Texto extraído do livro "Hora e vez de José Geraldo W. Marques" A travessia Mágico-poética" organizado por Edilma Acioli Bomfim e Enaura Quixabeira Rosa e Silva - EDUFAL - também publicado em http://www.swainstituto.com.br
Introibo ad altare vitae meae!
Este é um depoimento que se baseia digamos, em uma pesquisa do interior de mim mesmo: uma geologia do espírito, uma paleontologia da alma. Foi escrito como um estudo folclórico, de acordo com a orientação da Escola de Folclore de São Paulo, que eu cursei. Quando dirigida pela Profa. Julieta de Andrade, nela procurava aplicar e desenvolver a teoria de folclore como cultura espontânea, elaborada e desenvolvida pelo Professor Rossini Tavares de Lima. De acordo com ela, o folclore seria definido como ?a ciência sócio-cultural que estuda a cultura espontânea do homem na sociedade letrada?. Cultura espontânea, por sua vez seria aquela manifestação do sentir, pensar, agir e reagir, criada de maneira natural, aceita coletiva e espontaneamente (portanto, sem a intervenção direta das comunicações erudita, popularesca (chamada popular) e de massa) e que se comunicaria de um membro para o outro do grupo por imitação ou condicionamento inconsciente. Neste depoimento, tento amostrar e mostrar a expressão da minha.
Ad altare vitae quae laetificat juventutem
Em novembro de 1946, inaugurei-me na Terra. Meu umbigo e meus dentes de leite foram enterrados em Santana do Ipanema, sertão de Alagoas, onde nasci e me criei. O próprio nome da cidade já diz muito das influências primeiras que recebi na formação da minha cultura espontânea, tornando-me naquilo que, segundo a orientação da Escola de Folclore de São Paulo, é uma característica de todo modo Homem de sociedade letrada:um portador de folclore, Santana: de Nossa Senhora Santana, padroeira da Paróquia, cujas festas marcaram-me indelevelmente a memória. Ipanema: do rio que atravessa a cidade, rio temporário, cujas cheias foram espontânea festas para minha infância e minha adolescência.
A festa de Senhora Santana era em julho, com novena e grande procissão no dia 26. Nesse período todo, o dia ficava marcado pelas matinas2* com seus foguetes e lágrimas *. Às noites, terminada a novena, podiam acontecer- ou não ? leilões e bazares. O que nunca poderia deixar de acontecer, porém, era o espetáculo pirotécnico com fogos feitos artesanalmente, dentre eles balões e rodas-de-fogo. Os primeiros podiam não subir e as últimas podiam falhar, o que apenas acrescentava um colorido de expectativa aos seus observadores: nós, os habitantes da cidade, os visitantes que eram muitos e os matutos *. todos na praça da Matriz, juntos, uma mistura bem brasileira. Quando tudo dava certo, ai sim, era o auge, principalmente quando as rodas de fogo apresentava, no final da queima, figuras de santos pintadas em panos que se desenrolava às nossas vistas!
O rio enchia nos anos em que havia chuvas, quando chovia nas suas cabeceiras, coisas que eu sabia estar acontecer se relâmpagos incandesciam o céu noturno ?lá pras bandas de Pesqueira, em Pernambuco?. Conforme os mais velhos me diziam. A espera da cheia punha algazarra nos corações e eu mesmo, em uma tarde de casa da avó, vi-o vir, sorrateiro e belo, engolfando a areia grossa do seu leito. Chegada a água e durante os dias da cheia, a paisagem transformava-se: canoas ficavam pra lá e pra cá e a gente da terra concentrava-se em uma das margens, em estado de admirada contemplação. Quando a cheia ia embora, o areal reaparecia, alguns poços remanesciam e cacimbas eram abertas.
O rio então, retornava à sua condição mais constante: matador da sede e higienizador da gente santanense. Agora, era vez das lavadeiras que ai vinham com suas trouxas de roupas e dos carregadores de água que vinham com suas cuias, pondo-se a encher potes de barro e ancoretas* para depois, sobre a própria cabeça ou em cangalhas no costado de seus jumentos, transportarem o escasso e preciosíssimo líquido para consumo ou venda.
Meus pais: Adeildo Nepomuceno Marques e Maria Rosalva Wanderley Marques. Eles embora Nepomuceno e Marques, descendia pelo lado paterno, também, dos Wanderley, do Poço das Trincheiras. Ela ali no Poço das Trincheiras mesmo, nascida.
