O PROFESSOR WITTGENSTEIN

Contos

Por Marcello Ricardo Almeida

Perdeu-se no Trapiche o professor que dava ênfase reflexiva às vogais. Foi por meio do Prof. Wittgenstein que Cleobulina começou a trabalhar numa lavanderia comunitária, no Vergel. 
Na rua de chão desnudo, as crianças corriam e gritavam como se antecipassem o fim do mundo. Um vendedor ambulante sem camisa atravessou a rua com balaio de manga na cabeça. As casas eram pequenas, forradas com palha secas. As crianças descalças tinham pés ligeiros e gritos estridentes. A voz do vendedor de manga abafava as vozes das crianças.
O professor era um inglês, que falava alemão, e se encontrava hospedado na pensão, em Mangabeiras. Wittgenstein, na Barra do Trapiche, com pesquisas da língua nativa dos pescadores, onde se perdeu. Cleobulina voltava da casa de Esmeralda e ajudou o professor Wittgenstein a voltar a Mangabeiras.
No trajeto, Cleobulina e Wittgenstein passam no Vergel. Havia uma fonte onde surgiu a primeira lavanderia comunitária. Cleobulina nem sonhava em ser feirante, na Feira do Passarinho, ao encontrá-la. Uniu-se às lavadeiras e, ali, foi lavar roupa de ganho.
No trajeto, o professor Wittgenstein conversa com Cleobulina e lhe diz que a palavra com a qual se comunica possui em si um mundo de regras sociais cada vez que a usamos.
Como assim, professor? disse Cleobulina, que demonstrava ser aluna de Wittgenstein no breve trajeto entre os bairros de Maceió.
Cleobulina ouviu do professor Wittgenstein, ex-aluno de Russel, que a área da ciência linguística, a qual se chama morfologia, é responsável pela pesquisa da formação e da estrutura da palavra, além da classificação, formação e flexão. Ele falava com o sotaque inglês misturado ao austríaco-alemão e Cleobulina esforçava-se na tentativa de compreender a sua pronúncia e tropeçava no sotaque.
A conversa entre ambos se estendeu entre os casebres de pescadores, os pregões de vendedores ambulantes, as bodegas e as casas erguidas em ruas desmilinguidas. As lavadeiras, que passavam por eles com o fardo de roupa suja na cabeça, os cumprimentavam com sorrisos.
A classificação, por exemplo, disse o professor Wittgenstein, começa pelo substantivo, e segue em frente com verbo, pronome, preposição, conjunção...
Neste ponto, Cleobulina interrompeu o professor:
Uma irmã minha, professor, disse, falava em ter 10 filhos.
Dez filhos? disse Wittgenstein.
O mais velho, ela chamava de Substantivo, o segundo de Artigo, o terceiro de Adjetivo, o quarto de Numeral, o quinto de Pronome, o sexto de Advérbio. Neste ponto, professor, começaram as meninas. O nome da primeira, a escolha dela foi por Preposição, a segunda Conjunção e a terceira, ela não queria mais de três, lhe deu Interjeição por nome.
E não eram dez! lembrou o professor Wittgenstein à Cleobulina.
O derradeiro, professor, minha irmã queria que se chamasse Verbo. 
Esse sua irmã era muito tão engraçado! comentou e riu. Eu gostaria de conhecê-lo. As palavras também são muito engraçados. Eles são formadas pela raiz, feito árvores, eles têm prefixo e sufixo, e também tema e desinência.
Uma amiga da escola, professor, em Santana, era Desinência.
Desinência?
Era. A mãe dela era D. Desinência.
Esse senhora, D. Desinência, decerto, fosse uma fonema, uma elemento final, morfológico, sufixo gramatical, terminação que indica o flexão no palavra.
Era? disse Cleobulina. Não sabia. O marido de D. Desinência era Radical.
Alguma Sufixo ou Prefixo, no família?
Não, professor! riu Cleobulina com a ironia dele. Nem Tema, professor, nem Raiz, porque, lá, ninguém era árvore.
Em concordância verbal e nominal, Cleobulina, a desinência é necessária.
Ambos deixaram o Trapiche da Barra e, numa longa conversa, começaram a andar no bairro Vergel do Lago. E riam como se amigos fossem no trajeto entre viçosa vegetação e a terra escura e lamacenta. O cheiro azedo na terra, as casas de pau a pique cobertas de palha de coqueiro.
O professor Wittgenstein disse à sertaneja Cleobulina sobre o seu desejo em conhecer o sertão. Nutria a curiosidade epistêmica em conhecer as palavras, conhecer a composição dos sertanejos, a derivação, a abreviação, o surgimento de neologismos entre eles, ouvir a redução, ouvir o empréstimo lexical.
Qual era o nome dessa sua irmã?
Hipácia! disse Cleobulina. Era a caçulinha da finada mãe e do finado pai.
A palavra nos faz pensar filosoficamente, Cleobulina. Esse sua irmã mora em Santana, no sertão do Alagoas?
O professor Wittgenstein, após ouvir Cleobulina, aprendeu como voltar à pensão, em Mangabeiras, onde era hóspede. Cleobulina voltou ao bairro Vergel, à lavanderia comunitária. Foi sobreviver com roupa lavada. 
Cleobulina nunca mais ouviu falar no professor Wittgenstein, que chegou à pensão no horário de almoço do domingo Dia das Mães. Sentou-se o professor ao lado dos proprietários da pensão, a filha da viúva Dodona, e o marido dela, genro da viúva de Cruz das Almas.
A vida na pensão da filha da viúva de Cruz das Almas sempre polifônica. A vida era simples aforismo. Ela não se ocultava, vinha à luz na linguagem como se estivesse numa trincheira sob fogo cerrado:
“Não que eu não fosse ver apartamentos por aí; fui sim; vi muitos. Nenhum foi do meu agrado.”
