Artigo publicado no Espaço 2 do diário O JORNAL (Maceió, 27/06/2010)
Fundada em 1787, pelo Padre Francisco Correia, Santana do Ipanema caracterizou-se como espaço socioeconômico em que a mulher sempre ocupou papel de relevo. Crescendo como lugar de passagem dos nativos fulni-ô, que nas secas periódicas buscavam refúgio em paragens irrigadas, acolhia também pecuaristas atraídos pelas oportunidades de negócios com o gado de corte.
No princípio, o povoado sobreviveu pelo estoicismo de abnegadas mulheres do povo, irmanadas pelo beatismo franciscano, que ali permaneceram vigilantes, zelando a capela de Senhora Santana. Mais adiante, o progresso local contaria com a participação de mulheres deste midas, educadoras e comerciantes, cujas figuras emblemáticas foram, no passado, a Viúva Manoel Rodrigues da Rocha, popularmente conhecida como D. Sinhá Rodrigues, e na atualidade a Prefeita Municipal Renilde Silva Bulhões.
Não é mera coincidência o fato de, há cem anos, naquele município, haver nascido Iveta Marques de Melo, uma matriarca cuja história de vida constitui paradigma do empreendedorismo. E, como tal, seu resgate pode nutrir a vocação inerente ao pólo de negócios do campus Sertão da UFALinstalado em Santana do Ipanema, neste ano de 2010.
SAGA FAMILIAR - Nascida em 29 de junho de 1910, na vila de Poço das Trincheiras, então distrito de Santana do Ipanema, Dona Iveta provém da estirpe batava dos Wanderley, herança de sua mãe Eufrosina, e da linhagem luso-brasileira dos Marques, a que pertencia seu pai, o advogado de ofício, José Ceciliano. Pela tradição familiar, Dona Eufrosina fora prometida a um primo Wanderley. Os casamentos intersanguíneos resultavam de estratégia típica da economia de subsistência, no sentido de garantir a integridade do patrimônio rural. Mas, ao visitar parentes que residiam na fronteiriça cidade de Águas Belas, a loura Eufrosina enamorou-se do moreno José Ceciliano. Originário da vila de Canhotinho, o jovem Marques não perdeu tempo, pedindo a mão da noiva aos pais. Face à recusa, o forasteiro não teve alternativa senão ?roubar? Eufrosina, tendo a cumplicidade de seus parentes de Águas Belas, onde se casaram.
Fato consumado, o clã Wanderley manteve as aparências, aquiescendo em abrigar o jovem casal e cooptar José Ceciliano, dando-lhe a tutela do cartório do vilarejo. Entretanto, as permanentes tensões familiares provocaram o enfarto que o vitimaria, levando à sepultura. Atribuindo sua viuvez à parentela intolerante, Eufrosina rompeu com a família. Decidiu mudar-se para a cidade de Santana do Ipanema e recomeçar tudo do zero. Trouxe em sua companhia onze filhos, renunciando publicamente ao sobrenome Wanderley.
Assumindo a identidade familiar do marido, deu uma lição de altivez que selaria os destinos de sua numerosa prole.

Iveta com o filho mais velho (José) nos braços. Ao fundo, a Cachoeira de Paula Afonso
ESPÍRITO DE CLÃ - Para sobreviver, a Viúva Marques conduziu a filharada à luta. Empregou os varões no comércio local e constituiu uma arriscada empresa familiar. Era ao mesmo tempo uma fábrica de fundo de quintal (produtora de doces e salgados, que os filhos menores vendiam de casa em casa) , uma oficina de corte e costura (ocupando a força de trabalho das filhas mulheres) e um artesanato de rendas de bilro (que ela própria tocava, ensinando o ofício às filhas caçulas Iveta e Marina). Desta maneira, subsistiu com dignidade, educando os filhos e dando bom exemplo aos descendentes.Tal mãe, tal filha. A trajetória de Iveta Marques de Melo espelhou em grande estilo o itinerário percorrido pela genitora. Voluntariosa, determinada e persistente, como a mãe Eufrosina, ela enfrentou a autoridade materna, na etapa matrimonial.
