Existe uma hipótese que merece ser considerada. Talvez estejamos vivendo o maior processo de ritualização da sociedade desde a Revolução Industrial. À primeira vista, a afirmação parece absurda.
Nunca fomos tão conectados, tão acelerados, tão monitorados, tão submetidos à lógica dos dados. Nunca a inteligência artificial, as plataformas digitais e os algoritmos participaram tão intensamente da organização da vida cotidiana. Compramos, trabalhamos, estudamos, amamos, viajamos, adoecemos e votamos em ambientes permanentemente mediados por sistemas capazes de prever, sugerir, induzir e influenciar comportamentos.
Entretanto, é precisamente nesse ambiente que emerge um fenômeno silencioso. Quanto maior a presença dos algoritmos, maior parece ser o desejo humano por espaços onde eles simplesmente não entram. Essa talvez seja uma das grandes etno-observações de nosso tempo.
Os rituais deixaram de ser apenas heranças religiosas ou tradições culturais. Transformaram-se em territórios de resistência antropológica.
O algoritmo vive da permanência.
O ritual vive da interrupção.
O algoritmo elimina intervalos.
O ritual fabrica intervalos.
O algoritmo deseja nossa atenção contínua.
O ritual devolve a atenção para nós mesmos.
A sociedade industrial separava trabalho e descanso.
A sociedade algorítmica dissolve essa fronteira.
Não existe mais “fora”.
Toda pausa tornou-se potencialmente produtiva.
Toda caminhada pode gerar conteúdo.
Todo jantar pode produzir imagens.
Toda viagem pode ser transformada em postagem.
Todo silêncio pode ser interrompido por uma notificação.
É exatamente por isso que o silêncio voltou a adquirir valor cultural. Aquilo que antes era considerado ausência passou a representar liberdade. Estar inacessível tornou-se um privilégio.
Não responder imediatamente converteu-se numa forma de autonomia. Pela primeira vez na história moderna, desaparecer por algumas horas pode representar um gesto político.
O filósofo Byung-Chul Han observou que a sociedade contemporânea produz excesso de positividade, excesso de desempenho e excesso de exposição. Já o sociólogo Hartmut Rosa descreve a aceleração permanente como uma das características centrais da modernidade tardia e propõe a ideia de ressonância: momentos em que voltamos verdadeiramente a estabelecer vínculos com o mundo, com as pessoas e com a natureza.
Talvez os novos rituais sejam precisamente máquinas de produzir ressonância. Enquanto isso, cresce, em praticamente todos os continentes, uma geografia da desconexão.
Não é coincidência que hotéis anunciem a ausência de internet como diferencial competitivo. Que retiros de silêncio tenham listas de espera. Que mosteiros recebam executivos. Que jovens atravessem centenas de quilômetros em peregrinações como o Caminho de Santiago. Que práticas japonesas como o shinrin-yoku (o banho de floresta) tenham se difundido mundialmente. Que a cerimônia do chá continue ensinando que um encontro pode durar horas sem que ninguém consulte o telefone. Que parques urbanos lotem nos fins de semana enquanto milhões procuram simplesmente caminhar.
Não se trata de turismo. Nem de bem-estar. Muito menos de uma moda.
Trata-se da reconstrução dos ambientes nos quais a experiência humana continua pertencendo aos seres humanos. Esses espaços possuem algo em comum. Eles recusam a lógica da otimização. Ali, a eficiência perde importância. O tempo deixa de ser comprimido. A produtividade desaparece como critério. A lentidão deixa de ser defeito para tornar-se método. O silêncio deixa de ser vazio para tornar-se linguagem. O ausente volta a existir.
Essa talvez seja a maior ruptura antropológica produzida pela sociedade digital. Durante milhares de anos convivemos com os ausentes. Os mortos. Os ancestrais. As tradições. Os lugares de memória. As histórias familiares. As gerações futuras.
Os rituais sempre foram construídos para fazer com que os ausentes permanecessem presentes. É isso que ocorre numa missa. Num funeral. Num casamento. Na cerimônia do chá. Num ritual comunitário. Numa refeição familiar. Numa peregrinação.
Os algoritmos operam segundo lógica inversa. Eles trabalham exclusivamente com aquilo que produz presença mensurável. Cliques. Tempo de tela. Engajamento. Dados. Interações. Sua economia depende do presente permanente. Por isso talvez exista um conflito silencioso entre ritual e algoritmo.
O ritual não produz dados. Produz significado. O algoritmo organiza comportamentos. O ritual organiza existências.
Essa distinção talvez seja decisiva para compreendermos o momento histórico. Durante décadas imaginamos que a tecnologia substituiria os rituais. Talvez esteja acontecendo exatamente o contrário. Quanto mais sofisticada se torna a tecnologia, mais necessários se tornam os rituais. Não para preservar o passado. Mas para preservar aquilo que nenhuma inteligência artificial consegue produzir. A presença. A contemplação. A escuta. A memória. A comunidade. O limite. O mistério.
A antropologia sempre ensinou que nenhuma sociedade vive sem rituais. Arnold van Gennep demonstrou que toda passagem importante necessita de formas ritualizadas. Victor Turner mostrou que a liminaridade suspende temporariamente a ordem cotidiana para permitir transformações profundas. Mircea Eliade compreendeu que o ritual rompe o tempo profano e reinstaura um tempo qualitativamente diferente.
Talvez seja necessário acrescentar um novo capítulo a essa tradição.
Os rituais do século 21 já não protegem apenas o sagrado. Protegem a atenção humana. Protegem o direito ao silêncio. Protegem o corpo contra a aceleração. Protegem a memória contra a atualização permanente. Protegem o encontro contra a mediação. Protegem o invisível contra a transparência absoluta. Protegem o direito de não produzir. Protegem o direito de desaparecer.
Há uma ironia histórica nesse movimento.
A sociedade que acreditava caminhar para a desritualização talvez esteja inventando a maior quantidade de rituais desde a modernidade.
São pequenas zonas autônomas onde a humanidade reaprende, lentamente, aquilo que sempre soube fazer antes que os dispositivos passassem a organizar a experiência: olhar uma paisagem sem fotografá-la; caminhar sem registrar o percurso; conversar sem interromper a conversa; tomar um café sem consultar uma tela; permanecer em silêncio sem sentir culpa.
Talvez esse seja o verdadeiro luxo do século 21. Não possuir mais tecnologia. Mas possuir, ainda, alguns lugares onde ela deixa de comandar quem somos.
E talvez possamos formular uma hipótese final. No século 20, as instituições protegiam os indivíduos da natureza.
No século 21, os rituais talvez precisem proteger os indivíduos dos próprios sistemas que criamos.
Porque, se a inteligência artificial se tornar a principal organizadora da experiência humana, o último espaço verdadeiramente livre talvez não seja tecnológico.
Será antropológico.
(Texto dedicado para os alunos da disciplina Memórias Rituais, Narrativas da Experiência, ministrada por mim e pelo professor Luiz Alberto de Farias, da Escola de Comunicações e Artes da USP)
Fonte:
https://jornal.usp.br/articulistas/paulo-nassar/os-ultimos-territorios-livres-dos-algoritmos-por-que-os-rituais-voltaram-a-importar/
Os últimos territórios livres dos algoritmos (Por que os rituais voltaram a importar)
GeralPor Paulo Nassar, professor da Escola de Comunicações e Artes da USP 13/07/2026 - 08h 10min https://www.fatosdesconhecidos.com.br/algoritmos-o-que-sao-para-que-servem-e-quem-os-inventou-2/
Texto publicado no Jornal da USP - https://jornal.usp.br/?p=1028668
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