O vento frio do anoitecer havia arrefecido a planície para em seguida, aquecer a dor do silêncio que atingiu o cantor Agnaldo Timóteo. Os meus 19 aos 20 anos de idade, foram alimentados pelas canções deste grande intérprete, despertando nos jovens da época o sentimento pelas paixões reais e abstratas. As suas primeiras canções as ouvi em 1964, porém, foi nos anos seguintes, na companhia de alguns amigos, especialmente, Reginaldo Falcão, que ensaiamos os primeiros contatos ao copo, ouvindo Aline, Os Verdes Campos da minha terra, Meu Grito, Os Brutos também amam, Maria Helena, A casa de Irene, Quem é, entre tantas outras lindas cações.
Reginaldo Falcão havia comprado o seu primeiro LP de Agnaldo Timóteo e, vez por outra, me convidava à sua casa para ouvir músicas na radiola “Telefunken”. Foi aí que aperfeiçoamos a gula pela bebida. Certo dia, falei ao amigo Reginaldo, vamos convidar para as nossas farras ocultas, Motorzinho, Terezão, Mindinho e Sílvio de Jandira, assim podemos economizar o dinheiro da bebida. Tudo deu certo, aceitaram o nosso convite. Nessas alturas, a cerveja passou a ser saideira, enquanto a Pitu, Serra Grande, Mucuri e Chora na Rampa, cortesia do Terezão, passaram a fazer parte do cardápio das nossas farras. Quase todos os dias os candidatos a papudinhos, às oito horas da manhã, já estavam sentados nos batentes da casa de Sr. Eugênio Teodósio ou nos bancos da pracinha Sebastião Jiló, atualmente, Praça Alberto Agra, aguardando a saída de Reginaldo ao armarinho de Dona Mirtes, situado em uma das lojas térreas do Grande Hotel de Maria Sabão, onde ali coletava alguns trocados para tomarmos umas no Bar de Josa e na bodega de Seu Carlito. Também, no escondidinho de Zezinho de Dona Beatriz no povoado Maniçoba e na chácara do saudoso companheiro de tantas bicadas, Valter de Marinheiro, fincada no outro lado do nosso Panema, um verdadeiro Oasis.
Passado alguns anos, já estudando no Recife, apenas através das cartas, que recebia notícias destes amigos. Sílvio de Jandira não aguentando a constância da cana, se mudou para Paulo Afonso/BA, onde conseguiu comprar uma chácara as margens do Velho Chico e se tornar um criador de ema. Soube que atualmente está residindo em Santa Catarina, nunca mais apareceu em Santana. Mindinho foi pedir asilo em Maravilha, tornando-se mais tarde prefeito desta bela cidade. O sexteto foi reduzido a um quarteto, aí que a cana comia no centro, era cachaça e cerveja todos os dias. Dona Mirtes chegou a dizer para o seu filho Reginaldo: “Pelo amor de Deus abandone este vício peste que está comendo o seu fígado e afinando o pescoço”! O Terezão era apaixonado pela irmã mais nova do Reginaldo, não se cansava de ouvir, quando em serviço, um sucesso de Leno e Lílian tocado por Renato e seus Blue Caps, cujo título era, “A irmã do meu melhor amigo”.
Às vezes quando chegávamos à sua bodega, bastante desfalcada de bebidas, de imediato colocava três copos sobre o balcão, um para mim, outro para Reginaldo e o terceiro para Motorzinho, além de uma garrafa de Chora na Rampa. Servia os três copos, mas se alguém dissesse que não estava bebendo, simplesmente o Terezão dizia, a casa aceita e entornava a bebida. No entanto, dois anos depois, Reginaldo foi estudar em Brasília no Colégio Elefante Branco, porém, sentindo saudade dos amigos, através das cartas fantasiadas que recebia, no ano seguinte resolveu retornar à Santana.
Todavia, em 1970 a família do Terezão se mudou para Recife, enquanto Motorzinho, anos depois, seguiu para São Paulo, onde mais tarde se tornou Pastor das ovelhas de Deus. Reginaldo cada vez mais apaixonado pela sua deusa, que o evitava por conta do vício dominante, passou a tomar doses mais cavaladas, que se somavam a depressão que sofria por conta da doença “Vitiligo”, motivo que o fez se afastar dos amigos. Na segunda metade de 1985, eu soube que Terezão (Gevaldo Soares Vilela) estava com câncer já em estado terminal. Saí de Aracaju/SE, com destino à Recife, na Vila São Miguel em Afogados, na esperança de encontrar aquele grande amigo ainda com vida. A Vila São Miguel são sete ruas paralelas e unidimensionais. Ziguezagueei por estas ruas a carro, me informando em cada uma delas, mas nada consegui, apenas que a família estava residindo em Afogados, mas não sabia a rua. Desisti da busca e retornei ao meu silêncio chorando a perda de um dos meus grandes amigos em Santana do Ipanema.
Os meus contatos com Reginaldo limitou-se apenas as minhas idas ocasionais a cidade que mais amo, minha querida e inconfundível Santana do Ipanema e, que nas minhas fantasias poéticas e inspiradoras, a chamei de “Santana dos Meus Amores” (1968). Reginaldo, totalmente isolado, enveredou por outros caminhos passando a beber com pessoas que não tinha histórico de amizade, que se aproveitavam da sua condição financeira para explorar a inocência pela bebida, em nome de uma paixão enraizada em seu coração. Das vezes em que nos encontrávamos, o velho amigo marcado nos braços e no rosto pelo vitiligo demonstrava certo complexo. Quase sempre eu tomava a iniciativa de abraça-lo, ao tempo em que me emocionava ao ver aquele companheiro de tantas emoções vivendo momentos opostos às suas características. Até que no dia 16 de outubro de 2004, o frio mórbido da tristeza pairou sobre os seus ombros, silenciando o seu coração. Partiu Reginaldo Falcão como a neve que se desfaz das pétalas das flores, pela ação do vento, para irrigar o solo fértil onde suas alparcas assinalaram as pegadas que jamais o tempo e o vento apagarão das minhas lembranças. Adeus Reginaldo Falcão; Adeus Gevaldo Soares Vilela (Terezão) e Adeus ao cantor Agnaldo Timóteo.
Remi Bastos
Aracaju, 10.04.2021.
CANTOR AGNALDO TIMÓTEO – Lembrança dos amigos
CrônicasRemi Bastos Silva 14/04/2021 - 00h 12min

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