DONA KAITECA, UMA FLOR NO CAMINHO

Crônicas

João Francisco das Chagas Neto (João do Mato)

Desde 2012 fazemos uma caminhada mais puxada de 24 km entre Porto Calvo e Porto de Pedras – Al. O trajeto é repetido umas três ou quatro vezes por ano, com um carro de apoio com água, frutas e outros mantimentos, fogão a álcool, posicionado no intervalo de seis quilômetros.
Apesar do trecho ser asfaltado, o movimento de carros e motos é pequeno. É uma caminhada tranquila, onde se observam, ainda preservadas, pedaços da mata atlântica, manguezais intactos na desembocadura do Rio Manguaba, sítios de coqueiros e algumas fazendas de gado e plantações de cana.
Agora em setembro, no dia 16, começamos como de costume nossa caminhada às 5 h e 30 minutos. O dia estava perfeito para a prática de esporte ao ar livre, nublado e fresco. Empreendemos uma velocidade constante de 6 km/h com intervalos de 5 minutos para hidratação. E duração prevista do trajeto, 4 h e 15 min. E lá fomos nós caminho afora. Um grupo de cinco pessoas mais o motorista no apoio. Ritmo bom para poder observar o ambiente ao qual íamos passando. Sentido o cheiro intenso do capim gordura. Ouvindo o canto dos canários da terra. O piado do carcará. Admirando o voo dos gaviões. As algazarras das maritacas. Os cantos dos golinhas e papa capins. A rapidez dos homens subindo nos coqueiros com suas peias, - é uma agilidade impressionante. Os caranguejos andando no mangue. A pastagem verde. Os canaviais verdejantes. Os bueiros dos engenhos de fogo morto. E tudo transcorrendo na mais perfeita normalidade prevista para esse trajeto. De repente, avisto no Km 21,5 faltando 2,5 Km para nossa chegada em Porto de Pedras, uma mulher de aproximadamente 68 anos no aceiro de um cercado de gramínea com um mata, situado à margem da estrada. O local era íngreme, aproximadamente uns 60º de declive e ela se encontrava a uma distância de 250 metros ladeira acima. Á margem da estrada, no acostamento, também avistei outra senhora mais moça sentada em um carro de mão. Ao chegar perto dessa senhora, que estava no carro de mão, gritei em direção à senhora que estava lá no aceiro da mata: - dona Maria, o quê a senhora está fazendo aí? A senhora pode levar um tombo e sair rolando até aqui na estrada. Desce daí, mulher!” Nesse momento, a outra mais moça que estava sentado disse: cai não! Já está acostumada. E a essa altura, a admiração já não era só minha. Os outros caminhantes também indagaram: É mesmo? É. Disse ela e continuou; e minha avó.. que também está lá. É mesmo?- indagamos – É! Respondeu. E qual idade da sua avó, moça? - 94 anos, disse ela. Diante dessa resposta nós paramos. E comecei a perguntar mais sobre a avó da moça. Qual o nome dela? - Kaiteca, respondeu. Kai-Te-Ca...? - Sim!. Aí comecei a gritar por Dona Kaiteca. Dona Kaiteca. Ou Dona Kaiteca. Bote a cabeça ai fora da Mata pra gente lhe ver. Depois de alguns instantes
aparece Dona Kaiteca. Lá em cima naquele aceiro.. Fizemos acenos. Parabenizamo-la, mesmo aos gritos, pelo feito heroico daquela senhora de 94 anos, em função da sua disposição e vigor para aquela idade.
Seguimos viagem. O restante do trajeto a conversa do grupo de caminhantes girou em torno de dona Kaiteca. E chegamos à cidade de Porto de Pedras e em seguida esticamos, como de costume, até á Praia do Pataxo.
No Pataxo, como é chamado pelos moradores, preparamos nosso café e comemos a vontade. Em seguida fomos descansar à sombra dos coqueirais. O mar não estava bom para o banho. A água estava muito turva em função de muita chuva caída nos últimos dias na região. O Rio Manguaba estava muito cheio e o volume d’água despejada no mar, muito acima do normal, estava turvando as praias locais. Normalmente são límpidas e de um azul fora de série.
Aproximadamente meio dia, levantamos acampamento e iniciamos o retorno. Não mais a pé e sim na Kombi. Quando estávamos a 1,5 Km distantes de Porto de Pedras, avistamos aquelas três pessoas vindo em direção à cidade. Alguém de dentro do carro reconheceu aquelas pessoas e gritou: - é dona Kaiteca! Para o carro. E o motorista parou o carro e fomos conversar de perto com dona Kaiteca.
- Dona Kaiteca, o que a senhora estava fazendo naquela mata, mulher? - Meu filho, eu estava tirando palha. - Palha? - Sim! Palha de palmeira macaíba. - Ontem, ganhei R$ 150,00 na venda dessas palhas. Hoje, estava lá na mata tirando outra encomenda para entregar amanhã. Agora, vou para casa almoçar e umas três horas quando a maré baixar vou para o mangue pegar caranguejo. - Qual sua idade? - Tenho 94 anos e moro em Porto de Pedras há sessenta anos. Vim de São José da Coroa Grande com 34 anos e estou por aqui até hoje. - Dê-me um abraço, Dona Kaiteca? Abraçamo-nos. Ofereci algumas frutas frescas. Ela chupou uma laranja e fomos tirar umas fotografias em companhia de todos os caminhantes. Despedimo-nos! E seguimos viagem de retorno a Porto Calvo, com o pensamento voltado para aquele estilo de vida e a carga genética daquela senhora franzina de olhar vivaz e voz forte.

Porto Calvo, 16 de setembro de 2014.

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