Colunistas: A SECA DE 1970 CONTINUAÇÃO

Literatura

Antonio Machado

Os látegos da chuva caíam espaçadamente da trovoada que já se aproximava no pé da Serra do Pedrão. Pareciam se condensar ao cair na terra seca, fazendo evolar da terra um calor escaldante, mormente numa terra que se ressentia da falta de chuva.
Alzira descia a passos largos em direção à sua casa. Vinha da roça, pois tinha dado um dia de serviço da peste. Nas costas, trazia uma enxada e uma cabaça com água. Em meio a isso, um relâmpago tipo caracol chispou no espaço, fazendo-se acompanhar do ribombar do enorme trovão. Diante do impacto, Alzira se assustou e caiu em um buraco, quebrando a cabaça.
— Eita trovão da gota serena! E ainda perdi minha cabaça. Só sendo por carporismo mesmo uma coisa dessa.
Chegou finalmente em casa, debaixo de muito vento e pouca chuva, quase nada. Foi ao quarto e retirou do velho baú uma imagem velha e desbotada de Santa Bárbara, que é invocada nesses momentos, e a arremessou no terreiro, ficando aguardando o efeito de sua ação piedosa. E a chuva que esperava não veio; só relâmpagos e ventos com estrondos fortes faziam-se ouvir, aumentando ainda mais o seu pavor. Bem dizia o ferreiro “veio” Antônio Perneta:
— Que muito peido é sinal de pouca merda.
Que me perdoe Santa Bárbara.
Alzira estava desapontada. Foi quando uma lufada de vento, com grande fúria, jogou a janela no meio da casa.
— E a chuva? Nada de chuva.

[...]

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