A hora e a vez de Luitgarde

Especiais de Domingo

por José Marques de Melo

José Marques de Melo
Professor Emérito da Universidade de São Paulo e
Diretor-Titular da Cátedra UNESCO/UMESP de Comunicação


A hora de Luitgarde

No dia 22 de dezembro de 2011, a professora Luitgarde Oliveira Cavalcanti Barros completa 70 anos de idade, encerrando sua carreira docente na Universidade Estadual do Rio de Janeiro ? UERJ, onde atuou durante os últimos 15 anos.
Vários atos acadêmicos estão programados no último trimestre de 2011, com a finalidade de homenagear essa indômita produtora de saber.
Em outubro, durante a V Bienal Internacional do Livro de Alagoas, em Maceió, está previsto um colóquio sobre sua vida e obra. Haverá também uma sala especial com o seu nome, onde ela autografará seu mais recente livro sobre Nelson Werneck Sodré.
Em novembro, a Cátedra UNESCO /UMESP de Comunicação realiza, em São Bernardo do Campo, SP, uma mesa redonda dedicada aos caminhos cruzados que ela vem percorrendo, entre a religiosidade popular e a cultura dos marginalizados.
Em dezembro, no Rio de Janeiro, será lançado o livro A hora e a vez de Luitgarde, reunindo estudos sobre a sua atividade intelectual.
Contrariando o dito popular ?santo de casa não faz milagre?, Luitgarde não foi esquecida pela comunidade de origem.
Na cidade alagoana de Santana do Ipanema, sua história de vida é pouco conhecida, mas ela vem sendo oficialmente indicada como modelo de intelectual aos jovens sertanejos.
Pela Lei Municipal 826, de 9/12/2010, a prefeita de Santana do Ipanema (Alagoas), Renilde Silva Bulhões Barros, sancionou o projeto aprovado pelo poder legislativo, declarando 2011 o ? Ano Luitgarde Oliveira Cavalcante Barros?.
Essa efeméride encabeça o Calendário Cultural 2011-2025, instituído com a finalidade de ?restaurar a memória do povo santanense?, preparando a comunidade local para a celebração do Sesquicentenário da emancipação municipal em 2025.
Cada ano, intelectuais nascidos ou naturalizados no município serão enaltecidos como paradigmas para as novas gerações. Alguns dos homenageados viveram ou compartilham suas experiências de vida com a mocidade local, mas outros são ignorados. Pertencem ao contingente da diáspora sertaneja que migrou por razões historicamente cíclicas: climáticas (seca), econômicas (desemprego), políticas (coronelismo), sociais (banditismo) ou familiares (desavenças).
Reconhecida pelos vereadores locais como ?pesquisadora de renome nacional?, Luitgarde, a homenageada de 2011, exemplifica um caso típico de ?ilustre desconhecida? na terra em que nasceu, há 70 anos.
Visitando, no ano passado, a Biblioteca Pública da cidade, não encontrei nenhum livro de sua autoria ( e de outros escritores da terra) para ser consultado pelos leitores potenciais.
Isso explica em parte o esquecimento de sua infância na região, a não ser por octogenários que se dizem parentes próximos ou amigos da família. Trata-se de situação decorrente também do seguinte: ela vive há muitos anos no Rio de Janeiro e não tem visitado com frequência a nossa região, perdendo o contato com as novas gerações.
O momento é apropriado para restabelecer seus vínculos com o berço de nascimento. Quem é Luitgarde e como se formou intelectualmente?
Descendente dos clãs Vieira de Oliveira e Nobre Cavalcanti, ela nasceu na sede municipal, Santana do Ipanema, mas enraizou-se culturalmente nos limites entre a zona agrícola do Batatal (compartilhada pelo clã paterno) e o entreposto comercial do Capim (dominado pelo clã materno).
Ainda menina, teve a oportunidade de ser educada nos bons colégios de Maceió, a capital do Estado. Dali se transferiu, em companhia dos irmãos menores, para o Estado do Rio de Janeiro. Escapou, desta maneira, às perseguições políticas que vitimaram parentes próximos, no sertão alagoano.
Acolhida por familiares residentes na antiga capital do país, integrou-se à diáspora caeté ali residente, ingressando na universidade.
Por opção ocupacional, a jovem Luitgarde graduou-se em Fisioterapia, no Rio de Janeiro, mas, na maturidade, rendeu-se às motivações político-culturais. Enveredou pelas ciências sociais, na etapa da pós-graduação em universidades paulistas (USP, PUC e UNICAMP). Fez mestrado em Antropologia, transitando pela Sociologia e Política no Doutorado, com ligeiras passagens pela História e Literatura no Pós-Doutorado e recentes incursões pelo campo da Comunicação.
Como docente e pesquisadora, trabalhou inicialmente na Universidade Federal do Rio d Janeiro (1967-1995), passando depois à Universidade Estadual do Rio d Janeiro (1996-2011).
Autora de obra densa, polêmica e multifacetada, privilegia três eixos temáticos: violência, religiosidade e intelectualidade, mas seu lócus preferido é o território caeté.

