BENEDITO , NEGO CARLO E OS CANOS QUE FALAM

Crônicas

Por Remi Bastos

Era mais ou menos o início da década de 60. Santana do Ipanema vivia os momentos das grandes safras de feijão; corria na cidade a notícia de que os canos de água instalados nas residências estavam falando, bastava por o ouvido em uma de suas saídas e lá estavam as vozes em idioma confuso; O Ipanema Atlético Clube vivia os seus maiores momentos do futebol; o Rio Ipanema e o Riacho Camoxinga disputavam suas cheias, mandando suas águas para o Velho Chico; A Empresa de Ônibus Senhor do Bomfim coloca uma linha direta Santana-Recife-Santana; Os blocos carnavalescos do Urso e do Bacalhau realizavam os seus últimos desfiles; o Cine Glória dar adeus aos seus usuários; a empresa de Luz & Força apaga por definitivo as suas luzes; Duda Bagnani é condecorado pelos alunos do Ginásio Santana como uma figura ilustre e intocável; a bodega de Seu Oséias compete com Seu Felisdório no fabrico de puxa e pinhão; a Sede dos Artistas apresenta os seus melhores carnavais e os bailes de julho no Tênis Clube Santanense entra no clímax de suas programações festivas.
Todavia, o que mais chamava a atenção dos santanenses era o boato de que os canos de água estavam falando. Nessa época Santana se preparava para aposentar o jumentinho com suas ancoretas. As ruas da cidade eram invadidas pelas tubulações que iriam receber a água do São Francisco. Foi justamente nesse período que supostas vozes do além se instalaram no interior dos tubos galvanizados. Certa vez eu me encontrava nas imediações da igrejinha do Monumento, quando avistei o Benedito e o “Nego Carlo” seguirem no sentido da cadeia nova, ali próximo o aterro, justamente para ouvir os canos falar. Segui os dois disfarçadamente sem que os me vissem e me coloquei na extremidade de um dos canos falantes. Primeiro vai o “Nego Carlo” coloca o ouvido, aí eu emiti um chiado com toque de trovão - xiuuuuubum, rap-rap-rap. E o negão dizia em tom “carioquês”: Diz aí meu! Não tô te entendendo, clareia mais a voz. Em seguida foi a vez do Biu. Ajoelhou-se, encostou o ouvido esquerdo na boca do cano, aí eu entrei mais uma vez em cena. Inicialmente fiz o chiado para que o Biu entrasse em contato com o medo. Depois com a voz trêmula falei: “Ah! Você é o Benedito.? Vap-vap-vap. Escuta “gaguinho fia da puta”, se não quiser que eu lhe siga hoje a noite, deixe embaixo do cano cinco mirréis. E o Benedito mais gago que nunca falou pro cano: Olhe seu-seu cano eu só te-te-tenho dois mirréis, Então deixe logo esse aí e se mande. Uk-Uk-Uk. E não é que o Biu deu uma arrancada, e o “Nego Carlo” sem saber o porquê o acompanhou na fuga? Essa é mais uma história verídica que relato, que aconteceu na minha adolescência. Aos dois amigos Benedito e “Nego Carlo” só me resta a saudade.

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