O VISITANTE ILUSTRE

Crônicas

João Neto Félix Mendes

Aquele dia seria o dia mais feliz na vida da família Alves. Tonho Kupim, após anos e muitas horas de viagem, retornara a sua terra natal no sertão pernambucano, Betânia. Uma pequena e bucólica cidade no alto sertão, na microrregião do sertão do Moxotó. Os Alves estavam em polvorosa por receber o ilustre parente há anos ausente, após carreira bem sucedida como funcionário do Banco do Brasil, exercendo o cargo de gerente de Agência de Maravilha Al.
O visitante, porém, na correria e ansiedade do dia a dia do trabalho esquecera de fazer a barba e cortar os cabelos de pixaim, apresentando-se meio desarrumado, parecendo um daqueles hippies “paz e amor” dos inesquecíveis anos 60. Entretanto, sempre bem humorado, logo tratou de tirar por menos aquela aparente feiúra incidental.
A sua chegada triunfal a pequena cidade, somente comparada a recepção de grandes autoridades, com banda de música e foguetório fora uma surpresa e tanto. A agenda social fora intensa. Muitas comemorações e incansáveis visitas ocorreram durante todo o final de semana, ora aqui, ora ali.
Os anfitriões não deram trégua ao visitante numa incansável jornada de compromissos sociais. Tonho Kupim estava tão cansado pelo cumprimento obrigatório de tão intensa agenda que esquecera o horário de volta no único ônibus que fazia conexão com a pequena cidade de volta a Alagoas.
Quando se deu conta do imprevisto, não se desesperou. Tratou de pedir auxílio aos parentes para arrumar um jeito de voltar pra casa são e salvo. O que não se esperava é que não mais havia transporte regular naquele dia para o retorno do incansável andarilho, reservando exclusivamente a criatividade para solução do impasse.
Bem assim agiu a matriarca da família que queria fazer bonito, não medindo esforço para mostrar também sua importância na localidade e, após longa jornada de negociação e conchavos, eis que veio a solução: conseguiram-lhe uma vaga de carona na única ambulância da cidade que iria fazer uma viagem de emergência, naquela tarde, para levar uma paciente a uma outra cidade. Uma senhora debilitada iria ser internada na cidade mais próxima e seria a companhia de Tonho Kupim na viagem de volta pra casa.
Quem já observou uma ambulância internamente, adaptada nesses carros de passeio, pode comprovar o incômodo que é viajar na pequena cadeira que serve de apoio, normalmente para enfermeiro ou médico que provisoriamente assiste o paciente. Tonho Kupim, não titubeou, aceitando de pronto e compulsoriamente, a bem-vinda carona. Até porque, naquela altura dos acontecimentos, o ilustre visitante vislumbrou a opção como única forma de chegar ao seu itinerário sem maiores percalços.
Faz-se mister registrar que Tonho Kupim, um sujeito meio grandão, acomodou-se com certa dificuldade na pequena cadeira ao lado da paciente deitada na maca e ambos seguiram estrada afora.
Durante o percurso Tonho Kupim sorrateiramente percebera que aquela senhora adoentada olhava-o com piedade confortando-o, embora nada podendo fazer, pois a sua situação era pior do que a daquele homem de aparência doentia, reforçada pela aparência descuidada, além da expressão de tristeza pelos incontáveis solavancos no caminho.
A viagem inteira, pacientemente, permanecera calado e sem disposição para bate papo. Também pudera! Quase perto do fim do passeio, a paciente não mais se contendo, resolvera interromper o silêncio, satisfazendo a curiosidade e, ao mesmo tempo, demonstrando sua solidariedade ao transeunte. Desse modo, perguntou rápido para evitar arrependimentos:
- O Sinhô tá operado, né?
- Retrucou Tonho Kupim, sem mais delongas: Não senhora é porque eu sou feio mesmo!
Restaram risadas...

Inverno/2009

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