Capa do Livro "Derradeira Guesta - Lampião e Nazarenos Guerreando no Sertão"

No seu livro de maior impacto - Lampião e Nazarenos (Rio, Mauad, 2ª. ed., 2007), ela presta relevante serviço à memória nacional, desmistificando o suposto heroísmo do bando de Lampião. Vale a pena reproduzir o comentário da professora Lena Medeiros de Menezes, titular de História da UERJ: ?Analisando o cangaço a partir de suas entranhas, a autora coloca toda a sua erudição, seu rigor científico e sua emoção ? trilogia que garante a excelência da obra, na construção de uma história vista de baixo, que permite colocar em foco a luta entre Ferreiras e Nazarenos em um quadro mais amplo de significados.?
Antes disso, Luitgarde havia comprovado sua capacidade de pesquisadora acadêmica, publicando o livro A terra da mãe de Deus (Rio, Francisco Alves, 1988), percorrendo o universo místico erigido pelo Padre Cícero Romão Batista, vítima dos poderosos da época, inclusive os eclesiásticos, mas entronizado como ?santo? pelos contingentes de miseráveis e fanáticos que acorrem periodicamente ao Juazeiro do Cariri. A propósito desse ?belo estudo sobre um povo que sofre na sua miséria?, diz a professora Maria Yeda Linhares, historiadora emblemática da UFRJ, que sua autora ?nordestina e sertaneja, testemunha e vítima de violência e da intolerância (...) tem a sensibilidade indispensável para sentir o sofrimento de nossa gente, de pressentir o elitismo que polariza e mata, humilha e exclui.?

Capa do Livro "A Terra da Mãe de Deus"

Trata-se do mesmo sentimento que a escritora santanense denota ao reconstituir a trajetória de intelectuais alagoanos tragados pela amnésia coletiva e pelo silencio dos seus conterrâneos. Luitgarde dedicou esforço meritório ao reabilitar duas personalidades nacionais, que pagaram com o exílio o preço do vanguardismo na política e na ciência.
Em Octávio Brandão, centenário de um militante na memória do Rio de Janeiro (Rio, UERJ, 1996), reencontra o visionário que ?fazia parte? do seu ?imaginário há muitos anos? e revê ?com olhos de exilada? um ?homem sozinho?, falando sem sotaque, mesmo depois de expatriado em Moscou por muitos anos, ?como se nunca tivesse saído de Alagoas?.
Em Arthur Ramos e as dinâmicas sociais do seu tempo (Maceió, Edufal, 2ª. ed. 2005), documenta o ?mundo fascinante em que viveu, povoado de lutas e tragédias?. O médico e antropólogo colaborou inicialmente com Anísio Teixeira na pioneira Universidade do Distrito Federal, falecendo no exílio, em Paris, quando ocupava o cargo de Diretor da Divisão de Ciências Sociais da UNESCO. Seu valor histórico é ressaltado pela professora de antropologia da UNICAMP, Mariza Corrêa: ?Tendo participado intensamente da vida intelectual do país nos anos trinta e quarenta, Ramos é, no entanto, uma figura ainda pouco estudada?. Por isso, o livro de Luitgarde registra ?uma série de episódios que são parte da história da antropologia no Brasil, recriando a rede de relações sociais de Arthur Ramos?, bem como ?sua trajetória social e política?.
Em plena maturidade intelectual, Luitgarde vem percorrendo novas veredas cognitivas, que tem ensejado novas publicações. A aposentadoria funcional não significa afastamento da atividade investigativa. Ao contrário, liberada da rotina pedagógica, ela encontrará mais tempo para pesquisar, escrever, viajar. Há poucos dias, retornava da Europa, onde retomava projetos compartilhados com colegas franceses, espanhóis, russos ou húngaros, além daqueles em andamento no Cariri, em Canudos ou em Palmares.

