, às pressas ele sai, enquanto ela, veste o calção de Antonio, pesando ser a calçola, enquanto o rapaz sai sem cueca e vai embora, Etelvino entra bufando pela venta. Que peste é isso Maria José? Eu bem que já vinha desconfiado do nêgo “Dezoito”, agora eu to entendendo porque me chamam de chapéu furado, você, sua quenga, me botando ponta.

Maria José, tenta acalmar o amante e não consegue, mas explica, olha Etelvino, nós num tava fazendo nada, apenas ele sempre me azucrinava, dizendo que era mais alto do que, eu, e hoje nós resolvemos tirar a prova. E Etelvino conclui, e por que tinha que ser deitado e nu? Era para a gente se medir direito, homem de Deus. É quando ele nota que ela está vestida na cueca de Dezoito, e olhando para aquela cena ele diz: e que boba serena é isso? É a cueca dos meninos que eu vesti. E tenta empenar a conversa, porém Etelvino jamais engoliu essa tramóia.

E passaram um bom tempo intrigados, mas o amor não morreu, e quando o carro de boi cantava, Maria José ouvia, cantava esta trova: “um carro de boi cantando/ nas estradas do Pedrão/ vai pra longe levando/ saudades de um coração”.

*Antonio Machado é da ACALA, e AAI.

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