DONA ZEFINHA SOARES, NOSSA SANTA VIZINHA

Crônicas

Remi Bastos

Decorriam os anos 60. A Avenida Prefeito Adeildo Nepomuceno Marques em Santana do Ipanema se transformava em um palco onde a felicidade armou aí a sua tenda. Ainda nos meus quinze anos, período em que vivi os melhores momentos de minha adolescência, ouvindo o canto dos pássaros no cercado de Seu Abílio Pereira; pescando e tomando banho no “Panema”; jogando pião, ximbra e bola nos campinhos improvisados. Fui um menino levado que arengava com os irmãos em casa. Vez por outra eu me embrenhava no mato, fugindo do cinturão de papai por causa das minhas traquinagens. Certa vez mamãe tentou me bater com um chinelo feito de isopor, quando me arribei, indo parar no quintal de Dona Gracira Melo, onde me assentei sobre uma rocha. Ao me levantar ouvi um tinido, verifiquei, e vi duas moedas de vinte centavos de Cruzeiro. Peguei as moedinhas e retornei correndo para casa gritando de satisfação. Minha mãe ao me ver naquela alegria indagou, o que foi menino? Quando então, eu lhe entreguei o dinheiro. Esta minha ação foi suficiente para que tudo se normalizasse.
Dona Zefinha gostava muito de prosear com mamãe. Os assuntos quase sempre versavam sobre o último capítulo da novela “Jerônimo o Herói do Sertão”, transmitido pelo rádio, seguidos dos comportamentos e atitudes dos filhos, principalmente as meninas, por conta dos futuros namorados. Quantos conselhos eu ouvia da nossa santa vizinha? Sempre me falava com aquele seu sorriso natural, pois, era assim que costumava falar com as pessoas. “Remi meu filho, toma juízo nessa sua cabecinha, Jesus não gosta de menino que desobedece aos pais e embirra com os irmãos”! Cada vez que me aplicava um conselho, eu escolhia o cercado de Seu Abílio Pereira para fazer as minhas reflexões, às sombras dos velandes e dos marmeleiros.
O tempo foi passando com os meninos crescendo, deixando escrito nas páginas das recordações, o tempo que o próprio tempo não conseguirá apagar. Carlos (Carlinhos) foi residir em São Paulo, Criseuda casou-se e até hoje mora no sítio Pedra D’água dos Alexandre; Cláudio (o Craudinho) tornou-se bancário, atualmente é gerente do Banco do Brasil em Santana do Ipanema; Francisca (Dona Chica) casou-se com Leonilton onde morou por algum tempo no Estado do Pará; a Celha (a celhinha que tinha a voz de boneca, mamãe a imitava muito bem) também se casou. Apenas o José Antônio ( Xogoió), quando começou engrossar a voz, seu velho pai falou: “Zefinha o Zé Antônio está na hora de dar uma mãozinha no bar, já que o Carlos está de malas pronta para São Bernardo”. Não deu outra, o Xogoió iniciou os trabalhos ajudando Acelina na cozinha, fazendo bolo, lavando e enxugando pratos, vez por outra quebrava um. De acordo com Acelina, em Cada seis bolos que fazia, um o Xoga faturava com refresco de jenipapo, que o deixou um rapaz encorpado. Por último vieram as tristezas e as tragédias. A tristeza foi a saída de minha família para Maceió, e as tragédias, que desabaram sobre a família Soares abalando a todos nós, foram os falecimentos de Seu José Soares, Cássia e Clóvis. Minha mãe antes de partir desta vida, ainda em seu estado de consciência, das vezes em que eu a visitava, sempre abria um parêntese para saber notícias de Dona Zefinha, sua vizinha tão querida. Às vezes recordava alguns fatos de sua vizinhança. Hoje Dona Zefinha, a senhora está festejando mais um aniversário, às sombras do carinho e da atenção de seus filhos, netos e bisnetos, comemoração esta que a sua estimada vizinha Nilce apenas será festejada em memória. Gostaria muito de está presente, para poder abraçá-la e dizer que os seus conselhos ainda vivem comigo e que às vezes eu me emociono ao lembrá-los.
FELIZ ANIVERSÁRIO NOSSA SANTA VIZINHA.

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