PAIDEIA E FILOSOFIA NO SÉCULO DAS LUZES – SÉBASTIEN CHARLES

Outras Peças Literárias

Andréa Cristhina Brandão Teixeira

O artigo de Sébastien Charles trata da recorrência do tema da educação no século das luzes e, logo no início do seu trabalho, chama a atenção de seus leitores para a forma inábil com que Rosseau se apropria de ideias de outros autores como Locke, Fleury, Morelly dentre outros, na escrita de sua obra Émile. Contudo, logo esclarece que o objetivo de seu trabalho é “compreender porque educar, no século das Luzes, é, antes de tudo, tarefa de filósofo”.

Segundo o autor, após Descartes, os filósofos acreditam que os preconceitos se enraízam nos indivíduos antes da formação da razão, quando ainda não é possível passar por seu crivo as informações que nos são postas pelo mundo através de pais e preceptores.

Charles admite, entretanto, que “o círculo vicioso da ignorância só pode ser vencido na sua própria fonte” e para isso seria necessário trabalhar não somente com as crianças, mas antes com seus pais e preceptores.

Assim, duas formas poderiam ser usadas para enfrentar essa necessidade: os preceptores privados, como foi utilizado por Rosseau, por exemplo; ou uma reforma mais profunda, escolhida por Crévier, dentre outros, que passa pela “subversão da dogmática das Escolas”.

Nas Escolas, onde a educação é realizada através de mestres obstinados nas rotinas, as crianças tomam horror a tudo o que o ambiente lhes impõe e saem despreparados para o mundo.

Em qualquer dos casos, o que se busca é mudar a relação de autoridade presente no processo educativo e buscar uma relação baseada na flexibilidade e atenção dos mestres em relação às crianças. No primeiro caso, os preceptores devem servir de exemplo de virtude e as crianças são vistas como adultos em potencial, que precisam ser tratadas de acordo com a idade e gênio natural que cada uma possui.

Dessa forma, todos devem receber a educação pública, uma vez que os talentos naturais estão reservados a todos independentemente de sua localização geográfica ou classe social.

Quanto à diferenciação na educação entre os sexos, Morelly afirma que as mulheres chegavam a um conhecimento razoável bem mais cedo que os rapazes, uma vez que na infância tiveram uma educação baseada na conversação e na leitura, na imaginação e na memória, ao contrário daqueles, que foram educados em Colégios, cuja educação é contra a natureza e faz com que seus alunos tenham os espíritos dobrados, deformados, muitas vezes, irremediavelmente, para toda vida, com uma educação baseada exclusivamente na racionalidade.

Para evitar isso, deve-se recorrer à uma educação baseada nas sensações, onde o pedagogo dará atenção à corporeidade da criança e não a uma racionalidade que ainda não está formada.

Será necessário então, possibilitar que as crianças passem por experimentações sensoriais diversas para, a partir destas, formar suas próprias ideias e não apenas internalizar aquelas impostas nas Escolas, as quais não serão guardadas em sua memória, uma vez que não fazem sentido para elas. Dessa forma, elas passarão das sensações à formação da razão.

Uma vez que todos os homens nascem ignorantes, independente do grupo social a que pertençam, à educação cabe a tarefa primordial de possibilitar o acesso à razão. Kant pregava em suas lições que “o professor não deve ensinar seus pensamentos... mas a pensar. Ele não deve levar o aluno, mas guiá-lo se quiser que no futuro ele seja capaz de andar por si mesmo”. Ele defendia o uso público da razão e, para isso, é necessário um espaço público livre constituído.

No Século das Luzes, há a evidência de uma educação para todos, baseada na formação da razão através da experimentação sensorial, onde todos possam formar suas próprias ideias e não apenas fixar aquelas pré-estabelecidas, advindas de pais e preceptores malformados e Escolas que tentam indubitavelmente preencher seus espíritos com valores pré-concebidos.

Embora tanto tempo tenha se passado desde que esses estudos, citados por Charles, tenham sido divulgados, me parece muito atual a discussão sobre que tipo de educação estamos impondo a nossas crianças, sejam filhos ou alunos.

Em nossas Escolas, continuamos na tentativa de “dobrar-lhes o espírito”, conscientemente ou não. Seja em nome de uma pseudo-homogeneização necessária em tempos de muitas avaliações de larga escala, de cumprimento de um currículo que não atende às mínimas necessidades de compreensão de mundo, e em tempos escolares cada vez mais subutilizados para a formação de uma razão própria.

Buscamos, teoricamente, a formação de sujeitos “críticos, autônomos, capazes de promover mudanças em seu entorno social”.

Mas, penalizamos seriamente aqueles que ousam reivindicar qualquer mudança na estrutura de nossas escolas, na didática utilizada, sejam nos procedimentos, conteúdos ou forma de avaliação.

Em seu artigo Charles muito bem cita Crousaz, para quem “pouco falta para que se abandone ao acaso a educação e, por conseguinte, a razão, o gênio, o humor, as máximas e os hábitos das pessoas a quem o gênero humano está ligado. O favor, a intriga, e frequentemente uma infinidade de circunstâncias nas quais não se deveria prestar a menor atenção é que são decisivos”.

A educação escolarizada, se deseja realmente formar os sujeitos supra citados, deveria se servir de atenção e delicadeza, da formação baseada na conversação e no exercício da criatividade em detrimento da força, severidade, autoritarismo e severidade que hoje encontramos abundantemente em nossas instituições de ensino.

CHARLES, Sébastien. Paideia e Filosofia no século das luzes in Menezes, Edmilson; Oliveira, Everaldo de. Modernidade Filósofica: um projeto, múltiplos caminhos. São Cristóvão: Editora UFS, 2011.

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