Entre Santana e o Poço (como na intimidade eram chamado os dois lugares) sempre ou quase sempre houve certa rivalidade. Não sei bem o porquê. Para mim, suas causas são perdidas, ou escondidas, ou apenas veladas e raramente insinuadas: coisa do tempo da Guerra dos Lisos e Cabeludos, parece.? Quem vai ao Poço? - dizia-se em Santana - ? tem anos de atraso? E com frequência lá ia eu, principalmente em dias de festa como as de São Sebastião (cuja profissão escalava o Serrote do Cruzeiro) e de Reis. Ambas aconteciam em janeiro:dia 20 a primeira; dia 6, a última. No poço, toda a mágica da minha infância encontrava eco: na criação dos paturis de mãe Nina, na charrete de Gaspar e até mesmo no cemitério, onde espalhara-se de boca em boca! - algum morto estaria a virar serpente *. Do Poço, ficaram-se gosto na boca dos cajus passados e das broas (principalmente), os quais sempre eram presença obrigatória à espera das nossas visitas.
Do Poço das Trincheiras veio-me também uma tia solteira e anciã. Seu nome era Cornélia, porém chamávamo-la simplesmente de Titia. Suas estórias de trancoso valiam mais que qualquer desses programas infantis da TV de hoje. Fumadora de cigarros de palha e catolicíssima à própria moda, repartia o seu tempo entre o fazer de velas (na verdade era um refazer, pois reusava a cera daquelas que já haviam sido queimadas, derretendo-as e despejando o produto em canudos de carrapateiras que lhe serviam de formas),o queimá-las com infindáveis rezas para os santos ( os seus santos, quase todos cromos emoldurados que esplendiam no seu oratório), o fazer dos seus cigarros e o fumá-los. De vez em quando ia passar o dia ou os dias em nossa casa e quando havia noite pelo meio, era o tempo de contar estórias e mais estórias de trancoso para mini-multidão dos seus sobrinhos-netos. De dia não, que ?quem conta estória de dia, cria rabo?. As estórias eram muitas: a da Gata Borralheira ( o que seria borralho? Eu ficava pensando...), a do Homem com o Surrão, a de João e Maria (mostrando rabos de lagartixa como se fossem dedos)etc.,etc.
Titia morava com os meus avós maternos, em uma casa grande de curiosa arquitetura espontânea, cuja frente dava para o Ipanema e cujos fundos davam para um afluente deste,o Camuxinga, um riacho de difíceis cheias, que somente de raro em raro botava.* Na casa não faltava redes, preguiçosas *. café forte a qualquer hora, colchão e travesseiros de barriguda .broas *,doce de umbu, couros de bichos no encosto das cadeiras, candeeiros. O fogão era a lenha (? fogão-de-lenha? como se dizia) e para a minha avó, havia uma almofada com bilros para a confecção de rendas.
Terminando o espaço da casa propriamente dita, vinha o muro , inevitável espaço das casas santanenses, a estender-se comprido, chegando quase ao cercado do Padre (de propriedade do Padre Bulhões).O cercado era área interdita à nossa penetração por uma cerca de labirinto (avelós), cerca sempre viva e verde (mesmo na seca),da qual devíamos manter distância, pois ? o seu leite cegava?. Dentro do cercado passeava imponente, uma ema, a famosa ema do Padre e além dela ? disseram-me certa vez! - corria célere uma besta fera *. Na parede do fim do muro, separando-o do muro, havia um portão fechado a tramela. Depois do portão e antes do cercado, um paraíso de carrapateira, as quais ofereciam-se aos nossos brinquedos. Para eles, sua matéria-prima:folhas para sobrinhas; talos para cachimbo. Fumar suas folhas secas, nunca (mas havia quem o fizesse, diziam), senão ficaríamos amarelos, ?amarelos, empambados?. Pior ainda quem comece dos seus frutos (que nos serviam de enfeites), pois eram veneno e dos fortes, dizia-se.
O muro, também, servia para os nossos brinquedos: dramas que inventávamos, adivinhações, la condessa, marré derci, giroflê... Para brincar de chicote queimado, não: dentro de casa era bem mais apropriado.
