A aproximação de uma sombra se agigantou diante da criança e o medo a fazia bater o queixo, cerrar os dentes e tremer diante do perigo. Tornava-se ela chacota das coleguinhas, que a olhavam de soslaio.
A aluna via a proximidade da professora e se oprimia, e se apequenava, ela ficava do tamanho de um botão preso a um balancim: aquela máquina de forrar botão oprimia a aluna, a prensa manual a tornava outra pessoa.
O coração perdia-se dentro do peito. A menina Bagatela forçava as costas ao encosto da cadeira atrás da mesa escolar. Os joelhos tremiam.
A sombra ocupava parte da sala, chegava à metade, e lembrava um ogro, uma tigresa, uma tirana, na avaliação da aluna assombrada. A sombra usurpou a aula; logo mimetiza a marcha imperial a ser recebida por aplausos e gritos de alegria.
O brilho nos olhos da aluna Bagatela ficou opaco contra a sua vontade. E a sombra seguiu em frente, avançou um pouco mais, aproximou-se de Bagatela, a Mirradinha.
A sala de aula ficou no mais completo vazio.
Bagatela batia os dentes contra a sua vontade, contra a sua vontade ela tremia a boca e não continha o vaivém dos lábios.
E, na velha cadeira de palhinha, Dona Bagatela ressonava. Sonhava com Bagatela nos primeiros anos escolares. A sombra amedrontadora da professora Dona Abantesma se aproximava da carteira onde se escondia a aluna Bagatela.
Aproximava-se uma palmatória.
Aproximavam-se as regras gramaticais. E avançava a sombra, os dentes das sombras, da sombra as garras, os dedos em garra com a palmatória que falava plac! plec! plic! ploc! pluc! Cobrou-lhe a professora:
Diga, Bagatela, diga.
Diga o quê, professora Abantesma?
Palavras com a letra x! disse Dona Abantesma com as mãos escondidas às costas onde batia de leve com a palmatória nas próprias pernas. A senhorita aprendeu comigo, que o som da letra x varia quatro vezes de forma direta e com casos específicos a letra x fica completamente muda. Quais são as quatro vezes, Bagatela? disse e batia com a palmatória nas costas das próprias pernas: plac! plec! plic! ploc! pluc!
Qual era a letra, professora?
X!
Plac! plec! plic! ploc! pluc!
X, Bagatela!
Plac! plec! plic! ploc! pluc!
X, professora?
Plac! plec! plic! ploc! pluc!
Sim, menina! repetiu sob o silêncio da sala de aula cheia de crianças que disfarçavam o riso.
CIPÓ: Essa velha tá falano sozinha, Escaravelho!
ESCARAVELHO: Deixa a veia, Cipó. Vamo fazê o que viemo fazê.
Xícara, lixo, peixe, enxame são palavras escritas com x, Bagatela?
Senhora?
Enxame, xícara, peixe, lixo são palavras escritas com x, Bagatela?
São escritas com x?
A senhorita está me perguntando ou está me respondendo?
Plac! plec! plic! ploc! pluc!
Com x ou ch?
Plac! plec! plic! ploc! pluc!
Sim, senhora.
Com o som do z, Bagatela, se escreve exame, se escreve exato, exemplo, se escreve exercício.
É assim, professora?
Sim. Com o som de s simples ou de s duplo, Bagatela, diga a palavra texto com o máximo respeito, Bagatela, próximo e trouxe, Bagatela.
Trouxe o quê, professora Abantesma?
Diga táxi, com o som de cs ou ks, Bagatela, e diga fixo, e diga reflexo, e diga tórax.
Tórax, professora?
Não se esqueça de me dizer o x mudo, Bagatela! enfatizou a professora, encolheu-se a aluna. Onde o x ganha o som de ch em xadrez, o som de ks com córtex. E entre vogais, Bagatela, e entre vogais?
O x?
Não, sua tapada!
CIPÓ: Cuida com essa veia!
ESCARAVELHO: Tô de ôi! Tá ligado?
CIPÓ: Balança a cadeira pra ver se ela tá dormino!
ESCARAVELHO: Ficou louco!
Sob o olhar atento de Cipó & Escaravelho – rotulados pelas matérias de jornais – os $onho$ cercavam o longevo casarão na Rua dos Quebraqueixos.
