Prezado senhor sapateiro,
Venho por meio deste, informa-lhe que estou entrando com um processo, juntamente com meu advogado J. Luiz Fernandes, contra você. O processo se baseia pelas as acusações de negligência de serviços e propaganda enganosa. Pois, junto com um par de sapatos de couro que enviei ao senhor, pelo menino de recados do Joca da farmácia, foi anexo um bilhete no qual explicava a quem pertencia os sapatos e a necessidade do termino do serviço na data explicita. O senhor, por ser o único sapateiro da região, deve estar achando que tem o direito na recusa de prestação serviços a pessoa que não lhe for de bom agrado. Até pode, visto que é o único em um raio de 30 léguas, mas nestas terras não se rejeita serviços de nenhuma espécie a um Tavares. Pois saiba, não tenho fama de mal pagador e desta cidade só não está nas posses da família o chão da igreja.
Caro sapateiro, este informe servirá para que vá preparando a sua defesa em cima de uma base de argumentação juntamente com seu advogado, já que brevemente estará chegando a sua residência a intimação para que compareça ao fórum. Mas digo de antemão, que o juiz da cidade, excelentíssimo, Carlos João Lima, já me deu causa ganha. Falou-me, ele, depois de uma visita que fiz a sua casa, e dos presentes que mandei entregá-lo. Assim também como me falou o escrivão, o delegado, o padre, o prefeito, e todos os outros advogados da cidade. O desembargador não, pois este não se encontrava em sua humilde residência.
Peço-lhe também que, assim como os sapatos, não falte com a obrigação de comparecer na audiência no dia estabelecido. Pois, isso só iria lhe prejudicar no processo. Falo como amigo, porque em uma batalha gosto de luta justa, com aviso prévio e de combate de igual para igual. Reclamo-lhe também o par de sapatos e bilhete que ainda estão em sua posse, sapatos estes que você não se deu ao trabalho de restituir e do bilhete no qual não fez a mínima questão de responder. Quero-os em minha posse. O sapato, pelo vasto valor sentimental a que despejo em singular objeto, e o bilhete para que sirva de prova contra o senhor no dia do julgamento.
Relato-lhe que este informe não é de meu próprio punho. Estive fadigado e mandei meu advogado escrever-lo. Peço que vá desculpando as formalidades e as palavras difíceis nas quais complicam o entendimento, palavras que só esta raça entende. Os tons cordiais são meus, meu advogado disse que eu teria que ter modos e falar com jeito para que o processo não se complicasse para o meu lado. Vê se pode? São tempos difíceis estes, onde para se lavar a honra se tem tanta burocracia. É o dedo do governo metendo-se onde não é chamado. No tempo do meu avô era só mandar dar uma surra ou se fosse assunto de mais complicação e gravidade, dar cabo da vida do corajoso. Compilo ao senhor o compromisso de resposta para que não enfrente outras aporrinhações e a novo processo. Agradeço desde já a compreensão.
Coronel J. Fernandes Tavares
Neocoronelismo: O sapateiro que não sabia ler
ContosJaime Vinícius 03/04/2012 - 12h 05min
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