Brincadeiras exclusivas de menino: jogar chimbra ,jogar pinhão. De meninas: brincar de boneca, geralmente com bruxas de pano compradas nas feiras dos sábados ? ou feita por Titia. Ignorando as regras da segregação ? e sob risco quer por vezes concretizavam-se em mofas (?mangações?, dizia-se), repreensões ou mesmo castigo ? não era raro que ultrapassássemos os limites recíprocos. Nas paneladas *, parecia haver um acordo tácito de aceitação, tanto por parte das crianças, como por parte dos adultos. Contanto que se mantivessem as devidas limitações de papéis, claro.
Quando as brincadeiras incluíam agressões, podíamos ficar intrigados * por muito tempo e para isto, havia um ritual, o ritual do corte aqui. Passados o tempo e a mágoa, ?descortava-se? e todos voltavam ao de antes, geralmente mais amigos ainda. A vezes, eram as próprias ?brincadeiras? que deflagrava a agressão e a ruptura, como aquele ?de enganar?, quando a um amigo desprevenido perguntávamos: - Que dia é hoje? E ele: - domingo! E nós: - o gato cagando e você engolindo!
Em frente a casa dos avós maternos, o dia de sexta-feira era motivo para terror e glória. Por aquela rua, inevitavelmente, passariam os bois, em lamentosa e resistente procissão, um jogo com regras para nós desconhecidas, a exigir necessárias improvisações constantes, rumo à matança *, Dos janelões, privilegiados por uma calçada altíssima, ficávamos nós, a olhar como de camarotes, em um vastíssimo anfiteatro. A glória: o espetáculo de ver os animais vindo, desde antes do Ipanema, depois cruzando as suas grossas areias, os vaqueiros com indumentárias de couro à frente, a conduzi-los. O ritual era sentido, mas não decifrado. Seus componentes, muito fortes, falavam alto: o chocalhar, o mugir, o segurar pelo rabo, tudo evidenciava um jogo de sobrevivência. O terror a possibilidade de que alguns dos bois mais bravos (os de máscara, então!) pudessem avançar sobre o seu público ? nós ? e atacar-nos. A possibilidade parecia estar sempre no ar e por isto, as vezes, precisávamos bater portas e janelas e permenecermos trancados dentro de casa em busca de proteção. Passada a boiada, passado o medo, retornávamos ao nossos ?camarotes? e novo ato recomeçava...
Depois da sexta-feira, o sábado chegava com a sua feira e a cidade transformava-se. Da janela da minha casa mesmo, era possível apreciar os eventuais ?mateus de reisado?, ouvir alguma zabumba , ver algum índio de Águas Belas que podia ?cortar língua? e assistir ao fluxo das matutas cujos lenços amarrados à cabeça pareciam muçulmanos shadors.
Dos avós paternos, ficou-me também na memória, uma casa. A memória de uma tradicional casa de fazenda. ?Os coqueiros?, com muitos terraços, a alguns dos quais o Ipanema oferecia-se em vistas, agora pela margem oposta à da casa dos avós maternos. Um lugar das proximidades ficou -me acesíssimo em recordações. Chamavam-no ?as tucaias?, por causa de supostas tocaias que ali teriam ocorrido, envolvendo Lampião e o seu exército. Não sei. O que eu sei é que, na minha infância e na minha adolescência, ali erigia-se uma capelinha, cuja calçada era repleta de ex-votos, de ?cabeças? como se dizia ?embora da cabeça ao pé houvesse um de quase tudo).Ali, deu-se o meu primeiro encontro com o Folclore, quero dizer, a ele sendo apresentado pelo nome. Foi um primo, colecionador, o intermediário. O local era tido por mal-assombrado e por esta e outras coisas, a cerimônia da ?apresentação? terminou em desabalada correria. Que deve ter valido a pena (pelo menos pelos troféus arrebatados pelo meu primo).deve. Um relâmpago definitivo, desde então, iluminou-me por dentro, para que eu pudesse enxergar o valor daquelas coisas, muitas delas magnificas esculturas, bem como das muitas outras de geração similar, como as quais pela vida a fora passei a deparar-me.
