Distração humana, Dinamarca e destino (I)

Reflexões

Paiva Netto

A distração humana quanto à própria sobrevivência às vezes é de espantar. Exemplo: no admirável filme “Guerra e Paz”, de 1956, inspirado no livro homônimo do célebre escritor Leon Tolstói, conta-se que, quando Napoleão Bonaparte e suas tropas se aproximavam de Moscou, jovens aristocratas descuidados entupiam-se de álcool, fazendo inacreditáveis acrobacias nas janelas enquanto derramavam vodca goela abaixo. Está bem!... o Corso perdeu a guerra, mas sua derrota teve início desde a aproximação do “general inverno”, que botou no século seguinte, o vigésimo, Hitler e Von Paulus de joelhos. É verdade também que os russos acabaram adotando a política de “terra queimada” do ex-ministro da guerra do imperador Alexandre I, Mikhail Barklay de Tolli, e o general Kutuzov impiedosamente fustigou Bonaparte até que o viu fora da Rússia em 14 de dezembro de 1812. Mas que a fina flor da sociedade czarista andou bêbada na hora errada, andou.

Por mais que poderosas vozes proclamem o perigo que paira sobre nossas cabeças, na aparência não existe ainda uma atitude mundial unificada convencida da gravidade da explosão climática que se prepara e já nos atinge com fenômenos surpreendentes e funestos, tais como as procelas e tornados que vêm flagelando o belo Estado de Santa Catarina. Opiniões gabaritadas, a exemplo do premiado cientista Paul Mayewski, diretor e professor do Instituto de Mudanças Climáticas da Universidade do Maine, EUA, há mais de 40 anos estudando a Antártida, afirmam que o aumento na temperatura do planeta acarretaria “uma tremenda redistribuição em relação à agricultura. Mudanças espantosas nos padrões de tempestades. O nível do mar também poderia subir muitos metros. Haveria migrações imensas. Seria a maior catástrofe do mundo moderno”.

Os governantes de diversos países, em dezembro, se reunirão na Dinamarca. Contudo, têm enormes desafios pela frente, um deles a estrutura econômica na qual vivemos, alicerçada nos combustíveis fósseis, provocadores de doenças, porquanto, entre outros males, empesteiam o ar que respiramos. Sim, há o grande esforço por fontes limpas de energia. Será, porém, que já não ultrapassamos o ponto sem retorno? É o que diz o dr. James Hansen, diretor de instituto da Nasa sobre o clima, considerado o maior pesquisador acerca de aquecimento global.

Otimismo x Realidade
Sou por natureza otimista, no entanto procuro manter-me com atenção fixada na realidade exposta diante de todos. Ora, já estamos vivendo, como terráqueos, nosso período de liberdade condicional há algum tempo. Al Gore não é um amador. Seu documentário “Uma verdade inconveniente” deveria ter chocado a população terrestre. Todavia, persiste uma espécie de sono hipnótico que só não o veem os que se encontram flagrados por aquela chave desenhada por Jesus, no Seu Evangelho segundo Lucas, 17:26 e 27: “E, como aconteceu no tempo de Noé, assim ocorrerá nos dias do Filho de Deus. Comiam, bebiam, casavam e davam-se em casamento, até que Noé entrou na arca, e veio o dilúvio e consumiu a todos”.

E não há aqui nenhuma história de misticismo idiota ou idiotizante, que é a acusação preferida de alguns que sistematicamente negam a existência do intruso que tenta arrombar-lhes a porta. O caso da bolha econômica norte-americana, que afetou todo o orbe, é emblemático. Ter apenas o conhecimento sobre os perigos que nos rondam não faz prudentes. Há aqueles que se entregam ao canto das sereias de interesses que, agora ou depois, se mostram genocidas. Só que nesta era globalizante ninguém, mas ninguém mesmo, está protegido de algo realmente ameaçador, que tenha ocorrido ou venha a acontecer nos pontos mais isolados da Terra, se é que estes ainda existem. O vírus, o menor-maior inimigo que nos assusta, hoje mais do que ontem, nunca encontrou condições tão favoráveis à sua proliferação como nestes tempos. Sua fiel amiga, Dona Poluição, e outros companheiros menos votados o abastecem de tudo que necessita para instalar-se em nosso corpo e tornar-se dificilmente controlável pelos abismos de mutações inconcebíveis.

Voltarei ao assunto.

José de Paiva Netto ― Jornalista, radialista e escritor.
paivanetto@lbv.org.br — www.boavontade.com

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