Naquela noite, chovia até nos cômodos, na cozinha, sobre o fogão, na pia, dentro das panelas descobertas. O piso esburacado e gasto nos casebres em torno dos casarões, na Rua dos Quebraqueixos, se transformou em um sabão, e o teto ficou uma peneira com excesso d’água. Ventos envergavam as árvores sem piedade.
Os casebres, que eram muitos, próximos ao longevo casarão na Rua dos Quebraqueixos, e outros casarões, que ocupavam uma quadra inteira, na Rua das Quixabeiras, na Avenida das Aroeiras, na Alameda dos Cajueiros, na Rua dos Umbuzeiros, na Avenida dos Ouricurizeiros recebiam lufadas de vento e de chuva. Os esgotos a céu aberto expunham a imundície.
Encolhiam-se os moradores nos casebres. O intenso e repentino vento na noite derrubava das prateleiras os utensílios de cozinha. O abará perdia-se num prato sob a insistente pingueira.
Foi interrompido o afoxé naquela noite na Vila de São Gabriel. Silenciado o agogô.
Aluá no copo de vidro recebia a força de uma goteira. E azoeira da chuva persistia.
As ruas eram uma bagunça. Molhados nos quartos os balangandãs.
Os casebres tremiam sob a pesada tempestade. Bocas banguelas faziam preces, que não eram atendidas, a São Gabriel.
Insistia no batuque nas telhas: a chuva fazia banzé.
Cipó cutucava Escaravelho, na escuridão da noite, dentro do casarão.
CIPÓ: Do jeito que essa veia dorme, ronca... pode cair o mundo...
ESCARAVELHO: Escutasse a luz do raio? Só visse a cor do trovão.
CIPÓ: E essa veia nem se mexe.
ESCARAVELHO: E os panettone?
CIPÓ: Pra provar que não tenho medo, canto. Melhor meter logo o cipó pra cima.
E Dona Bagatela, na cadeirinha de palha na frente da TV calada, ouvia a voz de Hipnos, que cochichava ao seu ouvido. Abraçada por Nix e Érebo, a velha roncava. Cipó e Escaravelho faziam a limpeza das gavetas na sala de televisão. E os dois tropeçaram no escuro.
ESCARAVELHO: Silêncio, seu burro!
Corria um rio de leite nos olhos. Dona Bagatela em sua caverna. Hipnos, alto e alado, tocava a sua flauta. Os filhos de Hipnos vinham reunir-se com o pai na festa na qual se encontrava Dona Bagatela. Morfeu moldava o sono da velha, e evitava que o seu irmão Ícelo a perturbasse com pesadelos, e Fantosos levava-a ao que havia de surreal entre o público e o privado.
CIPÓ: O que foi que eu disse, Escaravelho, pra te ofender desse jeito?
ESCARAVELHO: Cale-se, bicho tonto!
Aos sonhos da velha Bagatela chegaram Njorun e Mara. Sandman jogava areia mágica nos olhos da velha. Tutu observava. Baku inutilmente interferia. No estado de consciência profunda, Nidra impedia que Sandman avançasse a meter areia mágica nos olhos da velha e a fizesse voltar a ser criança.
Bagatela, Bagatela, quem cultiva a leitura ganha prêmio e fortuna.
Lembrou-se a aluna Bagatela do tio Zémambembe, conhecedor de cordel, que, sabendo das perseguições gratuitas da professora Abantesma à sobrinha, mostrou-lhe que era fácil metrificar. Com as lições do tio, gaguejou Bagatela:
Lá vem a Literatura,
Traz a fábula uma moral.
O livro abriu as asas,
Num voo de inspiração.
Fez do quadro um horizonte,
Feito luz na escuridão.
Bagatela, Bagatela, quem cultiva a leitura ganha prêmio e fortuna.
O aluno aprende mais
Nesse mundo de papel.
Pois quem lê ganha o destino,
E desenha o próprio céu.
Pois quem abre um livro novo,
Vê o mundo se ampliar,
Cria asas no pensamento,
Aprende até a voar.
Os olhos da professora Abantesma não se desviavam da aluna que era espremida na cadeira. Os versos vinham aos pulos, quão voo de bacurau. E a menina Bagatela disse:
Entre os gêneros do texto,
O conto é breve narrar:
Faz do conflito contexto.
Já a crônica noticia,
Surge em pura poesia,
Os fatos de cada dia.
Poesia é o eu lírico, que conota o mundo inteiro, Bagatela?
Crônica é jornalística, que narra o que é rotineiro, professora.