...
“Se fosse falar de livro, que procurasse outro; eu não perdia tempo falando sobre livro.”
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“Não queria reprovar de novo em Anatomia, Citologia e Histologia.”
“Ano passado, reprovei em Nutrição Aplicada à Saúde.”
“E o que mais me atrapalhava o tico e o teco era a Bioquímica.”
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“Joguei todos os jogos, e perdi.”
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“Passava o Dia dos Namorados, passava o dia... Já não sei mais!”
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“Meus pais fizeram das tripas tamborim, mas não permitiram que nenhum dos filhos saísse debaixo das asas.”
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“O tempero que a minha tia ensinou a fazer era o que dava esse sabor.”
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“O meu aniversário era em dezembro e o meu signo era Sagitário; mas, no seminário, ninguém respeitava o signo de ninguém. Eu vivia pelos cantos, eu vivia descascando reboco de parede com as unhas, comendo barro. Acabei esquecendo meu aniversário e o signo; achei que tudo isso fosse bestagenagem, e realmente era.”
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“Me falaram, lá nos Correios: Fosse lá. Lá, onde? Lá, eles disseram. E, lá, saí. Lá, saiu um conjunto de blocos e estavam todos à venda. Eu fui. Não gostei.”
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“Eu sou filha da geração.”
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“Ah, como era deliciosa a minha tia!”
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“Eu nunca soube por que as pessoas resistiam em acreditar na ciência.”
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“Eu confessava, eu confessava, confesso a vocês que não gostava, não gostava, não gostava das datas, assim, festivas. Principalmente, principalmente, principalmente no Dia das Mães, no Dia das Mães, no Dia das Mães. Todas as conversas me lembravam a minha mãezinha, minha mãezinha, minha mãezinha, que ganhava a vida com costura, bordado, renda.”
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“Quanta conquista! Vi meus livros florescerem na quarta-feira de cinzas. Primeiro, tivemos que prometer chinelos e pijamas.”
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“Me dissessem, agora mesmo, agorinha mesmo, nessa mesa no almoço de domingo, cercada por pessoas sem modos, se em algum lugar houvesse alguma invenção mais incrível se comparada ao dinheiro.”
“Isso era impossível!”
“Praticamente impossível; não podia haver nada tão poderoso.”
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“Sempre fugi da dor, sempre persegui o prazer. Foi minha escolha em ser vendedor itinerante de livros como um verdadeiro ser deontológico. Lá em casa, todos nasceram com o espírito ontológico. O pai batia severamente, gostava de me castigar de maneira cruel e reiterada. Um por um, todos lá em casa perderam o espírito, a alma e o que tinha de ontológico. Lá em casa, todos foram obrigados, pela crueldade do pai e da mãe, em chutar a existência com a natureza do ser e a realidade. Nada de realidade, nada de existência, nada de natureza.”
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“Depois de queimar tanta pestana, noite adentro, era impossível que não soubesse a diferença entre sinônimo e sinonímia. Nas provas de concurso, eu matava no peito porque gostava de futebol. Ora, ora, ora! ‘Sinônimo’ era palavra da mesma classe gramatical de outra, como me dito na escola preparatória de concurso. Sinonímia não era sinônimo, porque sinônimo só em palavras com significados idênticos ou iguais; sinonímia quando a significação se aproximava, e não era sinônimo. A proximidade delas fazia mal-intencionados armarem belas arapucas.”
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“Fui gestada na poesia marginal.”
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“Minha tia era seguidora da Kundalini; ela tinha mais orgasmos místicos e menos orgasmos físicos; as ejaculações de minha tia eram sempre espirituais.”
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“Ninguém era obrigado a acreditar na ciência logo de cara, mas deveria pelo menos começar a gostar de ficção científica. Não era um começo, gente? Nunca prestavam atenção em mim; era cada um em seu ciclo de proteção. Ô gente, eu tava falando! Às vezes, era melhor falar sozinha.”
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“Minha mãezinha era lavadeira e cheia de filhos; o pai pedreiro, e eu só estudante. Estudei, estudei, estudei porque o propósito era ser funcionário, ser funcionário, ser funcionário federal.”
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“Quantas conquistas tornamos públicas!”
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“Na vida, não queria mais nada – só dinheiro, dinheiro, dinheiro.”
“Isso era música!”
“Era colírio.”
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“Minha obrigação era ser vendedor itinerante. Obrigação não. Eu sentia que ser vendedor itinerante era onde, realmente, sentia prazer e fugia da dor.”
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“Nós nos reunimos, nos verdes anos, como se dizia, e desenhamos o ministro da fazenda na corda bamba. Saimos da escola sonhando em ficarmos ricos. Na feira, só encontrei resto de feira.”
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“Foi a tia quem trouxe os primeiros discos, e eu os guardava até hoje.”
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“Eu adorava essa pensão por isto: ninguém prestava atenção!”
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“No seminário, fiz igual a martelete em pedra dura.”
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“Tinha o maior orgulho da minha vida em nunca ter apresentado nenhum atestado médico no trabalho.”
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“O povo lia à vontade, principalmente gibis.”
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“Assim que o dinheiro chegasse à minha mão mandava tudo às favas.”
“Não ia ficar nada à frente. Eu não ia respeitar nada. Era só ter um dinheiro e, aí, que explodisse o resto!”
“Ficar contando as moedas era uma coisa terrível.”
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“Era só seguir o utilitarismo das regras e conseguia-se ser o que se queria ser. Em meu caso, ser vendedor itinerante. Consegui.”