A vez de Luitgarde

Dizia Nelson Werneck Sodré que ?um autor é a imagem daqueles que ele frequenta?. Essa afirmação encaixa-se perfeitamente na moldura intelectual desta escritora sertaneja que vem lutando para dar voz aos silenciados.
Sua primeira batalha foi fazer falar os que têm sido mantidos, historicamente, à margem da sociedade, condenados ao silêncio absoluto. Aqueles que Gramsci classificou como sociologicamente pertencentes às ?classes subalternas? e Paulo Freire denunciou pedagogicamente como vítimas de ?mutismo? congênito.
Pois bem, Luitgarde fez-se porta-voz dos penitentes e dos injustiçados nordestinos, dispondo-se a interpretar o ?rosário de lágrimas? dos romeiros do Padre Cícero e das atemorizadas vítima de Lampião.
Ela teve oportunidade de ouvir seus reclamos através das ?promessas? feitas ao ?santo? canonizado pelos sertanejos, bem como das ?graças? alcançadas, explícitas nos ex-votos que depositam nas salas dos ?milagres? dos santuários populares, testemunhando a gratidão de aflitos abençoados.
Depois, escutou as vítimas do cangaço, rotuladas como ?olheiros? ou ?coiteiros?, dependendo da ótica dos interlocutores. Ora, os ?cabras? do mítico Capitão Virgulino (que recebeu a patente para combater a Coluna Prestes), ora os ?meganhas? do poderoso Coronel Lucena (agraciado com a Prefeitura de Maceió, depois de cumprir ordens superiores para estancar o banditismo no sertão). Durante vários anos escaramuças simuladas atendiam aos interesses dos policiais corruptos e dos bandidos acuados, a despeito dos sofrimentos causados a cidadãos indefesos, entregues à própria sorte.
Finalmente, chegou o momento de Luitgarde priorizar os intelectuais progressistas que foram emudecidos pelos detentores do poder simbólico na comunidade acadêmica. Três intelectuais nordestinos mereceram sua atenção especial: os alagoanos Octávio Brandão, Arthur Ramos e o pernambucano Josué de Castro.
Depois de Brandão e Ramos, resgatou o protagonismo do ?renegado? geógrafo Josué de Castro, dirigente da FAO, organismo da ONU dedicado a combater a fome e a desnutrição , onde o idealista pernambucano inspirou inúmeros planos de combate à assimetria alimentar no mundo contemporâneo.
Frequentando autores tão instigantes, não foi surpresa a escolha do seu novo foco de pesquisa. Luitgarde vem movendo céus e terras para reintroduzir na agenda acadêmica o legado histórico de Nelson Werneck Sodré, cujo centenário de nascimento transcorre neste ano de 2011.
Além de escrever artigos e de promover seminários e simpósios dedicados à memória do patrono da História Nova do Brasil, ela vem reivindicando a reedição da sua obra e a reintrodução dos seus livros mais importantes na literatura dos cursos de humanidades.
Escritor polifacético, Werneck Sodré transitou por territórios diversos, que vão da História à Geografia, com passagens eventuais pela Literatura, Política, Sociologia, Filosofia, Economia e pela Comunicação.
Principal animador do debate cultural no país, nos anos 60, tendo como veículo de difusão a destemida Revista Civilização Brasileira, de repente o historiador desapareceu do mapa, perseguido pelos agentes da ditadura e patrulhado pelas esquerdas festivas.
Sua opção teórica pelo materialismo histórico, sua inserção metodológica nas sendas do materialismo dialético e sua postura abertamente nacionalista, funcionaram como elementos inibidores da sua presença no cenário nacional. Sodré foi combatido pelos colegas de farda, detentores do poder, contestado pelos historiadores tradicionais e boicotado pelas vanguardas situadas a la gauche, que se imaginam ?palmatória? do mundo.
Essa incrível conspiração, ainda que não articulada organicamente, determinou a exclusão da obra de sua autoria da bibliografia universitária e consequentemente acarretou o desaparecimento das estantes das livrarias, por falta de público leitor. Trata-se de circunstância idêntica à enfrentada por outros autores da época, substituídos naturalmente pelos exegetas do politicamente ?correto?.
