O COMEDOR DE DEFUNTAS

Crônicas

por Remi Bastos

Xoxígeni dos Santos Nunes, mas, conhecido na localidade onde residia, povoado Serrote da Foice, município de Guaribas no Sertão Alagoano, por “Xoxó Defuntão”, era um sujeito conforme diz o ditado popular, analfabeto de pai e mãe. Tendo seus pais já falecidos, foi morar em companhia de sua avó materna Josefina dos Santos que, por distúrbios da vida não teve condições de lhe dar uma educação. Xoxígeni ou Xoxó Defuntão desde criança já mostrava tendência para as coisas funerárias, pois, sempre se fazia presente nos festejos mortais, ou seja, nas sentinelas, onde acompanhava o cerimonial até o seu desfecho final, o sepultamento do morto.

O menino foi crescendo e graças a sua desenvoltura, aos doze anos de idade teve o seu primeiro posto trabalhista reconhecido, passou a atuar nas atividades sepultais como assistente de coveiro, além de fazer horas extras na confecção de caixões na funerária “À Caminho do Céu”, e participar de velórios onde cuidava da indumentária do defunto. Na medida em que o tempo ia passando Xoxígeni cada vez mais se aperfeiçoava na profissão. Conheceu novos amigos e logo se tornou um apreciador da caninha, vez por outra após a orgia preferia dormir no cemitério do povoado, pois ali se sentia mais seguro e protegido dos desaforos policiais.

Certo dia quando acabara de encomendar o caixão de um grande fazendeiro da região, Xoxó teve uma grande surpresa, foi convidado por um cidadão que também era coveiro, “Coveiro Chefe”, para trabalhar em Recife no Cemitério dos Ingleses na Avenida Cruz Cabugá.
O convite fora aceito e logo o Xoxígeni Nunes dos Santos se transferira para a capital pernambucana onde passaria a se ocupar do preparo e sepultamento de defuntos da fina burguesia. Em pouco tempo se adaptou ao novo emprego, salário melhor, mesmo assim, preferiu fixar sua residência em um cubículo situado nas adjacências do cemitério. No entanto, Xoxó Defuntão passou a experimentar uma nova clientela, onde as gorjetas aconteciam costumeiramente cada vez que preparasse o defunto com banho e roupagem nova para a viagem final. Tudo isso o Xoxó fazia impulsionado pela força da cachaça, pois, quase sempre mantinha em baixo da cama uma ou duas garrafas da aguardente “Chora na Rampa”.

Foi aí então, que nasceu o despertar pelo desejo sexual defuntal. Geralmente, por ocasião do asseio corporal que algumas famílias recomendavam para os seus falecidos, sobretudo defuntas novas ou virgens, o coveiro Xoxó antes de entregar a mercadoria pronta a passava nos peitos. Certa vez, a finada já preparada para o último embarque, no velatório, enquanto o marido em prantos se abraçava com a mulher nova e ainda sem filhos, ao lado o Xoxó Defuntão dizia consigo mesmo: “Pode chorar corno veio eu já provei dessa fruita”.

Aracaju/SE, 30/04/2014.

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