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“No frigir dos ovos, se quisessem saber, tudo era a mesma coisa em toda época, em todo lugar. Eu dizia aos colegas, no seminário, que a ciência tinha um ritual, não de coisas invisíveis, mas do que podia ser testado, refutado, comprovado.”
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“Nunca tive medo de dor de cabeça nem enxaqueca foi motivo de faltar ao trabalho nos Correios. Os Correios eram a minha vida. Sem os Correios, eu não seria nada.”
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“Ontem de manhã concluí minha leitura da Constituição da República.”
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“E todo mês ter que pagar o aluguel da pensão, a mensalidade do curso de Enfermagem, usar roupas usadas e sapatos usados. Nada disso! Eu queria mais.”
“Eu não sabia a quanto tempo usava a mesma bolsa.”
“Vi um sapato maravilhoso naquela loja do centro, que só vendia coisas assim.”
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“Meu pai não concordava que os fins justificavam os meios. Disse a ele, Ó pai, ó pai! E ele ficou com a opinião dele e eu fiquei com a minha.”
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“Por fim, foram as mulheres que dominaram a Terra e não os dinossauros. Não poderia desistir do sonho de ser aprovada no concurso do Banco do Brasil, e ser chamada a escolher onde trabalhar, como vi tantas vezes acontecendo na geração dos meus pais. Eu prometi aos meus pais que passaria no concurso e iria trabalhar no Banco do Brasil. Eles olhavam-me com tanto orgulho me vendo falar. Essa mocinha, papai dizia, sabia conjugar os verbos, solucionava as equações. Papai tinha muito orgulho de mim e eu dele; como eu amava papai e ainda o amava, papai, onde papai estivesse; e como eu amava mamãe, ainda a amava, mamãe, onde mamãe estivesse nesse domingo de silêncio e sol. Talvez, eu só tomasse a saideira; essa caipirinha era mesmo irresistível.”
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“Os amigos dos meus pais começaram a cair. O direito de greve foi tirado à força, no lugar do direito veio o arrocho.”
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“Havia uma pedra no quintal da minha tia. Depois eu fiquei sabendo que a pedra era usada em rituais. Minha tia, em noites de luau, ficava nua na pedra e os iniciados preparavam o vinho que molhava três pontos na sacerdotisa formando um triângulo tântrico.”
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“Li tudo sobre ficção científica, na biblioteca do seminário.”
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“Minha mãezinha adorava essa camisa. Eu não tirava nunca, e ninguém me fazia tirar essa minha camisa dos Correios. Eu acordava, eu dormia, eu dormia, eu dormia com a camisa dos Correios.”
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“Nada melhor, nessa vida, senão um bom livro que servisse de montaria.”
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“Também vi sapatos lindos naquela loja no centro que só vendia aqueles sapatos maravilhosos femininos. Era de ficar petrificada diante dos vidros na loja, e eu ficava, se pudesse, o dia todo e à noite admirando aqueles sapatos.”
“Por que não paravam de falar de sapatos! Eu também queria, queria ter essas belezuras nos pés.”
“Até sonhar sonhei com eles!”
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“Tempos depois eu fui entender o pai, mas, aí, já era tarde, ele e a mulher dele, aquela Inês, já estavam mortos. Por que a gente só entendia nossos pais depois de mortos? Se pudesse voltar no tempo, voltar à casa do pai, se pudesse sentar-se à mesa ao lado dele, se pudesse voltar a ficar com ele, eu ficaria, mas eu não podia mais discordar do pai quando não aceitava que os fins justificassem os meios e eu brigava, batia o pé. Brigava, era modo de dizer; batia o pé até podia ser tomado ao pé da letra; mas nunca quis brigar com o pai e, se alguma vez, aqui dentro do íntimo, quis, se briguei, pai, o pai me perdoasse onde o pai estivesse. Não quis, de verdade, pai, brigar com o pai sobre os fins e as justificativas dos meios, e também, pai, se briguei, briguei por causa da sua Inês, que era jovem, fornida e bonita; meu ato não merecia perdão. Não quis enganar o pai; só enganei porque também, pai, gostava da Inês; o engano justificava os resultados se eu conseguisse atenção da Inês.”
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“Éramos quatro, quando chegamos nessa pensão; eu e as três amigas; uma era frígida, outra amiga ninfomaníaca e a terceira era católica praticante. A católica apaixonou-se por um pai de santo e mudou de religião; outra reencontra, de repente, o interesse sexual que tinha perdido na festa de quinze anos e foi viver desejando avidamente a vida como nunca se imaginou que ela um dia fosse desejá-la; e aquela outra amiga recebeu um vento forte e se foi com ele aonde ele a levasse. Ontem, recebi um cartão-postal da amiga que foi morar numa praia deserta; alimentava-se de brisa e dos raios de sol no pôr do sol.”
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“A lenda em minha família era a de que havia fotografias desses rituais. Eu nunca vi as fotos dos rituais místicos que disseram haver de minha tia nua. Mas vi as fotos do irmão dela que, quando nasci, ele não existia mais. Meu tio, o irmão dela, era um alto funcionário.”
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“Andei, no tempo do seminário, à procura da fé e só encontrei a lógica.”
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“As correspondências viajavam o mundo. Minha vida, a vida minha... era devotada aos Correios.”
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“Viajei por todos os continentes, visitei importantes cidades sem sair da cadeira de balanço. Cada vez que eu queria viajar era só abrir outro livro e lê-lo de cabo a rabo. Maravilha! Que herança maravilhosa papai e mamãe deixaram! Anteontem, estive na Guerra de Peloponeso e, trasanteontem, no Senado, onde vi os senadores de branco recepcionando Júlio César; cada um deles com uma adaga manchada de sangue, todos vestindo a clavus latus e sapatos de couro vermelho. Hoje à tarde irei a Cartago e, talvez, à China visitar as dinastias Xia, Shang, Zhou, Qin e Han. À noite, talvez revisitar os moinhos que Quixote visitou e, mais tarde, iria à casa na floresta onde dormiam o Lobo e a Vovozinha. Queria vê-la deitada à vontade numa cama de palha, mal coberta com aqueles panos, mostrando as partes, mostrando as pernas que não eram pernas e, sim, poderosas colunas gregas que nem o cego Sansão conseguiu derrubá-las.”
