A PERIGUETE DE PENEDO

Crônicas

por Carlito Lima

Ela cruzou as pernas como se ninguém estivesse perto, o short jeans mostrava mais que escondia as coxas torneadas. Elisa é moldada, sarada em academia. O rosto moreno, cabelo preto escorrido, boca carnuda, olhar profundamente negro, completam a beleza exótica daquela mulher. Foi essa a visão de Edgar ao entrar no Restaurante Rocheira na tarde de um bonito dia de verão. O Rio São Francisco entre uma cor verde esmeralda e verde cana arrastava suas águas em busca do mar a alguns quilômetros de Penedo.
Edgar sentiu-se bem, tomou mesa em frente àquela mulher estonteante, cumprimentou-a com um discreto aceno de cabeça, pediu ao garçom uísque e tira-gosto de jacaré ensopado ao coco.
O segundo uísque ele já tomou na mesa de Elisa, conversa animada, altos papos, ela cantora do grupo de banda de forró, viajaria no outro para encontrar os parceiros em Campina Grande. Certo momento Edgar foi ao banheiro, telefonou para mulher, deu-lhe a boa notícia, a empresa que ele faz contabilidade havia liberado R$ 4.000,00 de gratificação, entretanto, só retornava para Maceió dia seguinte. Voltou à mesa da gostosa, tinha certeza de uma noitada de amor com a maravilhosa mulher.
Eram 9:00 horas da noite os dois em estado de alegria, triscados do uísque deram um beijo. Logo depois saíram abraçados rumo à pousada pelas ruas enladeiradas da bela, bucólica, colonial Penedo, cantando cantigas de amor.
Ao ver Elisa após o banho Edgar beijou-lhe com carinho, cheio de desejo, enrolaram-se vadiando até os instantes do êxtase. No intervalo de descanso ela pediu champanhe, Edgar eufórico com o desempenho e alegria da companhia, interfonou pedindo duas garrafas de Dom Pérignon, tomaram a primeira taça brindando de braços entrelaçados. Certo momento novamente veio-lhe o desejo, a moça disse espere, encharcou-se, entornou champanhe no corpo, encheu duas taças trouxe-as borbulhando estrelas de amor, como diria o poeta. Edgar tomou de um gole, jogou a taça, beijou-lhe o gosto do champanhe no corpo, após o momento culminante do segundo tempo, ele apagou, dormiu como um menino.
Dia seguinte, às 12 horas Edgar acordou-se com dor de cabeça tentando refazer, relembrar a noitada anterior, ao recordar-se da bela, levantou-se, a procurou no quarto, no banheiro, até que notou sua carteira na mesa em cima de um bilhete em letras garrafais: “QUERIDO, A NOITE FOI MARAVILHOSA, UM DIA NOS ENCONTRAREMOS, EU PAGAREI COM JUROS OS R$ 4.000,00.” Edgar percebeu o golpe da bela cantora, colocou alguma droga no champanhe, desligou seu celular e escafedeu-se. Não pode fazer um BO na Delegacia de Penedo, seria prato cheio para Imprensa, o remédio foi um empréstimo no Banco antes de retornar a Maceió. A ressaca moral era enorme, entretanto, a lembrança da noitada de amor ficou marcada dentro da mente e do corpo.
Meses depois do ocorrido, passeando pelo Shopping, Edgar notou uma figura conhecida num cartaz da banda do forró se apresentando em Marechal Deodoro, era ela, era Elisa entre quatro belas mulheres do grupo de vocalistas com vestimentas profundamente sensuais. Comprou ingresso. Na quinta-feira, dia da apresentação, inventou viagem de negócio, dirigiu 28 km até Marechal. Assistiu ao show de intensa animação, o povo dançava e cantava ao som da banda. Ao findar, Edgar dirigiu-se ao camarim dos artistas, pediu para falar com a vocalista apontando o cartaz em sua mão. O travesti que atendeu na porta deu um grito para dentro do camarim: “Periguete tem um homem bonito, um seu cliente querendo falar com você”. Elisa ao ver Edgar sorriu-lhe, “Desculpe querido por aquele dia, eu estava precisando, vou pagar tudinho, tim-tim por tim-tim, com amor”. Deu-lhe um abraço. Logo depois saíram juntos.
Toda vez que a Banda de Forró faz show retornando aos arredores de Maceió, a Periguete de Penedo paga um pedaço de sua dívida a Edgar.

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