Ser culto é ser livre, já dizia Mészáros no seu livro “A educação para além do capital” e reforça Dermeval Saviane “dominar o que os dominantes dominam (conteúdo cultural) é condição de libertação” (p.55) em seu livro “Escola e Democracia”.
Ler é o maior caminho para se buscar a libertação, a desalienação, a conhecer o que lhe é negado e a lutar pelo que lhe é de direito sem se conformar com o que é imposto de forma natural pelos mecanismos ideológicos do poder.
Só que a política de afastamento da massa da leitura se dá através de dois processos: primeiro as editoras encarece o preço da maior parte dos livros para dificultar o acesso da maioria que não tem condições de adquiri-lo; segundo, e o mais grave, inculca na cabeça de quem tem condições de comprar e da maioria desprovida de capital econômico, o sentido desnecessário de se ter um livro, em troca da aquisição consumista de gêneros supérfluos de aceitação social.
Ler bons livros, assistir palestras ao vivo ou na internet sobre temas que nos transforme em algum ponto de reflexão que nos leve a ver que o que foi imposto como verdade não por si verdadeiro e o que nos foi dito como falso, normal, natural, não caminha nessa direção.
Lucia Maria Vanderley Neves é a organizadora do livro A nova pedagogia da hegemonia: estratégias do capital para educar o consenso apresenta uma visão da construção dessa conformação social que nos é imposta no decorrer da história como naturalização da desigualdade.
A autora nomeia programas políticos, cujo objetivo é educar o consenso para que não existe nos discursos a luta de classe e sim a construção de uma nova sociedade dialógica e de um novo cidadão solidário, de projeto da Terceira Via termo utilizado por Giddens onde apresenta a negação do conflito de classes ao afirmar que existe uma igualdade de poderes na sociedade e que todas as condições são dadas por igual a todos, mas mesmo assim se você fracassou a culpabilidade somente pertence a você.
Sendo assim, para empreender essa tarefa entra em cena o Estado educador assumindo a complexa tarefa de conformar tecnicamente as massas populares, fazendo-as aderir ao projeto de sociabilidade burguesa com o objetivo de formar uma nova humanidade. A proposta de formar um novo sujeito coletivo deriva da afirmação de que segundo a autora se na população está a causa dos problemas, também na população poderiam estar suas soluções.
A formação desse sujeito coletivo, compassivo, solidário que sempre ajuda nas campanhas, que está em busca de soluções para os problemas sociais de caráter primário, tira o foco da política e do Estado como fomentadores de políticas públicas desenvolvimento da sociedade.
A reinventar da sociedade civil é abrir espaços para a promoção das solidariedades danificadas por uma era de incertezas sociais e artificiais. Não há vaga no capitalismo contemporâneo para a luta de classes, por isso é necessário conciliar as reivindicações divergentes para promover a concertação social, de acordo com Neves.
A criação de estratégias de convencimento das massas populares perpassa também pelo papel de responsabilidade social adotado pelos conglomerados de empresa para que através da filantropia aderissem ao projeto de sociabilidade burguês.
Empresas socialmente responsáveis divulgam constantemente suas práticas, aderindo ainda mais uma clientela ‘consciente’ (construída como sujeito solidário) a se tornar consumidor de empresas que desenvolvem trabalhos sociais. As estratégias são complexas de entender e não de explicar se não houver uma leitura, análise e discussão dos parâmetros sociais de manipulação da sociedade através das estratégias de naturalização da desigualdade.
Comentários