Santana do Ipanema nasceu no coração do sertão. Santanense que se preze nunca esquece seu torrão natal. Quem nasce na caatinga jamais esquece sua terra. Diz um ditado que “quem bebeu da água do Ipanema, ainda que tenha partido, um dia volta”. Volta porque um dia matou a sede com o néctar da flor do sertão. Saboreou o licor precioso que perpetua a vida. Isso vai sendo passado de geração a geração, pelo sangue. A aridez do clima, as coisas do sertão acabaram indo parar nas mãos, na pele, no coração do sertanejo. A água do Ipanema refrigério pra garganta e pra alma do sertão. A beleza e exuberância da vegetação estar nos olhos da mulher sertaneja. A água salobra acaba vertendo dos olhos do caboclo, se longe se encontra do seu torrão natal.
O Sertão
Quando o galo canta na alvorada. O Criador se inicia a pintar mais uma de suas obras. O céu transfigurando-se de esplendor vai clareando, aos poucos passando de avermelhado a alaranjado. Como se a maior de todas as coivaras estivesse ardendo além do horizonte. O tênue fio de negrume pontilhado de estrela vai deixando lentamente o firmamento. Feito cortina puxada pro infinito. O breu da noite sendo varrido do céu, dando lugar a um magnífico cenário rico em beleza. Isso é o sertão. Extraordinário palco onde o mais belo espetáculo se inicia, a cada dia. Os casebres de barro sob a luz do sol vão tomando forma, a coberta das moradias vão projetando suas palhas contra o céu. A irregularidade das curvas do pau-a-pique. O barro sob a luz vai deixando de ser apenas silhueta, adquirindo a cor original. A manjedoura cheia de palma, o cheiro forte de Aloe vera, ruminada na boca dos bovinos. Ainda que longe da Judéia o sertão, lembra com riqueza de detalhes, o antigo cenário de Belém, onde Jesus nasceu. O cabrito berrando no chiqueiro. Galinhas, marrecos e guinés no terreiro, embaixo dum pé de umbuzeiro, se pondo a ciscar catam o que comer. A vaca, de paciência bovina, deixando-se ser ordenhada. O jumento atado a uma estaca pelo cabresto abana o rabo e a cabeça, tentando livrar-se dos mosquitos. A caatinga de chão forrado, com tapete de facheiros, chique-chiques, coroa de frades e rabos de raposas. Acauã cantando no olho da craibeira. Calango sardão se camuflando sob as folhas secas de catingueira, se esconde do astucioso Carcará. O majestoso mandacaru com seus imensos espetos. Seu fruto carmim assemelha-se ao coração de Jesus traspassado pela coroa de espinhos.
O Sertanejo
Os tons marrons e castanhos dominam a paisagem do sertão. De cor marrom, é a pele do vaqueiro. Tanto sua pele legítima, quanto as vestes de couro de boi que o recobre para protegê-lo do sol. Chapéu de couro e gibão, perneiras, peitoral e alpercatas. A sela e os arreios de sua montaria. Castanho é o couro do boi e do cavalo. Marrom e a madeira envelhecida dos bancos, dos tamboretes e da mesa de umburana de cheiro. Marrom e o chão rachado do açude seco. Dali o sertanejo tira a cerâmica que molda o tijolo, a telha, o pote e a panela. Dali o barro das esculturas de mestre Vitalino. Dali o massapé, a argila das entranhas, do corpo, da casa, e da alma do sertanejo. A corda de caruá entrançado. A corda que laça o boi, que apeia o bicho brabo é acastanhada. A corda que desce a vasilha até o fundo do poço e acorda a água. O cordel de barbante pelo peso das roupas arqueado postas pra secar. A poesia quarando no meio da feira. Castanho o cachimbo, a palha seca de milho e o fumo. Marrom, a água de barreiro. Castanho o apito de chamar o espanta boiada. O pião e a ponteira, a baladeira do menino. Marrom o cupinzeiro, o formigueiro, o enxame, a abelha e o zangão, o Louva-deus e o Cavalo do cão. Marrom o quengo do coco e a cocada. A paçoca, o amendoim, o doce de leite, o cravo e a canela. O bolo de castanha de caju. Castanha a casca do umbuzeiro, do angico, da macaxeira, do inhame e a raiz da mandioca. Marrom a Carraspana, a rapadura, o mel de engenho. A garrafada e a raspa do tronco do juá. Castanho os olhos da morena. Lá na Galiléia uma moça de cabelos morenos foi a escolhida para ser a mãe de Jesus o filho de Deus.
O Coração de Jesus
Santana do Ipanema tem nos seus modos e costumes, o jeito da cidade de Jerusalém. Nos seus becos estreitos. No sobe e desce das vias e ruelas. No clima e na vegetação. Nos lugares sagrados de oração. Igrejas e santuários se assemelham as sinagogas. O sertanejo e sua devoção levam-nos a assistir dos missionários as santas missões. Atravessam noites em vigílias e orações. Realizam novenas e procissões. Ensejando cânticos de louvores vai à multidão. Vão levando piedosamente, sobre um andor ricamente ornado, a mãe da mãe Santíssima Senhora Santa Anna. Ela quis habitar no coração do sertão, por ser lugar, semelhante à Judéia, onde viveu enquanto esteve aqui na terra. Romaria, um caminho mais longo, uma peregrinação maior para expiar os pecados. O ex-voto, feito para representar uma graça em Deus alcançada. Numa casa dum autêntico sertanejo, sempre vai se encontrar a imagem do sagrado coração de Jesus.
Um dia, lá atrás, na tenra infância, sentado no batente à porta de casa, na companhia de meu pai. Chegou-nos à calçada um pintor sacro. Expôs-nos sua arte. Meu pai foi até lá dentro, voltou trazendo o nosso Sagrado Coração de Jesus. A moldura se encontrava desgastada, carecendo de reparos. Perguntou se o artista também restaurava imagem, afirmativa foi a resposta. Ali mesmo na calçada, foi acertado o valor para que o peregrino artista restaurasse a moldura do quadro. Ainda hoje está lá, encravado de espinhos, pagando o preço das nossas faltas. Porém restaurado. Protegendo a nossa família, o meu, o seu, o nosso Sagrado Coração de Jesus.
O SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS
Contospor Fábio Campos 30/01/2012 - 14h 02min
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