Depois de três anos de muito estudo, privação e ralação, finalmente Luciano terminou o curso da Escola Preparatória de Cadetes da Aeronáutica em Barbacena. Seu destino era a Academia da Força Aérea, onde se formaria oficial da Aeronáutica. Naquele ano aconteceu na Escola uma “Maratona de Matemática”. Luciano, bom na matéria, tirou 1º lugar. Ganhou uma passagem à Europa pela PANAIR.
Ao chegar a Maceió, orgulhoso, ele mostrava a todos seu prêmio, a passagem, sonhada e suada viagem à Europa.
Entretanto, queria mesmo era curtir as férias, programas simples como são as coisas boas da vida. Luciano acordava cedo, vestia um velho calção de banho, descia à praia da Avenida da Paz. Jogar futebol, nadar, namorar Tereza. À noite, geralmente saía com amigos, um bordejo pelos bares da cidade, terminava na boemia de Jaraguá.
Certa tarde levou a namorada ao Cine São Luiz. Assistiram, “Suplício de uma Saudade”, Tereza chorou, ele também. Ao sair do cinema, de mãos dadas, passearam apreciando as vitrines natalinas das lojas. A Brasileira, A Radiante, Livraria Ramalho. Na bem ornamentada Joalheria Machado destacava-se uma bonita tiara. Entraram na joalheria. Luciano colocou a tiara na cabeça de Tereza. Emocionou-se com a beleza da namorada, parecia uma rainha. Ao ver o preço, o sonho acabou. Muito caro para dois jovens ainda dependentes dos pais. A tiara foi catalogada nos sonhos impossíveis.
Na véspera de Natal a moçada convergia às festas na Praça da Faculdade ou Praça Sinimbu. Luciano amava o colorido folclore nordestino, pastoril, chegança, guerreiro, reisado, coco de roda. Perto da meia-noite cada qual retornava à sua casa, distribuição e troca de presentes. Depois da ceia de Natal, as famílias vizinhas se reuniam na missa do coreto da Avenida.
Luciano emocionou-se quando Tereza apareceu. Estava belíssima, deslumbrante, cabelos longos, sorriso apaixonado. Ele aproximou-se, deu-lhe um beijo terno, entregou-lhe o presente de Natal.

Rainha Tereza
A namorada desembrulhou o papel, apareceu uma linda caixa de veludo azul, abriu-a. Tereza emudeceu, balbuciou alguma coisa incompreensível, a emoção lhe deixou atônita ao ver a cintilante, belíssima tiara. Colocou-a de imediato na cabeça. A mais bela princesa do Natal. Ela soube pela cunhada, seu amado vendeu a preciosa passagem para Europa e comprou o impossível presente. Tereza beijou-o com muito carinho, feliz, radiosa. Mostrava a todos sua belíssima tiara, era aquela felicidade própria das mulheres que se sentem amadas com loucuras de amor.
Depois da missa ficaram juntos num banco da Avenida, beijos e carinhos excitantes. Eram três horas da manhã quando Tereza convidou Luciano a um passeio na praia. Queria curtir as estrelas naquela noite escura de lua nova. Ao chegar à areia branca, sentaram-se, deitaram-se, abraçaram-se, beijaram-se. Luciano sentiu os lábios na orelha e escutou a mais bela declaração de amor:
“- Eu lhe amo mais que tudo nesse mundo. Passei a semana escolhendo um presente para você nesse Natal. Foi difícil, tudo que imaginava você merecia mais. Na hora de dormir, eu ficava matutando, escolhendo o melhor presente. Pensei, refleti. Resolvi então lhe dar o que mais tenho de importante na vida: eu mesma. Nesse Natal meu presente é meu corpo, meu sangue, meu amor. Sei que você me ama me respeita, mas também é tarado por mim. Pois meu presente sou eu, minha virgindade, minha vida. Quero ser sua, quero que me possua...”
Abraçaram-se na areia branca. Muitos carinhos, desejos cheios de ternura. O vento levou os gemidos em direção ao mar. Apenas Yemanjá, os botos, as carapebas e tainhas ouviram os gritos de dor e de gozo de uma rainha de tiara prateada.
Ainda estavam deitados, dormindo enlaçados, quando o Sol apareceu despertando-os. Parecia uma cabeça vermelha de criança nascendo no horizonte. As nuvens brancas tornaram-se laranjas-avermelhadas e o mar tremeluziu dourado. Os namorados se levantaram. Abraçados, descalços, sapatos entre os dedos, caminharam felizes. Atravessaram a rua, despediram-se com beijos e juras de amor, cada qual entrou em sua casa.
A luminosa manhã alumiou a praia, destacou a marca vermelha do amor na areia branca. Era sangue e areia; sangue encarnado impregnado na areia alva e morna. Uma bonita manhã surgiu; testemunha de uma bela história de amor. Uma História de Natal.
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