Carros-pipa já são insuficientes para amenizar seca em Alagoas

Geral

Por Jobbison Barros - www.gazetaweb.com

Seca histórica ameaça a vida de sertanejos

Mais de 500 mil alagoanos em 50 municípios sofrem efeitos da longa estiagem

Desde 2012, moradores do Agreste e Sertão de Alagoas sentem os reflexos da seca devastadora que atinge humanos, animais e vegetais, deixando marcas de dor, sofrimento e total incerteza de dias melhores. A natureza grita e mais de 500 mil alagoanos em 50 municípios sofrem os efeitos. O dinheiro que seria investido em Saúde e Educação é empregado no custeio de carros-pipa, mas nem os veículos estão conseguindo abastecer os reservatórios com o "Velho Chico" na UTI.

A reportagem conversou com Jorge Dantas, secretário-geral da Associação dos Municípios Alagoanos (AMA) e prefeito de Pão de Açúcar. Este município é um dos que decretaram situação de emergência e calamidade pública neste ano, em decorrência da estiagem. De acordo com Dantas, esta é a pior seca da história, com chuvas de 500 a 550 milímetros, número considerado abaixo da média anual - 600 a 650 milímetros. Ele informa que todo o Sertão do estado e parte do Agreste, com destaque para os municípios de Craíbas, Igaci e Palmeira dos Índios, vem sofrendo as consequências da seca.

"Tem chovido pouco e, quando chove, é em pontos concentrados nos meses de inverno, o que não atende a demanda de açudes e barragens. Estamos nesta realidade agora, imagine quando chegar janeiro, fevereiro e março, o auge da seca. Hoje, sequer, as pessoas têm água para beber e dependem exclusivamente de carros-pipa. Perda de safra, como feijão e milho, é constante e este ano municípios não produzem praticamente nada. Cabeças de gado também já foram perdidas porque a reserva animal, a palma forrageira, já acabou", lamentou o prefeito.

O prefeito destacou que, em Pão de Açúcar, nove caminhões distribuem 1 milhão de litros de água por semana, com um investimento de R$ 80 mil por mês, dinheiro que deveria ser investido em Saúde, Educação e Saneamento Básico. Os demais municípios gastam, no mínimo, R$ 30 mil com carros-pipa. "Os gestores contam com programas federais, dentre eles, o Exército, que cede os caminhões, mas estamos tendo dificuldades em relação a eles. Recorremos, portanto, ao serviço particular", disse Jorge Dantas.

Barragem de Sobradinho 'pede socorro' (Foto: Reprodução/TV Globo)


Emergência

Ao todo, mais de 500 mil pessoas vêm sofrendo constantemente com a seca que assola o Agreste e o Sertão. Cerca de 50 municípios são vitimados pela seca, seja na zona rural ou urbana. Destas cidades, 38 decretaram situação de emergência e calamidade pública neste ano.

A Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Social, vinculada ao Ministério da Integração Nacional, reconheceu o difícil cenário em Água Branca, Arapiraca, Batalha, Belo Monte, Cacimbinhas, Canapi, Carneiros, Coité do Nóia, Craíbas, Delmiro Gouveia, Dois Riachos, Estrela de Alagoas, Girau do Ponciano, Igaci, Inhapi, Jacaré dos Homens, Jaramataia, Lagoa da Canoa, Major Isidoro, Maravilha, Mata Grande, Minador do Negrão, Monteirópolis, Olho d`Água das Flores, Olho d`Água do Casado, Oliven&ccedi l;a, Ouro Branco, Palestina, Palmeira dos Índios, Pão de Açúcar, Pariconha, Piranhas, Poço das Trincheiras, Quebrangulo, Santana do Ipanema, São José da Tapera, Senador Rui Palmeira e Traipu.

"Os municípios de Minador do Negrão, Estrela de Alagoas e Ouro Branco estão em pior situação porque falta água até na parte urbana. Com isso, tememos não só nestes municípios, mas em outros, que seque tudo e haja o êxodo rural e urbano, transferindo essas famílias não sei para onde", confirmou o prefeito de Pão de Açúcar, fazendo um alerta para a seca na Barragem de Sobradinho, que possui apenas 6,24% de sua capacidade. A bomba não consegue captar mais água do Velho Chico.

Secretário do Meio Ambiente explica projetos para amenizar situação de sertanejos (Foto: Assessoria Semarh)


Medidas emergenciais

O secretário de estado do Meio Ambiente e dos Recursos Hídricos, Alexandre Ayres, disse que está em vigor a ampliação do Canal do Sertão, considerada a maior obra hídrica do governo estadual, chegando ao quilômetro 105 até o final do ano. Foi criado, segundo o secretário, um grupo de trabalho com as Secretarias de estado da Infraestrutura (Seinfra), Agricultura (Seagri) e movimentos sociais.

"Este grupo visa criar uma cadeia produtiva de hortifruti nas regiões do Agreste e Sertão com o aproveitamento das águas do Canal do Sertão. Em janeiro de 2016, o governo entrega a Adutora do Alto Sertão, por meio da perfuração de poços, que atenderá nove municípios da região sertaneja, levando água de forma efetiva para a população", explicou Alexandre.

O secretário também comentou que foi ampliado o Programa de Recuperação de Nascentes. Somente no Sertão, há 650 geo-referenciadas. Conforme ressaltou o titular da pasta, uma série de convênios firmados desde 2011 e 2012 foi desburocratizada com a assinatura de ordem de serviço, neste ano, para levar 160 sistemas de abastecimento às cidades do Agreste e Sertão. É o Programa Água para todos, com recursos na ordem de R$ 24 milhões.

"Também destravamos processos relacionados ao Programa Água Doce, que levará até o próximo ano 101 sistemas para a região. Em paralelo a estas ações, a Semarh segue atuando com o suporte da Defesa Civil Estadual na distribuição de água por intermédio dos caminhões-pipa. É uma ajuda paliativa, porém, necessária. Esta é uma seca que causou uma série de problemas às famílias que residem no Semiárido", reforçou Alexandre Ayres.

Canal do Sertão deve chegar ao quilômetro 105 até o final do ano (Foto: Arquivo/Gazetaweb)

Comentários