Alagoano (quase desconhecido) considerado um dos mestres do conto brasileiro tem obra reeditada

Cultura

Por Rodrigo Cavalcante - Agenda A - www.tnh1.com.

A vida do escritor alagoano Breno Accioly (1921-1966) foi quase tão breve, intensa e perturbadora quanto alguns dos seus contos.

Talvez por isso, o nome do escritor sertanejo nascido em Santana do Ipanema permaneça quase desconhecido entre os próprios alagoanos.

O lançamento de ?João Urso e Outros Contos Incríveis de Breno Accioly?, publicados em bela edição pela Imprensa Oficial Graciliano Ramos, ajuda a corrigir essa lacuna.

Ainda como estudante universitário de Medicina, em 1944, a estreia do santanense na literatura com os contos reunidos em João Urso conquistou logo dois dos mais importantes prêmios à época: o Afonso Arinos, da Academia Brasileira de Letras, e Graça Aranha, da Fundação Graça Aranha.

Breno conquistou também o reconhecimento da crítica e de grandes escritores, como Vinícius de Moraes e Mário de Andrade.

?Com um grande talento para o gênero, Breno Accioly veio abrir sobre as águas claras do conto brasileiro as comportas de sua alma tumultuosa, que habita nas trevas mais fundas e sórdidas do ser?, disse o poeta Vinicius de Moraes.

?Breno Accioly de um nada fazia um conto e acendia numa vela a chama da angústia humana?, disse Mário de Andrade.

?Alma tumultuosa? e ?angústia humana? expressam bem a atmosfera sombria dos contos de Accioly, dotados de uma força narrativa e efeitos dramáticos que já foram comparados ao estilo dos autores russos do século 19 ? ainda que tenham por cenário a paisagem sertaneja.

Apontado como um dos mestres do conto, o relançamento da obra de Accioly pode abrir caminho em boa hora para a revalorização de outros grandes nomes do gênero nascidos em Alagoas, como do escritor Ricardo Ramos (1929-1992), filho de Graciliano, cujo talento no gênero sempre foi ofuscado pela sombra gigante da obra do pai.

O próprio Ricardo Ramos, autor de várias antologias de contos, chegou a editar em vida uma seleção das obras de Breno Accioly. ?Lembro que meu pai sempre citava Breno como um dos grandes contistas brasileiros?, disse à AGENDA A o escritor Ricardo Ramos Filho, filho de Ricardo Ramos e neto de Graciliano. ?Apesar de ter saído de Alagoas aos 14 anos, meu pai sempre fazia questão de lembrar os grandes nomes literários do seu Estado, ainda que Breno fosse considerado dotado de uma mente intempestiva?.

Um episódio entre o próprio Breno e Graciliano Ramos, descrito no livro Retrato Fragmentado, de autoria de Ricardo Ramos, revela um pouco dessa intempestividade do autor de Santana do Ipanema. Ao menos de acordo com a versão do livro, Breno chegou certa vez a ameaçar de morte com um bisturi à mão o próprio Graciliano após o autor de Vidas Secas ter lhe passado uma descompostura por ele supostamente ter destratado um membro negro do Partido Comunista.  Após Graciliano encará-lo e ter dito ?não banque o doido comigo?, Breno entregou o bisturi a Graciliano e teria caído no choro, chamando Graciliano de seu verdadeiro pai e saindo fazendo ?juras de amizade e de admiração?.

Como também descreveu o escritor alagoano Ledo Ivo sobre a personalidade sombria de Breno (da qual travou contato pela primeira vez em Maceió, quando o escritor de Santana veio morar na Ladeira da Catedral), ?quanto mais o seu estilo se definia, mais se acentuava nele a evidência de um pequeno mundo de desamparo e incomunicabilidade, e até de delírio, de criaturas desvalidas e ilhadas em si mesmas, de almas fechadas, de seres mergulhados na noite mesmo quando havia sol e excesso de claridade?.

Não é à toa que o escritor Ledo Ivo escolheu como título para seu texto sobre a vida e a obra de Breno após sua morte (reproduzido ao final da nova edição) de ?Uma voz do outro lado?.

Uma voz que, certamente, merece novamente ser ouvida pelos alagoanos.

Fonte: http://agendaa.tnh1.com.br/vida/gente/4251/2015/08/28/alagoano-quase-desconhecido-considerado-um-dos-mestres-do-conto-brasileiro-tem-obra-reeditada

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