Há situações na vida em que as pessoas passam pela gente como se fosse a última vez. O caminho é o mesmo, as atitudes é que são várias. Foi assim que aconteceu comigo. Certo dia quando estive em Santana para matar um pouco a saudade de tudo aquilo que a minha cidade construiu e recebeu da natureza, e como sempre quando estou aí, costumo realizar as minhas caminhadas pelas ruas por onde tanto andei. Pois bem, desta vez o destino foi a Ponte do Padre, queria mais uma vez contemplar o riacho Camoxinga e o rio Ipanema e chorar a inconsciência de suas lamurias. No meu percurso, encontrei o Artur Alécio (Artuzinho) com um de seus netos, proseando na calçada com o Zé de Pedro, cena esta bastante rara para os dias de hoje em Santana.
Cumprimentei a ambos, estacionei ali o relógio do tempo e aproveitei a oportunidade casual para reprisar alguns fatos interessantes que aconteceram comigo durante a minha vida estudantil. Entre tantos causos, lembrei a viagem de Recife a Santana que fiz com Milton Cavalcante, atualmente genro de Eugênio Teodósio. Estava de férias da Faculdade há mais de dez dias, porém, não podia viajar à Santana por falta de recursos para financiar a passagem. Decidi então fazer uma visita à Fábrica da Antártica situada no Bairro Beberibe e por coincidência dei de cara com o Milton que estava a serviço de Artuzinho. Não deu outra, segui com o proprietário na boléia da mercedinha carregada de cerveja que certamente iria abastecer os bares e adeptos da loirinha durante o carnaval. Partimos por volta das 16 horas rumo ao conhecido, minha Santana. Sem nenhum centavo no bolso, mas, para o Milton eu já era doutor e estava nadando em dinheiro, apenas havia concluído o primeiro ano de Agronomia. Viagem longa sem nenhuma parada extra foi quando eu falei: Milton aqui está muito quente, não dá para eu ir na carroceria junto com a mercadoria? De imediato o meu pedido foi aceito, e logo estava eu cercado pelos engradados de cerveja de Artuzinho. Vez por outra abria uma garrafa e degustava apreciando o cenário móbil que se passava. Em seguida o Milton percebendo as minhas investidas nas cervejas falou assim: Neguinho cada garrafa que secar quebre-a no gargalo, faz de conta que foi a trepidação.
Após seis horas de viagem o Milton fez uma paradinha para o jantar, foi aí que comi dobrado, as cervejas estimularam o meu apetite. Tudo que o Milton pedia eu o copiava. Mas, foi na hora do cafezinho que me apressei, perguntei onde ficava o banheiro e numa manobra volátil me dirigi a mercedinha enquanto à distância observava a inquietação do Milton para pagar as despesas. Após essa primeira parada, quando já no comando do veículo, fiz a seguinte pergunta me protegendo com uma valise: Milton será que a gente chega hoje em Santana? E a sua resposta ríspida foi: QUEM SABE É DEEEUS DOUTORZINHO LISO DA PESTE.
Aracaju, 22/04/2014.
UMA LEMBRANÇA UMA SAUDADE
Crônicaspor Remi Bastos 23/04/2014 - 14h 21min
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