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“Eu sonhei que trabalhava naquela loja de sapatos femininos, no centro, e roubava todos aqueles pares de sapatos de conto de fadas.”
“Depois do dinheiro, os sapatos.”
“Ah, eu queria ter sapatos lindos também!”
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“Meus benefícios, na casa do pai, eram moralmente questionáveis.”
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“Se falasse o que quisesse? Se acaso eu falasse em contabilidade, ouviria contribuições especiais, circularam sobre minha cabeça empréstimos, impostos sobre a renda, sobre o consumo, sobre o patrimônio, sobre os bens e serviços, e me apertaram as taxas, as contribuições de melhoria...”
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“Num domingo assim, a gente lembrava-se de coisas que muitos queriam que a gente se esquecesse.”
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“Esse tio, irmão da tia sacerdotisa do amor, andava fardado de general. E ninguém conseguia entender como, em pleno estio, o tio, segundo ouvia do pai, tinha no guarda-roupa só roupas assim, medalhas que usava, não no Carnaval, ia trabalhar assim.”
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“Se fosse possível, seria o primeiro a voar numa nave espacial além do sistema solar.”
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“Não queria nunca, nunca, nunca, nunca me aposentar nos Correios. Se os Correios fechassem, eu morreria. Os Correios não fecham nunca, nunca; se os Correios fechassem, as mensagens se acabariam, as pessoas não teriam mais como comunicar-se...”
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“Falar a verdade era preciso. Cansei dos livros!”
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“Sapatos e joias, muitas joias; não queria andar pelada.”
“Não conseguia nem mesmo pagar, e ver as unhas lindas na extremidade dos dedos dos pés.”
“Primeira coisa a fazer, dinheiro, ó dinheiro! Era entrar na concessionária e tirar o carro mais caro.”
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“Foi errado, meu pai; eu sabia, hoje, eu sabia, naquela época eu não fazia nem ideia; foi errado o que eu fiz. Os princípios éticos em nossa casa, meu pai, nunca deveriam ter sido rompidos, e foram.”
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“E já estávamos quase no fim do segundo domingo de maio.”
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“Eu não culpo meus pais por terem fugido da luta.”
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“O tio fardado, o peito de medalhas e ar. Os pés dele aqui e a cabeça lá.”
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“Eu acreditava na dobra espacial.”
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“Me desculpe porque eu sempre voltava a falar sobre os Correios. E me desculpe também, nesse domingo tão bonito, nessa mesa tão bonita, se não parava de falar sobre o trabalho nos Correios.”
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“Os livros só me trouxeram dor de cabeça.”
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“Só mesmo quem tinha dinheiro sabia o que o dinheiro significava.”
“Sempre acreditei nisso também!”
“Com o fim do dinheiro, o mundo se acabava.”
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“Hoje, eu respeitava meus clientes como se fossem meus pais.”
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“Não fazia ideia de o quanto eu gostava dessa data, desse dia.”
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“Havia coisas atravessadas na garganta como espinha de peixe.”
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“Era uma figura esdrúxula essa do tio.”
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“Um dia, a escola vai banir todos os livros das aulas. Esse dia estava bem próximo.”
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“Desde criancinha, isso eu nem tinha tamanho, e já queria ser carteiro. Enchesse o copo, fizesse o favor. Me lembrava. Com três, quatro anos ganhei dos padrinhos uma roupa, assim, uma roupa de carteiro. Recebi de aniversário uma pasta, assim, igualzinha àquela que usava no serviço, mais sapatos e mais camiseta, calça, meias e tudo. Eu sempre fui um carteiro verdadeiro, um carteiro de verdade. Ah, como era bom!”
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“Todos esses filmes, eu já vi!”
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“Agora, eu vi; eram cifrões mesmo que havia dentro de seus olhos.”
“Só agora eu percebi; depois de tanto tempo, só agora foi que vi que seus olhos eram dois cifrões.”
“Não falei?”
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“Como meu pai pode fazer tudo aquilo que ele fez!”
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“Eu passava o dia todo no trabalho calculando, calculando, calculando. E quando eu saía, só enxergava números. Piscava e os via. Os números iam dançando, dançando, dançando. Era tão engraçado, que eu podia rir de tudo. Contas, números, sinais, multiplicação, adição, subtração.”
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“Se não fossem essas duas, eu estaria no mato sem cachorro. Essa mãe, essa filha, essas duas me salvaram a pele. Sem elas, eu esfolava as mãos de tanto lavar uma pilha de louças que eu via o começo e não via o fim.”
...
“Um gol daqueles eu nunca mais iria ver.”
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“Eu vi cada coisa no meu tempo de seminário; preferia nem imaginar! Mas eles enrolavam muito com essas novelas sem pés nem cabeça.”
...
“Nunca mais vi meus padrinhos. Será que eles morreram?”
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“Agora, esse filme eu não perdia por nada!”
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“Como conseguia ter cifrões nos olhos?”
“Isso era fantástico!”
“Era o que achava?”
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“Talvez, eu tenha bebido demais. Eu sabia quando bebia demais, porque começava a reclamar de papai, da vida que tive com ele e, então, era melhor eu parar. Se continuasse a falar dele, ia contar tudo sobre as maldades que a gente cometeu por anos, ia também acabar revelando sobre outras coisas feias, até mesmo ia falar sobre às vezes em que tentei tirar a vida.”
