Nem mesmo a lonjura e a rudeza do sertão foi capaz de conter o som que atravessava o rádio e chegava até mim, menino curioso do sertão alagoano. Meu pai, músico e ouvinte assíduo, era quem me guiava por essa diversidade sonora que se espalhava pelo ar. Foi assim que aprendi a valorizar cada estilo, cada timbre, cada batida; como se cada canção fosse uma janela aberta para mundos diferentes.
A loja de discos da cidade era meu universo preferido. Entre prateleiras abarrotadas, eu buscava novidades, ecos dos festivais que agitavam a televisão e incendiavam plateias. E foi ali, perdido entre capas coloridas e nomes consagrados - anos depois -, que encontrei um artista desconhecido para mim. A voz era única, celestial, e sua musicalidade dissonante parecia desafiar tudo o que eu já havia escutado. As letras, fortes e intensas, falavam de escolhas e destinos. Era o mineiro Milton Nascimento.
Soube depois que ele temia que sua música não tivesse importância, que sua inscrição no festival havia sido feita contra sua vontade. Mas bastou uma canção — Travessia — para mudar minha forma de ver o mundo. Aquele encontro inesperado, naquela pequena loja do sertão (Cardoso Discos), foi mais que um achado musical: foi um rito de passagem. Descobri que a música não apenas atravessa fronteiras geográficas, mas também as fronteiras da alma.
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LiteraturaJoão Neto Félix Mendes - www.apensocomgrifo.com 02/03/2026 - 15h 10min Reprodução www.apensocomgrifo.com
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