O CANTO FÚNEBRE DAS RASGA-MORTALHAS

Contos

Remi Bsatos

Quem da minha época, quando criança, não se lembra das rasga-mortalhas que construíam seus ninhos na torre da igrejinha do Monumento? Os seus cantos agourentos no véu da noite amedrontavam a todos, independentes de suas idades. Muitas vezes ouvi meus pais falarem sobre o presságio que estes pássaros noturnos traziam às pessoas. Os seus cantos fúnebres lembram o ruído de uma tesoura cortando um tecido de seda, terminando com um som estridente semelhante ao rasgar de uma mortalha, daí o seu nome. Muitas vezes vi o Zezinho de Dona Beatriz, ameaçar essas corujas com uma espingarda de cartucho, no momento em que elas retornavam aos seus ninhos na torre da velha igrejinha. Para a meninada, que naquele momento sentia-se segura pela arma que o Zezinho portava, era um alívio quando algum daqueles pobres pássaros era abatido.
Quando a rasga-mortalha sobrevoava a casa de alguma pessoa emitindo o seu canto azarento, significava que alguém daquela família morreria brevemente. Quantas vezes eu e meus irmãos, acordávamos assustados pedindo arrego na cama de nossos pais, ao ouvirmos as rasga-mortalhas rasgarem o pano no silêncio da noite? Naquela época os únicos meninos da Avenida Prefeito Adeildo Nepomuceno Marques, era eu e Everaldo de Seu Oscar, duas criaturas corajosas e valentes. Vi muitas vezes o Everaldo passar em frente da minha casa por volta das 18 horas indo para o Ginásio Santana, e nas imediações do antigo balaústre do Grupo Escolar Padre Francisco Correia, ao ouvir o canto da daquelas aves noturnas como se estivesse dizendo, o próximo é você, o amigo, retornava a mil por hora, chegando em casa bastante cansado dizendo: “Mamãe, mamãe, abra a porta rápido, se não eu faço aqui mesmo na área”.
Pobres rasga-mortalhas são vítimas da crendice popular, sobretudo, no Nordeste brasileiro. Conta a lenda que uma jovem de 35 anos, chamada Suindara, um pouco gorda e de pele muito branca, cujo ofício era de carpideira, conhecida por todos na aldeia onde morava como “Coruja-Branca”. Filha de um temido feiticeiro e que namorava às escondidas com o filho de uma condessa preconceituosa, muito conhecida pela sua rigidez. Esta, ao tomar conhecimento do romance de seu filho com a pobre moça tramou a sua morte com uma de suas empregadas, pedindo para que esta lhe entregasse um bilhete, simulando que contrataria os seus serviços. Para tanto, seria necessário que as duas se encontrassem atrás de uma cripta em um local mais afastado do cemitério. Indo ao encontro, a jovem foi tragicamente assassinada, gerando um descontentamento dos moradores da aldeia, que então, resolveram homenageá-la, esculpindo uma enorme coruja branca em sua catacumba. Utilizando as cartas de tarô, o pai da jovem conseguiu descobrir a verdadeira assassina de sua filha, e daí executou seu ritual para se vingar da criminosa. O espírito da moça penetrou na estátua da coruja branca, fazendo com ela criasse vida. A coruja saiu voando e pousou na sacada do palácio da condessa, onde durante toda a noite emitiu o seu canto, semelhante ao som de roupa de seda sendo rasgada. No dia seguinte a condessa amanheceu morta e suas roupas de seda rasgada, como se alguém as tivessem cortado.

Aracaju/SE, 08/09/2014.

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