...
“Fatias maduras de abacaxi modificado com raspas de casca de limão em torno de mim feito inseto. Uma abelhinha rondava a minha cabeça, enquanto eu estudava, enquanto eu me aprofundava nas páginas das apostilas sonhando em ser aprovada, finalmente, no concurso do banco, meu querido banco, Banco do Brasil. Mas as cascas de banana eram tantas, as cascas usadas nas provas, as pegadinhas maldosas, sempre me afastaram da sorte.”
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“E tudo era uma hecatombe; nem mesmo o sacrifício de cem bois pagava o zelo que eu tinha pelas minhas rosas.”
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“Gostando da carne? Comece, comesse porque só no próximo domingo haveria mais churrasco. Uma coisa que há tanto tempo eu queria falar. Era a ansiedade quem destruía a vida, o meu médico me falou; aprendi com ele, se a gente soubesse como a vida terminava não se preocupava com o final. Nesse caminho havia sempre os ansiosos, havia os ansiosos no meio do caminho que atrapalhavam. A moda, agora, era o mundo reclamar do preço da carne, do preço dos ovos, do preço das frutas, do preço dos aluguéis. Aqui, era carne à mancheia mandando bocas salivarem e dentes triturarem belos nacos.”
...
“Lixo, lixo, lixo em toda a parte; logo não íamos mais enxergar nem mesmo as estrelas. Eu já contei tantas vezes essas histórias que até perdi a conta, mas não me cansava em repeti-las. As ruas cheias de lixo, as casas sem pinturas, elas caíam aos pedaços. Quando eu era aluno do seminário, era aluno seminal e discuti muito com o professor sobre o dia, no futuro, um dia de lixo.”
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“Fazia tempo que eu fazia meu trabalho a pé; hoje, a ajuda da bicicleta; e ainda encontrava colegas de trabalho que reclamavam dos Correios. Não ia tolerar isso, porque não tolerava quem cuspia na colher e no prato.”
...
“Eu comecei com essa coisa de livros, porque herdei uma biblioteca.”
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“Eu tinha pesadelos que ficava pobre, que ia morar debaixo da ponte, que saía de rua em rua numa cidade grande pedindo comida nas casas por causa da fome, e as casas fechavam as portas; às vezes, sonhava que era perseguida por cãescachorros desse tamanho, porque os donos diziam aos cãescachorros que me atacassem sem piedade nem dó.”
“Que horror!”
“Eu não queria ter pesadelos assim!”
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“Eu sonhava, sonhava e não ia mentir, e desde criança sonhava em ser vendedor, e realizei o sonho. Sair vendendo. Em minha opinião, na vida, tudo era vendável. O que eu quisesse, eu conseguia vender. O pai viu isso em mim e não gostou do que viu; ele me cercou de perguntas, querendo descobrir onde foi que eu aprendi a querer ser o que não tinha nascido com vocação em ser e sonhava ser. Meu pai me castigava severamente, reprimindo meus sonhos; mas não me importava com as torturas dele. Fazia tudo escondido. Quando o pai me deixava só, e eu me achava sozinho, eu metia a cara nos livros lendo tudo o que fosse possível ler, porque queria ser exímio vendedor de bugigangas. O sonho de ser vendedor itinerante? O sonho de ser vendedor itinerante sempre existiu, o sonho em ser vendedor itinerante sempre resistiu em mim. Meu pai me fazia acusações terríveis; ele me dizia que eu era completamente individualista, que eu não dividia nada com ninguém, que eu metia todo o mundo no bolso. Eu dizia que era cristão, ele dizia que fosse estudar o materialismo histórico-dialético se quisesse aprender alguma coisa.”
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“Tudo ficou simplificado, menos as bananas.”
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“Nada haveria vida sem água, pois a água era quem nos mantinha.”
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“Aproveitasse, pessoal, antes que a carne terminasse.”
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“Meu confessor, como já lhes disse, era obstinado; e eu perguntava a ele por que ele não era pragmático.”
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“Não ia falar que era fácil trabalhar nos Correios.”
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“Como eu gostava de dinheiro, e não de livros. Comecei a me desfazer dos livros da biblioteca que herdei. Enquanto me desfazia da biblioteca vendendo parte do acervo, os compradores perguntavam-me: Você tinha aquele livro, você tinha aquele tal autor, aquela tal autora? Eu ia procurar; e procurava, procurava, e como não achava, saía pela cidade procurando aquele livro, aquele tal autor e tal autora; encontrava, comprava, vendia. Aparecia outro querendo o livro tal. E foi assim que eu comecei a perder o interesse em ganhar dinheiro e fui cativado por interesses por livros.”
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“A mãe e o pai sempre foram pessoas pobres.”
“Minha vida não seria de pobreza.”
“Nem a minha!”
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“Você não entendia nada vezes nada sobre o modo de produção social”, ele dizia. “E, talvez, ele estivesse certo; eu não entendia nada mesmo.”
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“Ser fragmentado era o abismo que atraía a vontade dos tolos.”
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“Felizmente, quem descobria de verdade que a gente envelheceu eram sempre os outros. Gente, a gente não sabia nunca que envelheceu até alguém rir. Gente, a gente só acreditava no espelho, gente, durante a juventude.”
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“Nem Santo Agostinho descobriu as causas da maldade. Não era o certo fazer o que se fazia com nossas flores; isso só complicou a vida das abelhas.”
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“No seminário, eu quis saber dos colegas o que eles entendiam sobre o nada, e eles me responderam que ainda não sabiam nada. Foi aí que entendi que não adiantava debater sobre o nada com eles.”
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“Aprendi com a mãe que em cartas não se mexia.”
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“Ontem, terminei de reler todos os clássicos.”
