Estava tomando banho de rio, à tarde, na ponte de baixo...
Os restos das águas do Rio Ipanema corriam suavemente pelas bueiras da pontezinha para alegria da molecada, aquela tarde era idêntica a qualquer outra do sertão, um grupo de garotos se banhavam e escorregavam por aquelas bueiras, como um passe de mágica sumia nas águas escuras de um dos lados da ponte em um mergulho ao infinito, instantes depois surgiam do outro lado da ponte, ilesos ou arranhados, aquilo era mais que uma brincadeira, era uma prova de coragem aos garotos que se preparavam para adolescência, quem não o fizesse era considerado medroso, ninguém queria ser taxado como tal. A Coragem era o orgulho dos meninos da cidade do sertão Alagoano, Santana do Ipanema, e atravessar aquele túnel submerso de menos de um metro quadrado, por uns dez de extensão, sinceramente era muito perigoso, principalmente quando o rio ainda passava por cima da ponte, mas a garotada o desafiava, mesmo sabendo que ali mesmo fora palco de muitas tragédias de afogamento. (Tudo escondido dos pais).
O MERGULHO.
Para esta proeza a garotada aprendia a técnica, (se é que havia uma). Quando a ponte estava submersa era o momento mais propicio a praticar aquela maluquice. O rio deslizava sobre a ponte, a cada bueiro formava-se um redemoinho indicando a entrada do sumidouro, o pulo tinha que ser no centro do buraco desafiando o turbilhão, o resto era puramente Deus é Pai, aquele redemoinho conhecido na região por panela, absorvia o corpo inocente em um giro tragava-o em direção a túnel, e como um relâmpago vomitava-o do outro lado da ponte, outro fenômeno do rio, tão perigoso quanto à dita panela estava à espreita do outro lado, era o tal de fervedouro, outra causa de afogamentos, essa dupla era o terror do rio, e brincadeira para criançada. Depois que o cabra acertava a entrada do sumidouro, iniciava-se o percurso dentro do túnel, ali se ouvia o ronco do rio, dizia que era a voz dos afogados na ponte, o nível de adrenalina chegam ao ponto máximo, aqueles segundos parecia uma eternidade. A saída era exatamente no fervedouro, o cabra tinha que se bom pra submergir, dependendo do nível do rio apenas Nossa Senhora Santana era quem livrava o desafiante depois de uns bons “cardos”. Então era só boiar no fervedouro. Esse momento era a consolidação da bravura e de coragem, aplausos.
A PONTE
A Ponte de Baixo como foi conhecida, era uma construção rudimentar que estava mais para um Dique de cimento e pedra que propriamente a uma ponte, construída nos tempos remotos para trafego de carros de bois, também servia para trânsito de automóveis da época, e impossível determinar suas dimensões, mais, devia ter uns dois metros de altura, cinco de largura, cem de cumprimento, quatro bueiras que serviam de sangradouro. Teve seus tempos áureos e muito contribuiu para a economia da cidade, foram por muitos tempos à única acessibilidade as margens do rio, interligava Santana a Serra do Cristo, em direção a Pão e Açúcar, não resistiu à força das águas do majestoso Rio Ipanema em sua fúria temporária, e a falta de manutenção depois da construção da Ponte Nova, suas ruínas de pedras ainda podem ser encontradas ao longo do leito do rio. Unia a Cidade à zona rural e era passagem de vendedores, comerciantes, agricultores, feirantes e demais pessoas que trafegavam por aquelas bandas, entre elas Sulino Preto.
SULINO PRETO
Era um Preto Velho, nascido não se sabe de onde, surgiu em Santana não se sabe quando, filho de não sabe-se-de-quem, sem parente nem aderente. Sulino, como o próprio nome diz, era do sul, morava no sul de Santana, ou seja, do outro lado do Rio Ipanema, em uma tapera ao sopé da serra do Cristo, depois das Cajaranas, vivia ao Deus-dará. O Cabra era mais feio que Briga de Foice, fazia medo a “mateu”, não falava com ninguém, não tinha amigos nem companheira, não tomava banho e fedia a enxofre. Durante o dia perambulava por entre os roçados, margeava o rio, plantava e caçava, comia o que achava e o que lhes davam, divagava pelas ladeiras de Santana do Ipanema em busca de auxílios. Durante a noite... Bem durante a noite a conversa era outra... Sulino virava bicho, nem era lobisomem nem Caipora, se transformava em um bicho que até hoje nenhum estudo cientifico nem religioso foi capaz de descobrir, sabe-se que vivia em conluio com um padre sem cabeça, que vivia correndo trecho entre as serras da Camonga, da Camuxinga e do Cruzeiro, bebendo sangue de animais e de gente, carne de cobra e ovo de urubu no Alto do Cruzeiro. Era coisa do outro mundo! Isto é o que disseram dele.