Da minha casa paterna e santanense, casa sempre simples, ficaram-me alguns detalhes. As cruzes de palha benta, ficara. De quarta-feira de cinzas a quarta-feira de cinzas elas permaneciam em lugares de fácil acesso sempre disponível para que, durante as trovoadas, pudessem ser acesas a fim de amainá-las. Assim, com trovoadas mansas teríamos a água tão necessária, sem o perigo de raios, ventos fortes ou mesmo dos trovões-de-estalos . As penas de pavão também ficaram. Eram como se fossem flores dispostas nos jarros, decorando o aconchego. Ficaram as jarras e os porrões *; os potes e os cuscuzeiros de barro; as colheres de paus e as gamelas *; as folhas de eucalipto ( do pé de eucalipto que era único na cidade e por si mesmo,motivo referencial constante, o da casa de seu Ferreira) guardadas para as gripes fortes, todas estas coisas ficaram. Os cágados, as galinhas e os porcos (todos criados no quintal) ficaram também; as ancoretas (servindo água à Santana sem saneamento) e os candinheiros * (servindo luz à Santana sem eletricidade) também tornaram-se definitivas permanências.
Meu pai era político, um espontâneo Coronel, um desses últimos, ao mesmo tempo típico e tão dissonante, a repetir no reino do sertão das Alagoas, o sem dúvida luminoso fenômeno dos déspotas esclarecido. Compadre e padrinho de bem mais do que meio mundo. ;.Paraninfo* obrigatório de quase todo casamento dos matutos. Com ele e minha mãe, fui a inúmeros, bem como a batizados, dos quais guardo num baú do peito esquerdo, os instantâneos que meu olho infantil fotografou: ali há danças acompanhadas por sanfonas, há buchadas *, há cavalgadas e cavaleiros. Eram os meus contatos,, de mim, ?menino de rua? *, com o ?povo do mato?, os quais, por sua vez, tinham também acesso garantido e irrestrito às salas mais íntimas da nossa casa de Prefeito, de Deputado. Cumulavam-nos, e, ambas as ocasiões, com encomendas *, as quais podia tornar-se mais generosas aos sábados: frangos e galinhas, capões e perus cevados, milho verde, feijão de arranca ou de corda , até carneiros ou mesmo cágados, tatus e gatos do mato. A alguns doadores das encomendas, recompensava-se com algum agrado e a outros, a recompensa ficaria adiada para algum favor futuro. A maioria das encomendas, porém, já vinha como uma forma de gratidão.
As noites santanenses, pacíficas e escuras, estreladíssimas e banhadas pelos luares mais sertanejos, eram favoráveis ao aconchego. Na rua, podíamos brincar à vontade. Quando não apenas sentávamos a repartir estórias, principalmente de assombração. Lembro-me de uma de arrepiar: a do Padre de Carié. Este, tinha até testemunhas oculares: era visto como um esqueleto, pendurado em uma árvore, no Serrote do Carié município de Mata Grande. Tarde da noite, acontecia serenatas de vozes famosas: Zé Panta, Caçador, Cícero de Mariquinha. Não eram estacionárias: subiam ou desciam a ladeira da minha rua, como a escorregar pelo óleo da noite, com canções e novas canções para a lua. O silencio quase absoluto de muitas madrugadas eram pontuado, às vezes, pelo cantar de carros de bois ou pelo polifônico coral dos romeiros que, do alto dos seus paus-de-arara, rumavam à Meca nordestina: o Juazeiro do meu Padrinho Cirço.
Dançar, dancei. Quadrilha, Pastoril*, Carnaval. Na primeira, fui noivo; no segundo, pastor; careta*, no terceiro.
As quadrilhas infantis aconteciam todo ano, nas festas de junho. Acompanhados pelo sanfoneiro e sob o comando do marcador (muitas vezes uma marcadora, como era o caso de Tia Marina), ensinávamos e apresentávamos os nossos passos: alevantú, balancê, changedama, anarriê, granchê, etc. Geralmente íamos em cortejo até o local da dança, eu e a noiva à frente, os outros pares como que em procissão atrás, todos num balanço quase dança. Uns três anos fui assim, a casar-me repetidamente com a mesma noiva.
O Pastoril, dancei-o uma vez, na época de Natal como era o costume, num grupo de crianças e adolescentes, sendo eu o menor ? e o mais novo. Foi um pastoril de fama, ensinado por Jacira. Obteve tal sucesso que até fomos apresentá-lo, a convite, viajando em cima de um caminhão por uma estrada de barro, na ?distante? cidade pernambucana de Águas Belas. Eu era o pastor do encarnado, papel que, se por sua vez causou-me indivisível alegria, por outras custou-me indescritível dores, dentre estas, a de ver o meu cordão derrotado, após acirradissima batalha, o que, mesmo assim, não impediu que tivéssemos o nosso particular baile de coroação. Este episódio marcou seriamente toda a sociedade santanense, com brigas (envolvendo inclusive vovô Joel, meu avô paterno), choros e tudo o mais. Do pastoril, é como se ainda hoje eu ouvisse as suas jornadas* e as suas partes variadas *. Jornadas: ?boa noite a todos?. ?adeus é hora?, boa noite meus senhores todos?, etc. Partes variadas: desde a da borboleta até a de um inusitado maracatu.
