Um desvio de percepção: Tim Burton e a descoberta do mundo pelo Fantástico

Cultura

Colaboração: Goretti Brandao

Um desvio de percepção: Tim Burton e a descoberta do mundo pelo Fantástico
O cinema de Tim Burton revela o mundo a partir de um desvio no momento em que se olha (e em que se habita) este mundo. Para além de apenas transfigurar as formas e acomodá-las numa narrativa fluida e geralmente clássica, os filmes de Burton falam muito sobre o mundo a partir de tudo aquilo que ele consegue retorcer estética e (talvez, apenas em aparência) humanamente e de tudo que, nesta distorção, ele consegue amar. O que Burton faz, ao que parece, é dar a determinados personagens uma vida que é cabível de forma perfeita não só no filme, mas no mundo como se conhece do outro lado do roteiro e da técnica. Daí que a Noiva Cadáver, do filme homônimo, seja a personagem mais viva e a que tem mais desejos em sua morte do que qualquer outro personagem que esteja vivo, incluindo seu próprio Noivo, Victor. Não é à toa que o universo dos mortos seja de fato um universo de criaturas que não negam a morte, mas vivem dela com a alegria de tê-la incorporado como modus operandi de uma forma de vida.

A percepção de Burton é sobretudo aquela em que o fantástico e o grotesco assombram de alguma forma uma normatização social ? Edward Mãos-de-Tesoura está ali, isolado em seu castelo, distante e, quando finalmente chega até nós da sociedade ?comum?, é para funcionar como um membro, digamos, da ?baixa escala? ? um jardineiro, um cabeleireiro; Charlie, protagonista da refilmagem de A Fantástica Fábrica de Chocolates (2005) pode assombrar simplesmente não por ser esquisito, mas por ser de outra classe que não aquela a qual pertencem seus colegas de bilhete premiado. Daí, este desvio: Tim Burton necessita encarar a realidade (dos sentimentos ou mesmo do fantástico) com algum dado que retorne da fantasia mórfica para confirmá-la como uma espécie de local onde existe, mais visivelmente do que em outros cineastas e escritores, a construção de valores mais preciosos do que muitos daqueles estabelecidos. Alice volta ao ?mundo real?, no final da refilmagem de Alice no País das Maravilhas (2010), e a ferida que ela traz no braço, ocasionada pela batalha, confirma antes de tudo um grande aprendizado da vida com a fantasia. Da mesma forma que quando o protagonista de O Planeta dos Macacos (2001) retorna para o que ele acredita ser o seu planeta, vemos o maior desvio da realidade no cinema de Burton: a Terra é outro lugar que só pode ter sido enriquecido pela ficção da ficção (pois trata-se aí de mais uma refilmagem de Burton e de sua contribuição ao colapso do filme original).

A oficina Um Desvio de Percepção: Tim Burton e a Descoberta do Mundo pelo Fantástico pretende ingressar nos universos criados pelo cineasta norte-americano e observar os pontos em que o desvio e a distorção presentes em tudo aquilo que ele olha (personagens, cenários) surgem com mais força e representam incursões em nossa própria humanidade no que ela tem de mais repulsivo e terrivelmente belo.

Aula 1: Os primeiros filmes (Burton de 1982 ? 1996); a construção de um estilo. Exibição de cenas de alguns filmes do período.

Aula 2: A radicalidade da fantasia e do lirismo gótico (Burton de 1999 ? 2010). Exibição de cenas de alguns filmes do período.

INSTRUTORES: Ricardo Lessa Filho e Ranieri Brandão

DATA: 17 e 18 de Julho, das 9h às 12h da manhã

INSCRIÇÕES: de 6 a 17 de julho. Na bilheteria do Cine SESI Pajuçara
VALOR: R$ 30,00

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