A infância sempre reaparece ao olhar humano,
mesmo que a afoguem no fundo do oceano.
(Hamlet- Shakespeare)
Prefiro afogar-me na literatura que nas incongruências da vida. Em se tratando de legítima literatura, aquela que não é apenas de papel, falo de Saint-Exupéry autor do pequeno príncipe. Vivia com sua infância impregnada na alma, no pensamento, como se carregasse o seu retrato de menino, guardado no bolso. Já adulto, com a profissão de piloto, possuía estrelas, conversava com as flores e recebia conselhos de uma raposa. Era uma pessoa feliz, mesmo vivendo em tempos de guerras. Atribuía sua felicidade à infância bem vivida. Já dizia Hamlet que a infância sempre reaparece ao olhar humano, mesmo que a afoguem no fundo do oceano. Assim, não tem como escaparmos da influência que recebemos da infância. Influência positiva ou negativa, claro. Reafirmo que o escritor é o que escreve. Saint-Exupéry foi sempre fiel a sua infância. Em livros seus encontramos recordações de sua meninice, de quando era completamente feliz. De quando era puro (p.434). Assim, como as crianças, o piloto escritor, perdido no deserto, descobre que cativar é criar laços e que o essencial é invisível para os olhos. O pequeno príncipe fica bastante decepcionado ao descobrir que existem milhares de rosas iguais a que o tinha cativado. Para ele, só existia aquela flor. Tempo em que chega a raposa e diz:
Tu não és ainda para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens também necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim o único no mundo. E eu serei para ti única no mundo (p. 297).
Depois das palavras da raposa, o pequeno protagonista meditou sobre o valor de se cativar. Entendeu que a sua rosa, aquela que o cativou, é única, mesmo que haja milhares delas. A raposa ainda falou que: "Se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol" (p.301). A sábia raposa, segundo o autor, conhecia muito bem o valor de uma amizade, tanto, que desejava ser cativada pelo príncipe. No caso, eles só seriam importantes um para o outro se criassem laços. E cada vez que marcassem encontros, estes seriam importantes e desejados por ambos. O principezinho já entendeu que será necessário tempo para se firmar um elo de amizade. Vê-se no diálogo:
- Por favor... cativa-me! disse a raposa ao príncipe.
- Bem quisera, disse o principezinho, mas eu não tenho muito tempo. Tenho amigos a descobrir e muitas coisas a conhecer.
- A gente só conhece bem as coisas que cativou, disse a raposa. Os homens não têm mais tempo para conhecer coisa alguma. Compram tudo prontinho nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos. Se tu queres um amigo, cativa-me! (p. 304).
Concorda-se então, com o pensamento de Hamlet, acima citado. É na infância que podemos ser cativados ou não. É nesta época, que escolhemos ou elegemos quem serão nossos futuros amigos. Um pouco caso ou uma desatenção não ficará despercebido para uma criança. Ela perceberá e guardará para sempre o que lhe ocorrer, principalmente, em se tratando de familiares. Então, como falou a raposa ao príncipe, se queres um amigo, cativa-me. O príncipe quer ter um amigo e pergunta o que deve fazer. "É preciso ser paciente, respondeu a raposa. Tu te sentarás primeiro um pouco longe de mim, assim, na relva. Eu te olharei com o canto do olho e tu não dirás nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas, cada dia, te sentarás mais perto..." (p. 306). O principezinho deseja fazer amigos e compreende que os adultos são muito sérios. Assim, fica confuso e perplexo, quando chega ao planeta terra. Sente solidão. Conclui que: "Há uma transformação total de valores. O que é essencial na vida? O que para os homens é importante, para ele é banal" (p. 438).
Eu era pequena e ainda não sabia
Que uma criança guarda em sua mente
Tudo o que acontece de bom ou de ruim
Sentimentos marcados para sempre
Movidos por incontidos pensamentos
Emoções guardadas, mastigadas, ao sabor
Do gosto amargo das lágrimas reprimidas
Que machucam a alma e levam ao desamor
Mágoas marcantes jamais serão esquecidas
Se a criança não é cativada, esquiva-se.
Ausenta-se do convívio de quem não a ama
E para sempre guardará tristes lembranças
Ressentimentos, causas incompreendidas.
O Pequeno Príncipe. Antoine de Saint Exupéry, 2011.
O PEQUENO PRÍNCIPE
CrônicasLucia Nobre 12/11/2014 - 22h 44min
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