Até mesmo os ?sebos? ficaram desguarnecidos, seja pela apreensão de exemplares feita pelos organismos repressivos, seja pelo cuidado dos amantes do livro em preservar os títulos remanescentes.
Nesse sentido, é meritória a iniciativa de Luitgarde ao batalhar pela ressurreição desse autor que sacudiu a poeira da historiografia nacional, adotando uma estratégia de leitura crítica dos documentos pátrios e um marco epistemológico marxista para interpretação dos acontecimentos que balizam a vida contemporânea.
A rigor, essa linha de estudos tornou-se hegemônica em todo o país, apesar dos seus cultores omitirem ou minimizarem a filiação àquela história nova que tantos dissabores causaram a Nelson Werneck Sodré no ocaso da sua vida intelectual. Felizmente, ele não se deixou abater, mantendo a coerência e lutando em defesa de suas ideias, até o final da vida.
Muito mais do que um ?perfil intelectual?, como o intitulou a autora, Nelson Werneck Sodré, um perfil intelectual (Maceió, EDUFAL, 2011) , constitui um roteiro precioso para quem se dispuser a analisar o pensamento de Nelson Werneck Sodré a respeito das conjunturas vivenciadas antes, durante e depois da redemocratização do Brasil. Pesquisando o arquivo que esse intelectual paradigmático doou à Biblioteca Nacional, Luitgarde encontrou fontes consistentes para reconstituir o panorama nacional durante o Estado Novo tutelado por Getúlio Vargas, o interregno democrático que vai da sua deposição como ditador ao retorno ao poder ?nos braços do povo?, até o momento culminante da trajetória política do caudilho gaúcho, cujo suicídio retardou a tomada das rédeas nacionais pelos Tenentes de 1924, afinal bem sucedidos como golpistas em 1964.
Inventariando as matérias publicadas na imprensa, no período 1924-1968, ou melhor, em três veículos impressos ? foram identificados: a crítica literária publicada no jornal diário Correio Paulistano, os comentários especializados destinados ao mensário Digesto Econômico e os artigos culturais divulgados pelo periódico Revista Civilização Brasileira. Trata-se de um acervo formado por centenas de textos, cuidadosamente arquivados pelo autor e depositados na seção de manuscritos da Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro.
Essa vasta produção firmada pelo polemista Nelson Werneck Sodré encontra-se disponível dos pesquisadores e seu acesso será facilitado pela catalogação que fez Luitgarde Barros. Não sem antes haver explorado aleatoriamente seu conteúdo para caracterizar o autor como ?publicista?, categoria intelectual em que os historiadores literários enquadram os escritores públicos que disseminam ideias e pontos de vista pela imprensa. Na verdade, ela suscita um debate curioso sobre o trabalho por ele exercido na mídia gutembergiana, o que pode conduzir a um elucidativo mapa dos gêneros jornalísticos praticados pelo historiador quando se comunicava com o público em geral.
Luitgarde abriu o caminho e explicou as circunstâncias em que se deu a militância de Nelson Werneck Sodré na imprensa. Vale a pena percorrê-lo, senão inteiramente, pelo menos em momentos historicamente significativos.
Suas aguçadas anotações sobre o mundo em que viveu o intelectual, sua história de vida, o conjunto da sua obra iluminam convenientemente a discussão sobre o escritor que não se conformou em interpretar a História do Brasil para a elite bem situada, socializando com os cidadãos que lêem jornais e revistas evidências que foi acumulando pacientemente. Desta forma, cumpriu a sua missão de formador consciente da opinião pública nacional.
Talvez esteja nessa atitude generosa e solidária o motivo pelo qual os típicos intelectuais de fachada tanto resistiram ao seu desempenho historiográfico. O mérito principal deste novo livro da escritora alagoana é sem dúvida pavimentar metodologicamente a descoberta desse rico filão da obra de Nelson Werneck Sodré.
Desta maneira, Luitgarde estanca o silêncio a que ele estava condenado pelos que posam pateticamente como árbitros da História, esquecidos de que o Tempo continua a prevalecer como senhor absoluto da Razão.

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