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“Não ia passar o resto da vida miserável escrava de um relógio miserável. Ia-me livrar de todos os relógios. Eu não queria mais nenhum compromisso que eu não quisesse tê-lo. Vi meus pais envelhecerem; e os vi adoecerem de tanto trabalho. O pai não dava sossego à mãe: todo ano filho, e os dois trabalhavam; ela professora primária, ele chofer de praça. Não queria isso! Por que eu achava que escolhi a profissão de Enfermagem? Queria encontrar um médico rico, um desses donos de hospital; mas se fosse dono de clínica me servia. O mundo não parava nunca de ficar doente; donos de hospitais, esses, sim, ganham dinheiro com gosto. Eu queria ter esse gosto também!”
“Eu dormia pouco, não conseguia ser eu mesma. Ficava me matando em cima de livros, decorando milhares de palavrinhas sem-vergonhas e com medo das provas, mas eu ia me vingar de tudo isso; era só meter a mão na grana que eu ia me dar bem.”
“Enfermaria não era de jogar-se fora. Eu entrei nessa por sua influência. Eu não ia viver tendo pesadelos o resto da vida porque não sabia se ia conseguir o dinheiro das contas.”
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“Pai, eu queria viajar, furar mundo, conhecer pessoas. Meta o pé, disse.”
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“As luzes não atraíam só os insetos.”
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“O tema de hoje era a família. Um tema apropriado a cada domingo.”
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“Eu sempre era perguntado como aprendi a fazer churrascos tão bons.”
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“Nas primeiras aulas de Propedêutica, no seminário, eu conversei com o padre professor o que eu pensava sobre a gênese da religião. O padre professor disse que era inexistente a gênese da religião, porque religião não tinha origem; o que tinha origem era o que tinha começo, e o que tinha começo, tinha meio e tinha fim; como religião não tinha fim, religião também nunca teve começo nem meio, porque a religião sempre existiu. Eu respondi ao padre professor que tinha que estudar mais sobre isso.”
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“Às vezes, a minha vontade era queimar todas essas apostilas falsas; levá-las ao latão, lá fora, onde era feito o churrasco, e fazer churrasco dessas apostilas de merda.”
...
“Era eu, sim, senhor, meu marido respondeu ao sogro. E o pai ainda lhe perguntou: Se o senhor era mesmo o senhor, como o senhor dizia que era. E o senhor podia provar que o senhor era mesmo esse senhor que o senhor dizia que era?”
...
“Como várias vezes eu contei, aqui na pensão, o meu lado paterno era mais forte se comparado ao outro. Aprendi tudo com aquela tia sacerdotisa do amor, que sabia tudo sobre a carne.”
...
“Por que nem toda religião era amiga da ciência? Fiz essa pergunta ao confessor; ele respondia-me, aborrecido, dizendo que meu objetivo era levar sua inteligência a acreditar em ficção científica, e em ficção científica ele não ia nunca acreditar. No outro dia, um vento levou o confessionário; e, no dia seguinte, veio uma cratera e rachou o seminário ao meio.”
...
“Realizei 99% de meus sonhos, posso dizer, quando recebi o resultado que prestei à Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos.”
...
“Ministério da Fazenda era um videogame alucinado. Perdi muito dinheiro no jogo da economia.”
...
“Meu pai era viciado em jogo; porque ele dizia que se não jogasse não ia conseguir aproximar-se da sorte. A sorte dele foi o azar.”
“Eu não podia ver dinheiro, logo começava a salivar.”
“Eu tinha comichões.”
...
“Não nasci árvore, nasci vento. Queria ser nuvem passageira.”
...
“Os dias eram cada vez mais longos. E as bananas eram as culpadas dessa falta de sorte; eu, que gostava de bananas, conhecia tudo sobre elas; comia desde cedo banana-da-terra, banana-prata, banana-maçã, banana-ouro, banana-nanica e até banana-d’água. Mas, um dia, mudou; essas e outras coisas me deixaram com a pulga. Cada vez que via uma lembrava imediatamente das pegadinhas nas provas de concurso e tinha náusea e até o cheiro.”
...
“Minha colega no trabalho se aproximou de mim e disse que trazia com ela um segredo. E fez mistério. Uma semana de mistério. Mais tarde, na última sexta-feira, ela veio me dizer que o segredo era sua festa de casamento e eu era um dos escolhidos, nos Correios, a ir.”
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“Eu queria fazer a história da vida trabalhando em uma empresa, em uma empresa, em uma pública. Prestei concurso. Pa-passei no concurso público da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos.”
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“Eu também abandonei o ramo dos livros, porque ninguém suportava mais tanta esculhambação.”
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“Parecia impossível uma pessoa pobre ficar rica?”
“Eu planejava isso a cada minuto.”
“Achavam que eu desisti de jogar! Continuava jogando toda semana.”
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“Cheguei à lógica de que uma pessoa ficou doente e a mãe dessa pessoa começou a repetir algumas palavras, criando em torno delas uma energia. Tanto a mulher repetiu, pediu tanto que a saúde voltasse à pessoa, que as palavras se tornaram orações. A mãe, repetindo as orações, pedia ao movimento que mexia as folhas nas árvores que interferisse e restabelecesse a saúde. Como eram as energias da natureza representadas na chuva e no vento, a mãe deu o nome de espíritos às energias da natureza. Mãe rogava aos espíritos que devolvessem saúde à pessoa. E foi assim que surgiram as divindades adoradas, as divindades com as quais a mãe negociava vantagens. Mais tarde, as divindades chegaram às religiões, às teocracias.”
Deve-se calar, como disse o professor Lude, o que não se pode parlar.
