Manhãs de junho, o Riacho João Gomes abria suas asas em seu leito numa fúria rara regurgitando água às suas margens num desejo de formar enxurradas. As craibeiras que o acompanhavam em quase toda a sua extensão testemunhavam o seu despertar, onde mais uma vez eram submetidas aos caprichos de suas águas, deixando-as ilhadas. A vegetação a sua volta modificava o cenário procurando cada espécie projetar a exuberância de sua beleza passageira. No Sítio Batatal a paz era uma constante, as crianças brincavam no terreiro à sombra do cajueiro num cenário cujos personagens se mesclavam aos passeios das galinhas e do galo encrenqueiro que procurava desfazer de suas investidas através do seu canto matinal no poleiro com varas entalhadas no tronco de uma velha catingueira. O cachorro Ligeiro fazia uma pausa em suas caçadas aos preás, reclinado no alpendre da casa, enquanto Dona Júlia se ocupava com os afazes da cozinha. As manhãs quase sempre eram anunciadas pelos cantos dos bem-te-vis e das jardineiras nos galhos do trapiazeiro e algarobeiras nas cercanias da casa. O gado completava aquela sinfonia matinal com seu mugido na hora da ordenha. Era o mês de São João, mês da fogueira e dos folguedos sertanejos. A meninada entrava em férias do Grupo Escolar e se preparava para passar alguns dias na casa de seus avós no Sítio Batatal. A alegria tomava conta de todos, logo seriam recebidos com festas por Seu José e Dona Júlia no solar dos Nobres. Ligeiro não escondia a satisfação de recepcionar os visitantes agitando a cauda num latido alegre de reconhecimento. Em seguida todos já estavam acomodados, o momento agora era saber as novidades, rever os parentes e amigos e mais uma vez provar dos quitutes da vovó. As noites se repetiam com o mesmo cenário, os grilos chirriavam no canto da sala; os pirilampos pareciam pequenas naves voadoras passeando nos entalhes do terreiro esculpido pela natureza sob o clarão do luar. A varanda da casa funcionava com um teatro onde todos sentados escutavam em silêncio as estórias de trancoso contadas por Seu Alfredo. Hora de dormir, hora de retornar a Santana. As despedidas, os abraços, as bênçãos e um fio de lágrimas contidas na face de cada um revelavam a tristeza. O Sítio Batatal aos pouco ia se perdendo na distância, mas surgindo na saudade. A menina do Batatal encostada ao ombro de sua mãe tentava esconder o pranto da despedida. O canto do bem-te-vi no trapiazeiro, o latido do cão Ligeiro e o mugido dos amimais os acompanhavam fazendo soar aos seus ouvidos como a canção da partida. Os dias que desfrutou na companhia de seus familiares jamais serão apagados de sua memória e que para sempre serão lembrados com nostalgia pela menina do Batatal. Aracaju, 27/12/2011.
A MENINA DO BATATAL
ContosRemi Bastos 30/12/2011 - 14h 18min
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