Mesmo pertencente ao clã dos fundadores de Santana do Ipanema e sendo herdeiro de Jorge Firmo de Melo, o principal panificador da cidade, seu noivo, o automobilista Leuzinger Alves de Melo, recebeu um não peremptório, ao pedi-la em casamento. Dona Eufrosina reprovava seu estilo de vida boêmia. E não houve quem a convencesse a mudar de opinião. Isso talvez explique porque 4 de suas filhas permaneceram solteiras convictas.
Sem opção, Leuzinger ?roubou? Iveta, contando com a cumplicidade do futuro prefeito da cidade, seu cunhado Joel Marques e de sua esposa Mariquinha Nepomuceno. Contrariando a matriarca de sangue holandês, eles acolheram a nubente na fazenda Coqueiros, onde residiam. E a apadrinharam na subida ao altar da matriz de Senhora Santana.
Poupança e investimento proporcionam rendimentos
O jovem casal viveu inicialmente na casa da família do marido, até que Iveta convenceu Leuzinger a renunciar à boemia. Sua meta: construir o patrimônio familiar, estribado na poupança doméstica, lastreando um fundo de investimento imobiliário.
O ponto de partida foi a construção da casa própria. Ao invés de residir nas proximidades do comércio, à margem do rio Ipanema, a família Marques de Melo adquiriu um terreno espaçoso, a preço módico, no alto do Monumento. Desbravou
assim o espaço urbano que abrigaria, anos depois, a elite da cidade e os equipamentos de natureza educativa e cultural.
Enquanto Leuzinger viajava, gerenciando uma companhia de transportes interurbanos e mediando negócios agrícolas, Iveta assumia a construção da vivenda familiar. Mesmo estando inconclusa a obra, mudou-se com filhos e empregados para o bairro alto. Assim procedendo, acompanhou de perto a construção, fiscalizando os artesãos contratados pelo marido ausente. Uma vez por semana, Leuzinger ficava com a família, dialogando com a esposa sobre as etapas seguintes da obra.
Concluída a ampla residência, Iveta incentivou o marido a prosseguir no ramo da construção civil, edificando casas para alugar aos adventícios que vinham ocupar postos no setor terciário, então prosperando na região. O esquema era o mesmo. Leuzinger financiava e planejava a obra, contratando os serviços de pedreiros, marceneiros e outros especialistas. Iveta administrava com mão de ferro, mas com o coração aberto. Cobrava eficiência dos empreiteiros, mas dava assistência aos seus familiares, procedentes de outras plagas. Começou o trabalho silencioso de filantropia que a converteu numa espécie de anjo dos desvalidos.
O investimento imobiliário começou a dar rendimentos satisfatórios, permitindo a Leuzinger abandonar o trabalho itinerante, mediando negócios entre produtores e varejistas. Vivendo com a família, dedicou-se a novas construções, enveredando pelo segmento das casas populares.

Hotel Avenida
Sempre atento às flutuações do mercado, um dia Leuzinger confidenciou a Iveta: ouvi na Rádio Nacional que está em vias de aprovação uma nova lei, favorecendo inteiramente os inquilinos. Juntos, tomaram a decisão de buscar outro rumo comercial. Para reaver o patrimônio investido, Iveta aconselhou a venda dos imóveis aos inquilinos que fossem bons pagadores. E assim procederam.
Mas, o que fazer com o capital recuperado? Consultando amigos e parentes, surgiu a idéia de aplicar num empreendimento hoteleiro, pois a Cidade não contava com hospedaria confortável. E converteram o casarão da família num hotel de referência na região.
Antes, construíram uma casa no terreno vizinho para acolher a unidade familiar, abrigando também os agregados domésticos. O projeto do Hotel Avenida foi concebido e executado com muita segurança, numa admirável parceria do casal Marques de Melo.
Leuzinger comandou a reforma do edifício e a aquisição dos utensílios apropriados. Para tanto, contou com a assistência do cunhado, Clovis Marques, comerciante de prestígio na praça do Recife, onde foram comprados os insumos próprios da moderna hotelaria.
Iveta ficou encarregada de gerenciar o restaurante, visando atrair clientes pela qualidade da gastronomia. Ela comprou um jipe para operacionalizar o abastecimento. Antes de inaugurar o hotel percorreu as fazendas produtoras de alimentos, no município e cercanias. Negociou exclusividade no fornecimento de frutas, legumes, aves, laticínios e produtos congêneres. Contratou cozinheiras, treinou arrumadeiras e instruiu garçonetes.