O carnaval de Santana era animadíssimo à sua maneira a para o seu sucesso algumas figuras eram indispensáveis. Seu Carola, Seu Agenor, Seu Nôzinho... Seu Carola, fantasiado de urso, a frente do bloco do urso preto. Amarrado pela cintura pelo domador, era seguido pelos foliões que cantavam:
?Mas como foi
mas como é
o urso preto
vem da barca de Noé
Todo mundo já dizia
Que esse urso não saia
esse urso anda na rua
Com prazer e alegria.
Ver os blocos passando era um deslumbramento com emoções ambivalentes: felicidade mágica pela sua contemplação poética e medo, medo do inferno (pois a minha tia, a Titia dizia-me que lá deveria ser assim, comparando-a aos cordões das foliões). O encantamento, porém, era grande, principalmente ao ver os bichos que Seu Agenor fazia... Destes o mais famoso era o elefante que ensinava um caminho, luzes brilhantes em resplendorosa alegoria, com a rainha do carnaval no seu dorso, a fazer a alegria do Sábado do Zé Pereira.
O tempo nos dia do carnaval era bem sequenciado. Pela manhã, grupos avulsos de caretas ou caretas solitários. Destes, alguns eram famosos, como era o caso de seu Nouzinho. Os caretas faziam medo as crianças e eu tanto passei pela fase do tê-lo quando pela do fazê-lo, reio* na mão e a boca fazendo: rrr,rrr,rrr. A tarde vinham os blocos mais organizados. Estes não desfilavam em conjunto, mas cada qual pelo seu percurso e pelo seu lado, iam espalhando suas cores, suas danças e seus cantos Santana a fora. De noite, os bailes.
O carnaval era sempre associado à ideia de fim do mundo, numa escatologia folclórica a qual não faltava a crença nos três dias de trevas, durante os quais a única luz possível seria a das palhas bentas que fossem queimadas. Os cãos * então, estariam a solta e tentariam entrar nas casas respeitando apenas as que tivessem palha e água bentas, dísticos e/ou sinais nas portas.
Medo do fim do mundo... como ele foi frequente na aurora da minha vida! ?Mil passará, dois mil não chegará?, repetia-me como advertência a minha tia. Explicava-a através de uma estória, na qual Nossa Senhora teria tomado de um punhado de areia e atirado-o pronunciando tal sentença, a qual significaria que não chegaríamos ao ano 2000. Esta em uma crença generalizada e para dar-lhe cunho de verdade dizia-se até que constava da Bíblia! Os acontecimentos da Semana Santa, todos ou quase todos eles, estavam permeados pelo medo do juízo final. O auge era no sábado. Neste, o padre deveria achar ?a aleluia?. A qual ficava escondida num livro. Havia sempre o perigo de que ele não a encontrasse, aquele seria o dia do fim. A alegria era muita quando os sinos da igreja matriz tocavam, por isto significava que a misteriosa e salvadora aleluia fora ? finalmente achada.
Das minhas primeiras leituras sérias, uma marcou-me profundamente: um folheto de feira (coisa que depois vim a conhecer com o nome de literatura de cordel), estória de um boi. Foi presente de Sá (era assim que chamávamos minha avó materna), trazido de uma viagem que fizera à cidade de Pão de açúcar. Presente que me foi caríssimo, lido e relido muitas vezes e magicamente digerido e redigerido. Presentes assim, comprados nas férias muitas vezes fizeram a minha felicidade. Não creio que nenhum brinquedo eletrônico desses de hoje, possa fazer alguma criança mais feliz do que eu fui com meus bois e burros de barro com seus caçuás* e tudo.
