ENTRE O QUE SOU E O QUE ESCREVO

Crônicas

Por Dr. João Aderbal

Não escrevo por vocação. Escrevo por urgência. Por impulso antigo, talvez anterior até a mim. Desde sempre houve em mim esse desconforto com a palavra exata, essa busca por uma linguagem que não existe, mas que insisto em perseguir.

Não me interessa a estética previsível, a forma domesticada, o texto que se explica. Tenho horror ao que se encaixa demais. Quero o estranhamento, a quebra, o espanto sutil. Quero que cada frase carregue uma tensão — como se algo estivesse prestes a acontecer, ou a ruir.

Sou movido por um rigor íntimo. Não no sentido acadêmico ou formal, mas um rigor visceral, quase obsessivo. Escolho as palavras como quem monta um relicário: não basta que sirvam, têm que dizer mais do que dizem.

Nunca fui adepto de padrões. Minha escrita, como minha vida, desvia-se das trilhas batidas. Às vezes falta verbo, falta direção, falta enredo — mas há sempre um ritmo. Um compasso que não sei nomear, mas que sigo com fidelidade.

Escrevo muito sobre o nada, mas não é o vazio do desespero. É o espaço entre as certezas, o intervalo entre o que termina e o que ainda não começou. Escrevo como quem atravessa um campo minado com os pés descalços — porque não há outro jeito.

Já tentei me ajustar. Já busquei formas, fórmulas, modelos. Todos falharam. Descobri que minha verdade mora no desalinho. No texto que escapa. No pensamento que se dobra sobre si mesmo, sem precisar fechar um ciclo.

Escrevo porque, no fundo, acredito. Não em grandes promessas, mas na possibilidade mínima de um dia mais leve. De um tempo onde caibam os inacabados, os contraditórios, os que não se encaixam.

E se escrevo hoje, é para manter viva essa centelha. Para deixar registrado, mesmo que em silêncio, que a aurora — ainda que tardia — existe. E que escrevê-la é meu modo de esperá-la.

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