Como decorrência dessa divisão de trabalho na empresa familiar, a matriarca foi dando asas à sua vocação industrial, ao erigir uma fábrica de fundo de quintal que a consagrou como produtora emblemática de doces de frutas. Enquanto isso, o patriarca dedicava-se a supervisionar o hotel, reunindo amigos e hóspedes, nos fins de tarde, para passar em revista a atualidade nacional e mundial, abastecendo-se das últimas notícias no rádio e jornais.
Doçaria
Inicialmente, Dona Iveta montou uma unidade à parte, visando abastecer o restaurante do hotel. Numa estação, fabricava doces de goiaba em barra e na outra, cajus ameixados. Logo, os hóspedes começaram a pedir que ela vendesse caixas ou pacotes extras para presentear amigos e parentes.
A demanda cresceu de tal modo que Dona Iveta ampliou sua estrutura produtiva, contratando mais ajudantes e duplicando as encomendas aos fornecedores. Houve momentos em que empregava 20 a 30 trabalhadores temporários na fábrica de doces. Também passou a negociar previamente com os plantadores de frutas, antecipando as compras, ou seja, fechando negócios na florada para entrega na colheita.
Ela se realizava inteiramente nessa atividade, independente do marido, pois não visava lucro para ser reinvestido. O capital amealhado ela aplicava seletivamente em doações à família, dando preferência aos filhos e netos, mas fazendo caridade às pessoas necessitadas que ela socorria em situações dramáticas: viúvas, órfãos, acidentados, fracassados, etc.

Iveta na companhia da amiga Jaci Lima
Mais tarde, passou a organizar excursões a pontos turísticos situados na geografia nordestina. Seus destinos preferidos eram a Cachoeira de Paulo Afonso (BA), visitando a Usina da Pedra, e a cidade de Águas Belas (PE), onde os índios fulni-ô se reuniam uma vez por ano para celebrar o Toré. As curtas distâncias permitiam sair de madrugada e voltar à noitinha, naturalmente incluindo o farnel alimentar, que ela preparava com esmero para não perder tempo em restaurantes de beira de estrada. Paradas estratégicas, à sombra de árvores frondosas, ensejavam o refrigério gastronômico, bem como a realização de atividades fisiológicas, atrás de moitas espessas.
Depois, seu destino passou a ser Juazeiro do Padre Cícero, no Ceará. Sua motivação era mística: pagar promessas devidas ao santo do povo. Essa obrigação justificava a adesão de amigos e parentes. Dependendo do tamanho do grupo, Dona Iveta alugava caminhonetas, kombis ou ônibus. Essas eram excursões que, tomando mais de um dia, requeriam o pouso em pensões ou hotéis e a alimentação em restaurantes indicados por pessoas de confiança, prévios usuários dos serviços oferecidos.
Na verdade, as iniciativas propostas por Dona Iveta no ramo do turismo rural, religioso ou cultural não configuravam empreendimentos com finalidade lucrativa. Ela não queria auferir lucros, mas também não desejava subsidiar os participantes. Do ponto de vista financeiro, tratava-se de um rateio entre os usuários, cabendo-lhe o trabalho de planejamento e coordenação, que ela realizava por puro prazer, sem cobrar um centavo. Anote-se que tais iniciativas eram abertas exclusivamente a pessoas do seu entorno familiar ou domiciliar
Passatempos
Convém ainda registrar que, se tivesse sobrevivido aos tempos em que os investimentos na bolsa de valores representam operações de risco, Dona Iveta talvez estivesse fazendo inversões dessa natureza, ou seja, jogando na bolsa. Deduzo essa possibilidade da sua fascinação pelos jogos recreativos. Na época dos bingos, ela promovia em casa noites de disputa com suas amigas, sorteando prêmios especiais e até mesmo quantias em dinheiro.
Outra de suas predileções era arriscar alguns trocados em bilhetes de loteria e no jogo do bicho. Para apostar, munia-se de palpites enraizados nos sonhos das empregadas ou de familiares.
Também gostava de precaver-se em relação ao futuro, consultando videntes e cartomantes. Quando os bandos de ciganos passavam pela cidade, ela chamava as pitonisas para ler sua mão e de suas colaboradoras, decifrando os caminhos que lhes estavam reservados pelo destino.
