BRENO ACCIOLY

Crônicas

Lúcia Nobre

Segundo Mário de Andrade, “Breno Accioly de um nada faz um conto e acende numa vela a chama da angústia humana”. É próprio de sua literatura relevar a chama da angústia do ser humano. As personagens de Breno Accioly devaneiam de maneira tal, que deixam a angústia tomar conta de suas vidas. Elas preferem mergulhar em mistérios e pensamentos secretos. O escritor esmiúça as profundezas do homem. Parece conhecer o lado sombrio da alma humana, permite que suas personagens cheguem ao auge do desespero, sofram fortes ansiedades, e às vezes, até, consigam atestados de loucura.
Na narrativa “Os olhos” a angústia é maior do que a capacidade de enxergar as coisas que cerca a personagem. Muito embora, em algum momento de lampejo de lucidez, parece-lhe que poderá sair de certa dor que o atormenta. Luz, que logo se apaga, e volta a viver seu constante pesadelo. A ansiedade de um homem que se diz doente. Parece que faz questão disso. Prefere continuar em sua agonia. Entende que até pode sair daquela aflição, mas nada faz, mesmo quando a mulher chora.

Se eu me levantasse da espreguiçadeira e dissesse-lhe algumas palavras acariciando-lhe os braços, passando-lhe pela nuca as pontas dos dedos, certamente, Maria deixaria de soerguer os ombros, de entortar a boca. Porém, permaneço afundado na cadeira de lona, indiferente aos arquejos do corpo de minha mulher. (ACCIOLY, 1995, p. 119)

A personagem é tão propensa à depressão, que, mesmo tendo consciência que para tudo há uma saída, continua em seu martírio. Talvez haja um mistério entre o casal. O homem fica o tempo todo resmungando por dentro, enquanto a mulher se entristece e chora por assistir o sofrimento do marido. Um doente que não quer remédio. Como a dor maior é a tomada de consciência, ele prefere devanear. Ela poderia ser o seu remédio, mas, ele prefere imaginar sua traição. Não mais trabalha. Não mais ama sua mulher. Cria situações de doenças no próprio corpo. É consciente e contraditório. Sabe que o trabalho faz parte de sua vida, não o exercita porque se diz doente, ao tempo que rejeita remédios. Seria esse campo de transição entre a luz da consciência e a outra luz da insanidade?

Não admito que Maria me fale de remédios. Atirei aqueles vidros azuis, cheios de drágeas, no chiqueiro dos porcos. E nunca mais o correio de Sant’Ana do Ipanema bateu à minha porta para entregar pacotes findos de farmácia. (Op. cit., P. 121)

Refletindo contos do escritor, suas personagens ultrapassam a sensatez da “normalidade” e vagueiam na obscuridade da angústia da alma. O conto “Os olhos” faz a personagem regressar ao passado. Precisamente à infância. Dessa vez, como âncora de salvação. Poderá sair do torpor que o atormenta. De lá da meninice, ouve a canção da escola. Os olhos, a imaginação e a aguçada audição transportam-se àquela escola de sua infância onde a canção de despedida, regida pela batuta de Dona Bela, fez o homem vestir-se de calças curtas e participar daquela paisagem musical.

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