A PROVA DE CORAGEM
Estava tomando banho de rio, à tarde, na ponte de baixo, depois da “pelada” da criançada no campinho de areia, a margem do rio, tinha a idade de uns doze anos, e a molecada já cobrava minha iniciação aos mergulhos suicidas, eu estava preste a ser destituído da amizade do grupo, sendo tratado como frouxo. Ouve uma assembléia, cujo presidente foi Aderval de Zerubano, e fiquei decidido eu iria pular... Bom havia duas opções ou pular de livre vontade, ou ser jogado a força... Bom, escolhi pular, mais, com uma condição a turma ficaria no poço da saída me esperando caso eu não submergisse, eles me resgatariam, pois eu era mesmo muito medroso com água, e nadava muito mal. Combinado, a galera toda mergulhou primeiro e fiquei alguns minutos em cima da ponte, mirando a “panela” que me esperava para sugar-me. O Sol já se encobrira por trás da Serra do Cruzeiro, a água quentinha de verão lapidava minhas canelas finas... pronto chegou a coragem pedi proteção a Nossa Senhora Santana fechei os olhos e pulei, foi um “tchibungo” de rei, eu era um vencedor, um corajoso, um forte, ao atravessar o túnel, deixei todos meus traumas para trás, eu era um novo ser, havia renascido uma pessoa auto-confiante. Quando cheguei ao outro lado submergi automaticamente, só que não havia mais nenhum menino no leito do rio, nadei até a margem e tomei pé, ainda avistei ao longe a fuga dos “corajosos” numa carreira a mais de cem, não entendi bem e fui pegar minha roupa para ir embora, de repente, surgiu a minha frente aquela sombra de Bicho em figura de gente, o Sulino Preto... vi com meus próprios olhos, esses que a terra haverá de comer, o cabra virando bicho, saía fumaça das ventas, tinha quatro pontas de zebu na cabeça, dezoito olhos, cada dente tinha um palmo de tamanho, seus olhos eram dois fogos corredores, espumava sangue pela boca, e um ronco estrondoso pelos ouvidos, trazia um punhal na mão direita e um tridente na esquerda. Olhe era um terror, dei uma carreira tão grande, mais tão grande até minha casa na Rua Antonio Tavares , cheguei sem fala, nu de “zovo” de fora, descalço, amarelo, branco, passei três dias sem comer e três noites sem dormir, com frio, febre e dor de cabeça. A coragem que me foi prometida, desceu nas águas do Ipanema, os outros “valentes corajosos” que me abandonaram diante de tão sombria figura, se desculparam e me questionavam pois não tinham assistido a transformação, apenas viram o Sulino se aproximar para atravessar a ponte em direção à sua casa... mais eu vi tudo! A CRIATIVIDADE QUE O MEDO PRODUZ. E o medo sobre a figura sóbria do Sulino Preto, me ensinou, que coragem não se adquire enfrentando perigos, nem colocando a vida em risco, e sim Coragem é a confiança que o homem tem em si em momentos de temor ou situações difíceis, é o que o faz viver lutando e enfrentando os problemas e as barreiras que colocam medo, é a força positiva para combater momentos tenebrosos da vida.
A VERDADE
Não se sabe a verdade, mais Sulino Preto era um negro puro de origem africana, de coração bom, não se tem noticia que fez mal a ninguém, viveu sua vida recluso em si próprio, quem sabe não foi um escravo fugitivo ou libertado sem rumo? Era grandão, fortão, pretão e feião, sua fama se deu por ser diferente e os diferentes são excluídos, imagine este personagem dos anos 60. Morreu com idade incerta aos cento e... Bote força. Bom, segundo Sergio Campos, em seu excelente conto fruto de um fantástica pesquisa, digna de aplausos, é o que se chega mais perto da verdade, o resto e pura imaginação dos “Corajosos do Panema” :
“NEGRO SULINO” (recomendo a leitura)
“... Agassu-Lino que na língua Banto quer dizer “aquele que vem do reinado de Benin do Congo”.
Agassu-Lino tornou-se grande líder do povo afro que residia na Vila da Ribeira. Tornou-se uma lenda viva pelos prodígios a ele atribuídos. As negras Bás contavam histórias de dormir aos filhos dos brancos sobre as façanhas de Agassu-Lino. Histórias de suas caçadas fantásticas. Peripécias de ter matado onças e lobos gigantes com as próprias mãos. A proeza de ter enfrentado o próprio diabo. Os negrinhos da vila deram-lhe o carinhoso apelido de Sulino. Pelos muitos anos viveu, habitou o Alto dos Negros - um reduto Quilombola no Serrote de Seu Marinho - ao lado do seu povo. Originários e descendentes da tribo Banta. Já em idade avançada era consultado pelos brancos, que queriam livrar-se de mandingas e moléstias - que os atormentavam - em corpo ou em espírito. Sulino acabou deixando o morro e foi morar na cidade. Era comum encontrá-lo perambulando pelas ruas na madrugada. Acabaria acusado de bruxaria, de virar lobisomem em noite de luas cheias e de praticar rituais satânicos. Em 1975 quando completou cem anos de idade. Entrou em casa e fechou as portas, e não mais saiu. Seis meses depois, os moradores da vizinhança tomaram uma atitude, destelharam a casa e entraram, nem vestígio de Sulino. Cobras, sapos, aranhas e ratos os únicos ocupantes encontrados lá dentro”.
Quer saber! Sulino Preto viveu e morreu deixando mistérios sobre sua própria existência virou lenda e se transformou para sempre no Bicho Anjo que guarda e salva a vida dos meninos que nadam nas Cheias d’águas do Rio Ipanema, estes dia de glorias é o rio sedento por vidas afoitas a lhes desafiar. Guarda e foi correr as florestas da Eternidade.
VIVA NEGRO SULINO.
Rogio Jose Oliveira Lima, 14/02/2012
rogiotio@hotmail.com
8836-0598
A PONTE DE SULINO PRETO
ContosRogio Jose Oliveira lima 24/02/2012 - 09h 06min
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