Em silêncio, no almoço de domingo, no Dia das Mães, o professor tomava nota das falas dos hóspedes. Ele revirava o que havia escrito sobre a existência do mundo na linguagem de cada um, porque só é elástico o mundo da linguagem.
Nesta fase de observação da pesquisa, o Prof. Lude, como se dirigiam os hóspedes a ele na pensão da filha da viúva Dodona de Cruz das Almas, anotava, rabiscava, tornava a anotar. Ele veio à América do Sul em missão científica. Em Mangabeiras, a voz do professor se tornou popular.
Na lavanderia comunitária, a primeira lavadeira que Cleobulina conheceu foi Redundância. Ela era redundante nos aspectos possíveis e necessários. Esta cismava com a lavadeira Tautologia, mais antiga na lavanderia comunitária, que foi falar da vida de todas as lavadeiras à Cleobulina.
Quem era aquele? perguntou Cleobulina. E aquela?
Aquele era Coesão! disse. O outro era seu cunhado Coerência.
Coesão, que cobrava taxa das lavadeiras, que era extorsão, mas alegava ser o ato preciso e necessário, porque assim se estabelecia a relação entre as lavadeiras e a lavanderia. O cunhado de Coesão, Coerência, agia de maneira lógica entre as ideias, segundo vozes gerais, no Vergel do Lago, por cobrar a paulada de quem se recusasse a pagar a taxa à Coesão pelo uso da água pública e gratuita. Esta conversa fazia nascer pulgas atrás das orelhas de Cleobulina.
Psiu! ouviu Cleobulina. Olhou. Era o taxador Coesão que lhe piscava um olho e mexia a cabeça como se a convidasse a ir sozinha com ele atrás de uma casa em ruínas. Psiu! insistia. Cleobulina respondeu-lhe com insistentes nãos, que lhe dizia com a cabeça, e mostrava que não era mais dessas, tinha saído daquela vida. Psiu! e os nãos de Cleobulina foram ampliados.
Venha! indicou o lugar à Cleobulina. E não precisa mais pagar a taxa.
Tudo o que Redundância sabia falar era:
Isso realmente é real. E digo por ser fato verdadeiro. Quase grito tão alto que perco a voz com o fim de minha capacidade vocal!
Redundância, essa mapa-múndi, disse Tautologia, figurava no caminhar dela todas as depressões, todos os rios, países, continentes, desertos, geleiras eternas, vulcões, cavernas abissais, como se costumava dizer, corais, oceanos gelados, oceanos revoltos, colinas, montanhas íngremes, vegetação, pedreiras, placas tectônicas. Sua força movia o sistema solar. Rodeada por filhos de todas as idades e sem pais.
A comerciante Cleobulina era de outra época, uma época que não existia mais em Maceió. Sob o sol de ouro, o povo na feira tinha pressa. Cleobulina, velha e cansada, arrastava-se entre o povo, pedia passagem. A sua tolda, que teve início numa banca de temperos, avançou, tornou-se um armazém de secos e molhados.
Os vendilhões gritavam em meio ao povo na feira os produtos quase de graça. Novidades que chegaram da China, do Japão e da Mongólia. Os produtos trazidos da Europa terminaram ontem.
Entre as vozes dos vendilhões, ouvia-se a voz do velho professor:
Nunca sai a escola de mim.
O sociointeracionismo, disse o Prof. Monótono, tropeçou numa garrafa, numa abordagem pedagógica doutras eras, e descobriu o valor da interação entre os indivíduos e o meio no qual eles comungavam. Bebeu cana e apregoou a fé na reiuna. Avoou o indivíduo protagonista de sua aprendizagem trôpega e bêbada. Saltou de banda toda a maldade, como uma tragédia de Shakespeare. Sófocles nem Ênclise nem Mesóclise viram nascer tanta pedra em ribanceira. A combinação dos fatores objetivos e subjetivos cingiram e não fingiram com cinto por sobre os rins; e filtram a água barrenta, no lago do Vergel, e beberam toda a água da lagoa até adormecer em um profundo sono. E, na sala de aula, o aluno mais apreende quanto menos atrapalha. Não só como faz o barulho do trem, a aprendizagem aprende a aprender em parceria com o choque do vaivém. Nada é passivo no meio, no princípio, no fim da conversa que se conversa na Feira do Passarinho. Fui testemunha e digo porque vi ser escrito e ouvi dizer Assim falava Zaratustra. Corria no mato saguis. Aqui, bem aqui perto. Nunca sai a escola de mim. A aprendizagem é um processo sem fim e nenhum começo. Não há ensino-aprendizagem se não for por toda a vida. A escola gruda no terço e, na terça, com a força sagrada do sagui, pula a escola e repuxa. Nunca sai a escola de mim.
Cleobulina, velha, surda de um ouvido, cega de um olho, se movia com o auxílio de uma bengala, observava a Feira do Passarinho. Viu a feira crescer de gente, viu esvaziar-se. Acompanhou o apito do trem nos trilhos, viu sumir com a fumaça. 
Sentada na porta do armazém. Essa era a hora da visita dos fantasmas. Os novos de seu tempo envelheceram, os saudáveis caíram nas desgraças das moléstias, muitos levados pela velha da foice nas costas. Cleobulina, sentada na porta do armazém, acompanhava o zunzunzum nas passagens estreitas e sujas diante dos olhos fatigados, como costumava falar.
Como vai a senhora, D. Cleobulina?
Fatigada! respondia.
E os negócios, D. Cleobulina, como estão?
Fatigados! repetia.
Por que a senhora não se candidata, D. Cleobulina? como resposta, Cleobulina deixava cair o lábio inferior. Indicasse alguém, D. Cleobulina! ouvia dela um muxoxo. Por quê?
Fatigada!
