O POBRE E O RICO

Poesias

Fábio Campos

Todo poeta matuto
Já fez a comparação
Entre o pobre e o rico
Na vida são dois jerico
Veja só minha versão

Pobre quando se batiza
Manoel vira mane
Antonio vira Tôim
Chamam cara de Sôim
O filho de Macalé

E o neto de Ambrosina
Sobrinho da veia Aurelina
Se chama somente Zé
E se o nome é mais valído
Botam logo o apelido
Cabeça de caburé.

Rico tem nome esquisito
Pobre não sabe chamar
Como inventar de mudar
Weliton vira Zelito
Joéliton vira Zezito
E Aderval vira Devá

Pobre só vai pra uma feira
Já pertinho de acabar
Com o dinheiro que ele tem
Só dá pra comprar xerém
Prum monte de passarinho
Farelo pros bacurinhos
E um monte de requevém

Do fumo só compra a borra
Nem que mate ou ele morra
Sem nada para o almoço
Mas tem que comprá uns ôsso
Pro diabo de uma cachorra.

O rico vai para o shoping
Diz eu compro eu exagero
O filho grita: Ô coroa
Pra gente ficar na boa
Compra aquele som quêu quero!
E o pobre tem um cartão
Chamado alimentação
Diz que é o “Fome Zero”!

Na casa que mora um pobre
O que não falta é uma rede
Muito santo na parede
Na cozinha tem cuscuz
É bem que ele possui
E ele bota pra você

Porque na casa de um pobre
É uma atitude nobre
Visita tem que comer!
E um monte de bacurinho
Assiste ao show do “Ratinho”
Ligados numa tevê.

Entre na casa do rico
E nem sinal de comida
Tevê grande e colorida
É o que lhe chamava atenção,
Tem jardim e tem piscina
Tem carro com gasolina
Mas nem um “taco” de pão.

Pobre quando vai a praia
Ele diz: que açudão!
Do rico ele faz galhofa
Enche a boca de farofa
E toma banho de calção.

No bucho ele mete cana
Na praia fica estirado,
Pega um bronze se bronzeia
Os ouvidos cheio de areia
Parece um tição queimado

Volta pra casa sem grana
Fica doente uma semana
Com o bóga todinho assado.

Rico quando vai a praia
Fica longe da ralé
Exibe um corpão sarado
Dirige um “bugue” invocado
E o pobre coitado: A pé!

O rico anda de lancha
Seu filho surfa na prancha
E se amostra no jet sky
E o pobre com a sua “fia”
Os cabra de olho na viria
E ela a vender siri

O pobre é bicho festeiro
Festa é com ele só
Na novena o peito estufa
Se espreme dá quatro bufa
E acaba logo o forró.

Pobre só tem alegria
No jogo de jogar bola
Na corrida de argola
E na roda de cantoria.

Na festa que rico faz
Sempre vai muita mulher
Tem viado e rapariga
Mas se tende ninguém briga
Depois vira um cabaré

Festa que rico inventa
É coisa de admirar
A comida é caviar
E tem um tal de patê
E tem outro que é pavê
E o pobre a perguntar
Se não é para comer
Então dá pra responder
Porque se chama jantar?

O pobre gosta de pinga
Toma vinho de Jurubeba
Fica de orelha quente
Bonito, rico e valente
Toma duas canta um brega

Se abraça em você cuspindo
Por nada fica se rindo
E a boca só fede a merda
A “saidêra” engolindo
Vai de fininho saindo
Pro povo não vê a queda.

Pobre anda de jumento
O rico anda de carro
O pobre fuma pagóga
O rico fuma cigarro
Fio de rico tem chupeta
Fio de pobre come barro
Fio de rico é bem limpinho
Do pobre é cheio de catarro.

No velório de um rico
É um povo jururú
Só cochico nenhum chôro
Tudo preto é mau agôro
Se parece uns urubu

Intêrro é o do pobre
Nesse sim tem emoção
Os parentes descabéla
Mais parece uma novela
É de cortar coração
O finado vão beijando
E vem outro se abraçando
Querendo entra no caixão.

Por isso meu camarada
Pode parecer piada
Mais eu acho muito sério,
Tanto o pobre quanto o rico
Na vida são dois jirico
Vão todos pro Cemitério!

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