Blogs: Miragem da Serra, de Oscar Silva

Geral

Por https://www.apensocomgrifo.com

Santana do Ipanema é uma cidade toda cercada de elevações. Subindo-se o cimo do morro do Cruzeiro e tentando-se daí abranger, em rápida olhadela, o horizonte em frente e aos lados, vê-se a cidade como que na focal de uma elipse começada à esquerda na serra da Barriguda e passando pela serra Aguda, Remetedeira, Caiçara, Poço, Serrinha, Pelado, Camonga, Gugi, Macacos, Serrote e Gonçalinho, para fechar-se aos próprios pés do observador.

Em sua grande maioria, porém, esses montes não passam de simples elevações de uma caatinga cheia de cactos e arbustos rasteiros, sujeita a todas as mutações climatológicas do sertão nordestino: enverdece nas épocas chuvosas e fica ressequida, seminua ou despida nos períodos estivais. Algumas, todavia, como a serra do Poço e o Gugi, são verdadeiros oásis suspensos, a lembrar celeste Nabucodonosor construindo ali um segundo Jardim de Babilônia.

Há flagrante contraste entre a vida da capoeira e a da serra do Poço ou do Gugi. Dessas duas elevações descem para a cidade, nos grandes estios, cargas de água cristalina como os santanenses não possuem mesmo nos dias invernosos. E descem as boas frutas, a jaca, a manga de qualidade, a laranja doce, a jaboticaba e a cana caiana de gomos de palmo e meio. Desce o melado, desce a rapadura e desce o alfenim de engenhocas que o homem da capoeira só conhece quando tem coragem de subir a serra.

A serra é um como pedaço de mata que um cataclismo arrancou e atirou para o meio do sertão. Quem, a cavalo ou a pé, começa a galgar-lhe a íngreme subida, vai observando, de um lado e outro do caminho, vegetação bem diferente da que viu até há pouco na caatinga. Cedros, perobas, amarelos quase gigantescos erguem os braços onde pousam cigarras que não sibilam, mas soltam um como longo apito de navio que trouxesse do mar o seu adeus ao sertão. E lá em cima o vento sopra e ulula dia e noite, nas folhas daquelas árvores, ora cantando, ora assoviando e fazendo pensar num ser invisível que estivesse a ornar tudo aquilo por simples capricho de senhor feudal.

E se, ao contemplar esse mundo diferente, o indivíduo se volta do meio da ladeira, vê em baixo a caatinga de arbustos tortos e mirrados, como a dizer estar nela o sertão verdadeiro, a realidade em contraposição àquele verdor, àquela figurada abundância que não passa de simples miragem no meio do Saara nordestino.

Embora filho das margens Sanfranciscanas, o velho Pereira viveu e morreu na serra do Gugi. Conheci-o em casa de minha avó, aonde vinha ele invariavelmente todos os sábados para a feira da cidade e, vários domingos e dias-santos, a fim de assistir à missa, como bom católico que era.

Foi a convite do velho Pereira que eu e minha tia saímos um dia de domingo e fomos conhecer-lhe o pequeno sítio na serra do Gugi. Diziam-nos que o Gugi ficava a cerca de três léguas de Santana, distância irrisória para o sertanejo, menino ou adulto, que anda a pé quinze, dezoito e até vinte léguas por dia.

Clique Aqui e veja o texto completo em https://www.apensocomgrifo.com

Comentários