RELIGIOSIDADE - Dona Iveta cultivava uma religiosidade peculiar. Educada no catolicismo tradicional, conviveu com um marido agnóstico e anticlerical. Para manter o equilíbrio familiar, absteve-se de freqüentar regularmente a igreja.
Mantinha em casa um santuário, onde realizava diariamente suas orações, em companhia dos filhos pequenos e das empregadas. Promovia novenas em ocasiões especiais. Nunca deixava de comparecer aos atos missionários conduzidos pelo Frei Damião de Bozzano. Mais tarde, dedicou-se ao culto ao Padre Cícero, promovendo romarias.
A iniciação religiosa dos filhos ela transferiu à irmã caçula, Marina, católica fervorosa, presidente da congregação das filhas de Maria na matriz de Senhora Santana.
Todos os filhos estiveram sob a tutela das tias carolas, até a primeira comunhão. Depois disso, fez um pacto com o marido. Ela cuidava da educação das filhas, que foram estudar em colégios de freiras católicas. Ele se encarregava de orientar os filhos, cuja formação secundária se deu em colégios protestantes ou laicos, em Maceió e Recife.
Devota de Santa Rita de Cássia, Dona Iveta manteve freqüente contato com as outras integrantes da sua irmandade. Seu desejo era enterrar-se vestida com o hábito de Santa Rita. Para tanto, mandou costurar antecipadamente a mortalha. Mas, teve que repor o estoque, porque freqüentemente emprestava o hábito a amigas que foram surpreendidas pela morte sem haver providenciado as vestes para a última caminhada ao Santa Sofia, o cemitério local.
Outro ritual da sua predileção era a missa celebrada anualmente em homenagem a São Pedro, seu padroeiro. Mesmo sem comparecer ao ato, ela patrocinava a missa festiva da capela de São Pedro, no bairro da Maniçoba, no dia 29 de junho.
Tinha muita fé nas rezadeiras e benzedeiras, requisitando-as de vez em quando para receber suas bençãos e para submeter os filhos a sessões de desencosto, prevenindo-os assim dos maus olhados e misérias congêneres.
FILANTROPIA - A chegada dos netos foi o indicador que a fez encerrar gradativamente, de comum acordo com o marido, a empresa familiar. Começou pela desistência da atividade industrial. Em seguida, fechou o restaurante do hotel, mantendo apenas o serviço de café da manhã, mesmo assim supervisionado por empregada de confiança.
Recolheu-se à vida privada, conservando apenas a horta, cultivada em propriedade mantida nas cercanias, bem como a criação de aves, jabutis e suínos. Na verdade, essa foi uma estratégia que ela engendrou para garantir o emprego de fiéis servidores, ociosos com a desativação do hotel.
Continuou também a alimentar os velhinhos recolhidos à Casa de São Vicente, cujo jantar ela preparava em casa e religiosamente mandava um empregado levar ao abrigo, até o fim de sua vida.
MEMÓRIA - Cercada por netos, legítimos, postiços e adotados, Dona Iveta desfrutou os últimos anos exercitando o memorialismo que lhe permitia transmitir lições de perseverança e otimismo.
Adorava contar as histórias dos seus tempos de mocidade. Duas narrativas predominavam. Suas lembranças da adolescência na fazenda Pacus, quando a família era obrigada a refugiar-se na serra, toda vez que chegavam ameaças de invasão do vilarejo pelo bando sanguinário de Lampião.
Também gostava de recordar a epopéia da viagem marítima a Santos. Viajou, em companhia da filha Elza, no tempo da Guerra, receando que o navio fosse atingido pelos torpedos lançados por submarinos alemães.
Esse episódio fez parte da aventura empreendida pelo jovem Leuzinger. Induzido a deixar a boemia, tentou vida nova em São Paulo. Atraído pela irmã Edite, proprietária de uma fazenda exportadora de bananas, no Vale do Ribeira, ele veio sozinho e depois trouxe a família.
Ao reencontrar o marido e a cunhada, Dona Iveta recuperou o ânimo. Mas, logo se mostrou inadaptada ao clima frio. Sensibilizada pela tristeza da filha Elza, saudosa dos costumes sertanejos, não lhe foi difícil convencer Leuzinger a retornar ao torrão alagoano. Mesmo enfrentando os perigos da viagem marítima, voltavam com a determinação de recomeçar a vida, na terra natal.
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