OLHO, MAS NÃO VEJO

Crônicas

João Neto Félix Mendes

Outro dia, conversando com minha colega de trabalho fui surpreendido com a seguinte expressão: Não encontrei a beleza que você disse que tinha naquele lugar! Encontrei apenas uma praia como tantas outras! Eu usei o artigo definido e ela, num segundo, detona indefinição. Que diferença! Eu apenas sorri e pensei: isso também já me ocorrera! Como resposta, disse-lhe calmamente a seguinte frase: Você não tem culpa, não é todo olhar que está preparado para ver beleza. Ela nada me respondeu, desconversou, certamente não entendeu, nem gostou da resposta, mas tenho certeza que meu argumento retornará as suas reflexões qualquer dia. Foi assim comigo! O tempo dessa compreensão ainda não lhe ocorrera. Confesso que fiquei um pouco decepcionado, pois eu havia feito e continuo divulgando a beleza da praia de Duas Barras, povoado de Jequiá da Praia, como uma das praias mais bonitas de Alagoas. Espetáculo da natureza que todo alagoano deveria conhecer; paisagem deslumbrante. Encontro do rio com o mar, desfilando beleza, reverenciada pela genuflexão permanente das palhas dos imensos coqueirais.
Posso dizer que a música muito me ajudou a compreender muitas coisas; superar dificuldades e saber esperar, mesmo quando tudo nos parece sem solução. Mas escrevo sobre reflexões que fiz sobre os diferentes olhares sobre a mesma coisa, ou vários olhares sobre a mesma coisa ao longo do tempo. Jorra aprendizado, transborda maturidade que diuturnamente vamos percebendo. Quando eu ouvia a canção “Mucuripe” de Belchior, achava e ainda acho uma perfeição; letra e melodia. Eis um de seus trechos: “As velas do Mucuripe vão sair para pescar. Vou levar as minhas mágoas pra água fundas do mar...” Então, eu pensava comigo: Essa praia deve ser muito bonita! Um dia hei de conhecê-la! E chegou o dia.
Visitando Fortaleza, capital de Ceará, e ansioso por conhecer a praia de Mucuripe, saí caminhando de onde eu estava, praia de Iracema, até a decantada praia. É uma boa caminhada! Quando lá cheguei, vi uma praia estranha, parecendo um pequeno porto, onde estavam ancorados muitos barcos todos bem juntos, quase não se vendo a água direito. Imaginei que os barcos estavam prontos para partirem para pescar, como diz a canção. Aí eu fiquei me perguntando: cadê a beleza da praia que sonhei na música?
Repeti a experiência quando em São Paulo pela primeira vez. Naquela cidade tudo é muito. Eu queria a sensação de imitar Caetano, que decantou a cidade em sua canção “Sampa”, numa declaração de amor a cidade de São Paulo: “... alguma coisa acontece no meu coração, que só quando cruza a Ipiranga e Avenida São João. É que quando eu cheguei por aqui eu nada entendi. Da dura poesia concreta de tuas esquinas...” Estar naquele local remetia à poesia e a gente a imaginar a emoção do artista numa cidade grandiosa, que não pára nunca e a gente parado ali buscando razões para entender o sentimento e a poesia com tanta gente passando pra lá pra cá sem tempo pra nada.
Ainda com Caetano e Jorge de Altinho repeti a experiência agora em Petrolina e Juazeiro. Duas cidades vizinhas, banhadas e unidas pelo rio São Francisco. Cada artista declamando a beleza a sua maneira. Com Jorge de Altinho, somos remetidos aos sonhos juvenis e a nostalgia de ter que estar sempre indo embora por algum motivo, mesmo querendo voltar, ainda que nas lembranças, buscando motivos para não se desvencilhar das raízes. A canção declama: “... Jesus abençoou com a sua mão divina pra não morrer de saudade vou voltar pra Petrolina...” Com Caetano, exaltação à poesia e a beleza do seu olhar sobre o rio. A canção “Ciúme” tem os versos mais belos em homenagem ao Rio São Francisco: “... dorme o sol à flor do Chico meio dia. Tudo fica esbarrado no seu lume...”
São alguns poucos exemplos de olhares que vêem de forma diferente as coisas simples do dia a dia que amiúde ignoramos. Por isso os poetas, cantores, compositores, atores e artistas em geral falam e cantam pra nós. Quiçá, um dia, possamos despertar do estado da cegueira permanente em que vivemos. A alegria, por fim, não está nas coisas, mas em nós. E a beleza? A beleza está nos olhos de quem, mesmo a despeito de tudo, consegue vê-la onde poucos conseguem ver. E assim se vai um dia, outro dia e mais um dia. Uma vida! Será que vamos passar a vida toda procurando por algo que está bem a nossa frente, a um palmo do nariz?
Exupery, em sua célebre obra “O Pequeno Príncipe” afirma: “... só se ver bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos...” porque passamos, olhamos, mas não enxergamos. Não basta apenas olhar. É preciso saber olhar com outros olhos, enxergar com a alma e apreciar com o coração.
João Neto Felix Mendes/Verão 2012

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