100 ANOS DEPOIS, A HOMENAGEM

Djalma Carvalho

Djalma de Melo Carvalho
Membro da Academia Maceioense de Letras

Em meus livros de crônicas, dediquei algumas páginas aos meus pais, Manoel Rodrigues Carvalho e Maria Lila Carvalho, já falecidos, fazendo referência ao belo exemplo de vida que ambos aos filhos deixaram como legado.
Em minha visão de criança, no sítio Gravatá, interior do município de Santana do Ipanema, para mim tudo ali era ampliado: a casa onde morava, a estrada, o riacho que transbordava com frequência e a fascinante lua cheia que nascia lá por traz da serra do Gugy.
Sítio Gravatá, início de tudo, cenário inicial desta colorida história de família.
A meia-água, todavia, tinha apenas dois quartos. Um, do casal, onde era concebida a filharada. O outro, dos meninos que iam nascendo de 11 em 11 meses.
Nessa ilusória visão, a meia-água era grande, muito grande, do tamanho da família imaginada por meus pais. Família que chegou a 10 filhos.
Ampliado, do tamanho do mundo, era o coração de minha mãe. Assim também o era seu macio colo, que a todos acolhia para o afago amoroso, carinhoso, para a cantiga de ninar em noites de suprema paz.
Há um ditado judaico que diz: “Deus não pode estar em todos os lugares e por isso fez as mães.”
Por sua vez, Luís Filipe Angell Lama (1926-2004), escritor, poeta e humorista peruano, disse: “Conselhos, se fossem bons, seriam vendidos, mas os pais não aconselham, eles, simplesmente, iluminam.”
Na verdade, criação divina são as mães, sempre presentes na vida dos filhos, em quaisquer circunstâncias. Os conselhos recebidos de ambos, com certeza, iluminaram a vida dos seus 10 filhos.
Minha homenagem aos meus pais neste sagrado ano de 2015. Se vivos estivessem eles, agora estariam completando 100 anos de idade. Um centenário, pois, do nascimento de ambos. Ele, nascido em 21 de setembro de 1915, faleceu em 28 de setembro de 1998. Ela, nascida em 17 de outubro de 1915, faleceu em 18 de janeiro de 1979.
Meu pai viera do sítio Gravatá, onde morava com os pais Francisco Ferreira de Carvalho e Maria Emídia Rodrigues Gonzaga. Minha mãe, nascida em Santana do Ipanema, ali residia com seus pais Constantino Barbosa Melo e Maria Rocha Melo (Dona Bilia).
Conheceram-se no ano de 1935, ou 1936, namoraram, apaixonaram-se e casaram-se. Recém-casados, foram morar no sítio Gravatá, em casa construída perto da casa-grande do meu avô paterno.
Tendo deixada a cidade, minha mãe construiu, ali no interior, seu mundo de sonhos, ajudando o marido no manejo do gado e no amanho da terra, sem se descuidar, contudo, das sagradas obrigações domésticas e dos filhos. Cultivou a bondade e a humildade como filosofia de vida. Extremamente católica. Uma doçura de mulher para um marido que, para a cultura e os padrões do lugar, santo não deveria ser. Querida, venerada e admirada, Dona Lila tornou-se amiga, conselheira e comadre de um sem-número de mulheres da vizinhança, também lutadoras e heroínas, numa época de vida interiorana sabidamente difícil. Para Dona Lila, a família deveria ser o sustentáculo maior e o pilar sólido da sociedade, com a preservação dos seus valores fundamentais.
Distante 9 km da cidade, no sítio não havia, àquela época, água encanada, energia elétrica, rádio, televisão. Estradas carroçáveis ligavam o sítio Gravatá a Santana do Ipanema, cujo comércio abastecia, semanalmente, a casa de bens necessários à vida no campo. De lá eram recebidas notícias do mundo civilizado.
Paisagem tipicamente sertaneja, bucólica, de campo e roça, de convivência pacífica do homem com a pródiga natureza. Naquele sítio nasceram os 10 filhos do casal: Djalma, Jarbas, Gileno, Terezinha, Ivone, Mileno, José, Maria das Graças, Aderval e Ademir. Curiosas parteiras substituíram os procedimentos médicos devidos. À época apenas um médico, Dr. Arsênio Moreira, havia em Santana do Ipanema.
Céu divinamente estrelado. Lua cheia, prateada. Rajadas de vento vinham do lado nordeste do baixio. De vez em quando, ouvia-se o longínquo latido de cães perdidos na noite. No açude do meu avô, ali bem perto, a sinfonia de sapos encantava-me. Noites de infinita paz.
Belas manhãs tropicais convidavam o homem para o trabalho de sol a sol no campo, na lavoura, no trato com o gado e na pertinaz luta do sertanejo contra as secas periódicas.
Para a meninada, o tempo era lento demais. Dias longos e noites preguiçosas. As festas do ano demoravam a chegar: Semana Santa, Páscoa, terços do mês de maio, Festa de São João, Festa de Santana, Natal e Ano-bom. E como demoravam!
À medida que os meninos iam crescendo e queimando as etapas do curso primário ali ministrado, eram eles levados para a casa da avó Bilia na cidade. Sob os cuidados e orientação dos bondosos tios José e Manoel Constantino, eram todos eles matriculados em escolas em Santana do Ipanema. Abriram-se novos horizontes.
Coube-me chegar, primeiro, à cidade, deixando o sítio com um nó de saudade na garganta e lágrimas derramadas. Depois, chegaram Jarbas, Gileno, Mileno e José. Os demais irmãos, tempos depois, acompanhados dos meus pais, instalaram-se na cidade, em casa própria, na Rua Benedito Melo (Rua Nova).
Vida dura. Os meninos cresceram, lutaram, enfrentaram dificuldades. Estudaram. Encheram-se de sonhos e aspirações. Trabalharam. Procuraram a via honesta do concurso público para o emprego de cada um. Hoje, vitoriosos, aposentados, todos construíram núcleos familiares fundados, sobretudo, na decência, na honestidade e na honradez.
Por tudo isso, afinal, ao ensejo da passagem do centenário de nascimento de Maria Lila Carvalho e Manoel Rodrigues Carvalho aqui registramos a homenagem dos seus filhos, netos, bisnetos e trinetos.

Maceió, setembro de 2015.

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