CRENDICES, SUPERSTIÇÕES E VEADAGEM

Crônicas

Remi Bastos

Ah tempos bons que não voltam mais! Tempo da ingenuidade, da Tabuada e da Cartilha do Abc; dos Cadernos Avante, Escoteiros e Caligrafia números 1, 2, 3, 4 e 5 ; da lapiseira e do lápis com borracha. Quantas lembranças guardamos do Velho Grupo Escolar Padre Francisco Correia atualmente às margens do desprezo e das brincadeiras de peteca, ximbra, barra-barra e pião no intervalo do recreio; da jibóia de madeira que ficava às escondidas em uma sala anexa a diretoria e do vendedor de quebra queixo e morozilha em baixo do velho pé de figo nas adjacências da entrada do Grupo. Lembranças das escolinhas particulares de Dona Flora, Dona Helena e Dona Narair. Tudo isso passavam em nossas vidas como coisas normais da época. Havia também as bicicletas de aluguel, inicialmente instalada em uma casa próxima a Empresa de Luz e Força e posteriormente vizinho a residência de Seu Antonio Azevedo, ao lado da casa onde posteriormente morou Zé Panta, em frente ao Cine Glória. Nesse tempo o Cine Glória esbanjava a sua competência com as projeções de filmes épicos, faroeste e os seriados “A Deus a de Joba, Mala, Tarzan o Filho da Selva, Zorro”, etc. O Rio Ipanema lançava suas águas ao encontro do Velho Chico depois de alimentar a barragem, o Poço do juá e o Poço dos homens engolindo tudo em seu caminho. O Riacho Camoxinga corria torrencialmente para o encontro de seu afluente após passar embaixo da Ponte do Padre num cenário que despertava a atenção da família Bulhões no casarão à sua margem direita. Existia também as crendices capazes de curar enfermidades tais como a reza contra o mal olhado e espinhela caída, sapato com o solado para cima significava a morte do pai ou da mãe, apontar estrelas com o dedo fazia nascerem verrugas, colocar vassoura atrás da porta espantava as visitas, assobiar a noite chamava cobra, chupar manga com leite fazia mal e mulher que tinha o segundo dedo do pé maior que o primeiro mandava no marido. No entanto, existia uma superstição que chamávamos de “Dor de Veado”, uma forma sincopada do sertanejo se referir à dor desveada, uma dor que normalmente ocorria quando fazíamos um esforço físico ou mesmo quando bebíamos muita água antes de qualquer esforço. É também chamada de dor de burro ou dor de facão. O interessante é que, quando uma pessoa sentia a dor de veado, a primeira diligência era colocar um ramo de planta preso ao cinto pelo lado direito do abdômen. O Benedito Soares ou Biu Cego, o Carlos de Filemon ou Nego Carlo e o Rui de Maria Arseno eram muito propensos a dor de veado. Muitas vezes quando jogávamos bola no campinho do Baixio de Seu Nozinho era comum ver estes três peladeiros colocarem um ramo de vassourinha de botão preso ao calção para se livrarem da dor de veado. Atualmente já não existem as crendices populares com a mesma intensidade e pureza daquela época, da mesma forma que sumiu a dor de veado ressurgindo em seu lugar outra versão de veados sem dores.

Aracaju, 29/10/2011

Comentários