Na minha casa paterna, dois ciclos definiam-se anualmente, inclusive na alimentação: no São João e na Quaresma. Na quaresma: as costumeiras substituições de carne por peixes (principalmente por bacalhau), traziam cheiros e gostos diferentes, tornando mais vivo pelo coco, base da preparação dos novos pratos. No São João (época que incluía várias ocasiões do mês de junho ou mesmo de antes), as canjicas* e os milhos passados ou cozinhados, punham expectativa na gente quando se aproximava a hora das alimentações. A quaresma culminava na Semana Santa e estas, algumas vezes, era seguida por um mini-carnaval, a que se dava o nome de micareme. O São joão propriamente dito comemorava-se no dia 24 de junho, chamado de véspera. O dia 25 era o dia, porém não tinha comemorações. A véspera de São João era a grande festa do período. Havia ainda as vésperas de São Pedro e Santo Antônio, porém era coisa menor (a de São Pedro, às vezes era também uma festa muito animada). Além das fogueiras, dos muitos fogos e das múltiplas adivinhações, havia as brincadeiras(brincadeiras?) de padrinho ou de madrinha de São João*. Eu mesmo tive uma madrinha, com fogueira saltada* e tudo, com fórmulas pronunciadas e o mais, que se elevou quase ao status de madrinha de batismo: Madrinha Olávia, uma Wanderley do Poço. Na meteorologia primeira que eu aprendi, o redemunho* podia trazer o diabo e era prudente, ao pressenti-lo, ir-se logo dizendo:?Meu Jesus, Maria José!? Os trovões podiam trazer coriscos, pedras que se enterravam, das quais cheguei até a possuir algumas. Quanto às chuvas de pedra*, havia um ?mistério?. Se a casa fosse coberta de palha, as pedras de gelo não atingia ao seu interior; se a cobertura, porém, fosse de telha, o interior seria atingido. Como as pessoas pobres tinham as suas casas cobertas de palha, aproveitava-se a estoria para se fazer um religioso elogio a pobreza! Quando armava-se um temporal, ou seja ?quando começava a se formar?, não se podia dizer que as nuvens estavam pretas, pois ?certa vez uma moça assim procedera e ouviu uma voz que lhe respondeu: _ mais preta está a tua alma no inferno?.Era para se dizer assim: ?está escuro, ou escurecendo?, não mais que isso. Os trovões eram bem classificados pelo menos na cabeça de Papai Janjão (meu avô materno), De um modo geral por eles chamado de ?o pai da coalhada? no entanto, havia os trovões-de-estalo e os trovões redondos*, assim chamados de acordo com o tipo de sons que reproduzissem. Havia uma música de carnaval que era pecado cantar, pois o seu estribilho dizia: ?tomara que chova três dias sem parar?, havia outras, ainda. Às vezes, ao sol sertanejo juntava-se uma rápida chuva e sabíamos então, que ?a raposa estava casando?.
Emborcar o sapato? Cruzar as mãos no cangote*? Nunca: era agourar os pais, ou seja, desejar a sua morte. Deixar varrer os pés? Só se nunca se pretendesse casar! E casar compadre com comadre(ou seria simplesmente amancebar-se*?)? Quem o fizesse, viraria, na certa, fogo corredor. Era preciso, ainda, ter muito cuidado com as ?horas fortes?. Do dia: meio dia, a ave-maria (18 horas) e não lembro se outras mais. Passar por baixo do arco-íris (como seria possível?) nem pensar: se fosse homem virava mulher, se fosse mulher virava homem!
Outros cuidados mais: com certos sinais, com por exemplo com o ?sino de salomão? (que na realidade, era a estrela de Davi), com a caipora*, com o papa-figo e com o bicho papão. A rezas fortes, como por exemplo o ofício de Nossa Senhora (que diziam ser magnificamente cantado por Concebida nas missas da madrugada), com elas, era preciso, ter-se todo o cuidado!
E foi assim, de cuidados em cuidados, que em uma nova geração santanense fui vindo a ser...
Ite missa est
A aurora da minha vida terminou. Reflete-se agora, no meio-dia que me entretece. Ao crepúsculo que espero atingir, conduzirei os seus luminosos e últimos raios persistentes. Fizemo-nos cúmplices e partícipes. Continuemo-nos. Continuemo-nos!
?... E entrou numa de pinto
e saiu numa de pato
E seu rei mandou dizer
Que me contasse vinte e quatro?...
Breve viagem folclórica à aurora da minha vida
Especiais de Domingopor José Geraldo Wanderley Marques 04/08/2012 - 20h 10min Capa do Livro/Edufal
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