MINÚCIAS DE UM NOVENÁRIO

Crônicas

Por Jeno Oliveira

Afinei-me nesta tradição desde 1999, quando fui passar o São João em Olivença. Naquele mesmo ano e mês me mudei de uma vez para o sertão. Larguei a faculdade de economia e fui trabalhar no setor contábil da prefeitura desta mesma cidade, a convite do prefeito Maílson Bulhões.
 
Cheguei na hora do crepúsculo, com anseios de desfrutar das coisas simples e singelas. O ar puro, apesar das fogueiras exalando fumaça nos olhos, não me impediu que eu visse as casas humildes, calçadas enfeitadas, pessoas felizes, sob um céu único e admiráveis sertanejas.
 
Tudo era novo, e quando um santo descansou, no mês seguinte, dia 07 de julho deu-se inicio ao novenário da padroeira do lugar – Nossa Senhora do Carmo. Vi encantado o formoso cortejo de abertura, os cânticos de fé, as senhoras uniformes, a juventude impetuosa, os fogos, o sino dobrando, e a unificação da comunidade empenhada em nutrir com honras uma crédula tradição.
 
Eram tempos de descobertas, e eu sentia naqueles dias uma assombrosa sensação de paz e uma insólita alegria no coração e na alma. Cumprimentar os rostos ainda desconhecidos como se fossem amigos de infância era um sortilégio sem precedentes e eu me sentia dono de si, e com uma certeza evidente: há de como era bem melhor a vida no interior.
 
O novenário me revelou nove noites, de celebração a família, da civilização harmoniosa, das ruas adornadas de barracas cobertas de lona com cheiro de carne assando, crianças alvoroçadas brincando nos parques, da banda de pífano, do gritador do leilão, a oferta do escapulário, da leitura do Evangelho, dos casais de enamorados e a amalgamação do religioso com o pagão.
 
Noitadas de reflexão, de abraços apertados, de bate papo com os amigos, de inaugurar roupas novas, e de se apaixonar por alguma moça desavisada e bela. São pormenores pueris de cheiro e formato bucólico que nos dá gosto a continuar a viver com fé e esperança. É de fato uma festa boa do qual guardo muitas saudades. Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo...! Amém.

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