A exuberância do corpo de Cleobulina estava falida. Os seios, que tinham o desenho e as cores da criação no paraíso perdido, decrépitos, irreconhecíveis. 
Uns maracujás, meu filho! disse. São os últimos. Faço bom preço. Leve-os. 
E os maracujás ficaram caídos e murchos, pendidos na rama do corpo, no maracujazeiro. Os braços eram folhas caídas. O cabelo prateado. O cansaço nos olhos que se perdiam entre o povo, na Feira do Passarinho.
Ela nunca mais voltou a Santana. Lá, Cleobulina, eles criarão esse ano a Festa da Juventude.
Festa de quê?
Da juventude.
Na lavanderia comunitária, como costuma dizer de si, nos verdes anos, Cleobulina aprendeu a observar o comportamento das veteranas lavadeiras. As novatas eram bicadas pelas antigas de braços fortes e mãos ágeis entre panos molhados e espumas de sabão.
Tautologia passou por Cleobulina. Dirigiu-lhe a palavra num olá repleto de cortesia.
Olá! disse.
Olá! retribuiu-lhe o cumprimento com a simpatia proporcional ao olá.
Aquela lavadeira, disse, ali, é a irmã da assassina Clitemnestra. 
Clitemnestra! disse, incrédula que fosse a mesma dos jornais.
Clitemnestra matou o marido, que tá sepultado. Com a ajuda do amante, que ajudou a matadora despudorada e sem-vergonha Clitemnestra? questionou-se. Sim. O safado fugiu, como todo covarde. Era a cara da criminosa que tinha mãos no sangue da vítima? duvidou, e explodiu numa demorada gargalhada cuja boca não guardava mais dentes, só a língua vermelha que se encolhia.
Não sabia! disse Cleobulina.
Sim, sim, sim! disse a lavadeira, que entronchou a cara à Redundância. Não sabia por que ninguém falou?
Não! disse. O marido morto a paulada, peixeira e tiros, era o assassinado esposo Eufemismo, muito conhecido bastante aqui por todos. O genitor pai dos marcadores sintáticos Vírgula, Reticências, Ponto e Vírgula. 
Saiu em todas as rádios e em todos os jornais, daqui até São Paulo, tudo sobre a assassina Clitemnestra.
Foi?
Não reconheceu nem identificou?
Não.
Ficasse longe dela, essa aí! advertiu. Cruz credo, credo em cruz! cobriu a boca com um crucifixo que carregava amarrado ao pescoço numa fitinha azul. Ela era serpente venenosa e peçonhenta rastejante neste paraíso celeste. E os pais dela eram santos santificados, tanto Né Interjeição, como Função Fática.
No momento seguinte, a lavadeira Tautologia deixou Cleobulina e foi falar com a lavanderia irmã de Clitemnestra:
Como vai, amiga, como tem passado, e a querida e amada Clitemnestra? sorriu. Amizade é coisa rara e difícil.
Sorriu. A irmã de Clitemnestra mediu Tautologia com o olhar.
Coma deste pão que vai alimentar a tua fome, amiga! disse, e esboçou um riso e o levou a uma gargalhada recorrente que, em seguida, a devolveu ao riso, logo, à seriedade em seu rosto de pedra hume. Como estão S. Né Interjeição e D. Função Fática? Gosto tanto de teus pais! o riso se converteu em gargalhada. Gosto de amor mesmo, gosto de paixão! a gargalhada voltou ao riso.
Não posso comer, não, não, não, o que não é meu alimento!
E ficaram nesse coma, não como.
A juventude de Cleobulina não alcançava o sentido nas relações entre as lavadeiras, na lavanderia comunitária. Não demorava, as lavadeiras de roupas de ganho se prenderam aos cabelos umas das outras e guerrearam uma manhã na disputa de algum espaço no arame onde secar a roupa, uma pedra de sabão, um lugar no tanque d'água.
Aproximavam-se da lavanderia comunitária os passos que abalaram a rua e as bacias das lavadeiras. Protuberância, protuberância, protuberância! fazia o som. Protuberância, protuberância! 
Apontou no começo da rua de chão batido Baixo Calão. Protuberância! O que tinha de alto, tinha de largo. Acompanhava-o Antropomorfizado, que era uma porta com características humanas. 
Baixo Calão e Antropomorfizado pareciam a mesma pessoa. Cleobulina nunca tinha ouvido tantas vulgaridades fugirem da boca porca de uma pessoa imunda. As ofensas, na linguagem grosseira, eram impróprias até mesmo à Obscena, que dividiu a cama com Cleobulina em seus primeiros meses em Maceió. 
Juntaram-se a Antropomorfizado e Baixo Calão as conhecidas das lavadeiras, na lavanderia comunitária, Aspecto Fantástico, Narrativa Figurada, Caráter Metafórico e Moral Implícita.
Lá pelas tantas, chegaram Alegórica, Abstrato, Simbólica e Dáli Fábula.
De repente, uma inocente folha se desprendeu da jaqueira, na praça onde se encontra a lavanderia comunitária. Virou. Mexeu. O vento a carregou ao nariz de Baixo Calão. 
Que faz essa folhinha aqui! disse Baixo Calão, e bateu a mão espalmada, como se fosse destruir a folha, e quebrou o nariz. 
A violência, que causa mal aos outros, antes causa mal a quem a pratica. Moral da história, disse Dáli Fábula, a violência de Baixo Calão lhe provocou dor, interrompeu a respiração e, por um triz, não o fez perder a própria vida.
Por um triz, disse Cleobulina, não lhe quebrou o nariz.
Em Ponta Verde, próximo ao Gogó da Ema, uma formiga que passava embaixo da árvore ouviu uma cigarra cantar. Um graveto caiu da árvore e ganhou vida. Maceió deu o nome de Morfograveto àquela nova forma humana.

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