Conto é pura ficção, que narra o não verdadeiro, menina!
Bagatela retomava a coragem. Era como se quase pulasse da cadeira, e dizia os versos em sua sextilha em redondilha maior:
Elementos de narrar
Têm o início, o meio e o fim.
Tempo é todo o momento.
Espaço um lugar assim:
Só personagens vivem.
Enredo, trama, evento? Sim.
A professora Bagatela batia de leve com a palmatória na própria mão. E parecia admirar os versos que ouvia da aluna.
Personagens dão a vida,
O desejo e a emoção.
Seja o herói, valente Cid,
Unido nesse evento,
Ou o vilão de ocasião.
Forma-se o movimento.
Dando alma e sentido
Cada pessoa no rojão.
Enredo: o esqueleto.
Trama de cada ação.
Tem início o conflito,
E em breve a conclusão.
No meio, o nó aperta.
O clímax traz o calor.
Guiado na voz atenta,
Fala o poeta narrador.
O tempo marca o passo,
Cronológico ou mental.
Pode ser um dia inteiro
Ou um salto temporal.
O espaço é o cenário,
O chão de cada jardim,
Um castelo, uma rua,
Um lugar talvez assim.
Surge o nó do desafio,
Que balança a narração.
É o conflito o desvio,
Que dá vida ao coração.
Chega a hora da verdade
Onde o medo faz ação.
Plac! plec! plic! ploc! pluc! batia forte a professora Abantesma na palma da própria mão.
No auge da ansiedade
Brilha o mundo num só fio.
O conflito se desfaz,
Tudo volta ao seu pavio.
Ou se perde ou se faz
Em breve ou longo assovio.
DONA BAGATELA: Ó tia Simplicidade, eu não fui reprovada, tia Simplicidade. A professora Abantesma aceitou os versos que levei de bandeja... Deixe. Eu saio. Deixe cantarolar a música de Natal. Aquela, tia, que a tia me ensinou. Deixa, tia, deixa. Quero que minha bonequinha durma pra chegar logo o Natal. Amanhã será Natal, tia Simplicidade? Se a bonequinha não dormir, agora, ela não vai ganhar presente. Deixe acalentar a boneca, por favor, tia. Ó tia! Não me bata, tia; não me bata. Na cara não, tia; na boca não, tia. Ai!
CIPÓ: Essa veia é piradona. Me fez derrubar essa prataria toda no chão.
DONA BAGATELA: Que é isso aqui dentro?
CIPÓ: Boa noite, dona.
DONA BAGATELA: Dona o que, seu atrevido!
CIPÓ: Eu só passei aqui pra desejar boas festa.
DONA BAGATELA: Quer me explicar o que é que tá acontecendo?
CIPÓ: Acontecendo com quem?
DONA BAGATELA: Com quem?!
CIPÓ: Acontecendo com... Como?
DONA BAGATELA: Como?!
CIPÓ: Acontecendo. Essa chuva. Talvez inunde toda a vila.
DONA BAGATELA: Que hora é essa?
CIPÓ: Roubaram meu relógio.
DONA BAGATELA: Já é quase dia.
CIPÓ: Então é Natal. Se eu disser que sou Papai Noel a senhora vai acreditar?
DONA BAGATELA: Você é quem?
CIPÓ: Papai.
DONA BAGATELA: Que papai?
CIPÓ: Noel.
DONA BAGATELA: E a polícia sabe disso?
CIPÓ: Deixe a polícia fora disso.
DONA BAGATELA: Ah!
CIPÓ: Ah?
DONA BAGATELA: Você é um dos namoradinhos da Joça? Reconheci.
ESCARAVELHO: Você experimentou esse bolo, Cipó?
CIPÓ: Não. Esse não. De que é?
DONA BAGATELA: E são quantos?
ESCARAVELHO: Pronto.
CIPÓ: Pronto o quê?
ESCARAVELHO: Chegou à hora do grande júri.
CIPÓ: Confesse, ordinário!
ZÉMAMBEMBE: Eu sou extraordinário!
ESCARAVELHO: Cipó! Cipó! Vamos fazê-lo confessar a ferro e fogo.
CIPÓ: Confesse quem roubou o risoles da ratoeira do rato que roeu a roupa do roceiro Roy Roger.
BAGATELA: Vocês não vão maltratar meu tio!
ZÉMAMBEMBE: Eu tenho uma utopia, criança.
CIPÓ: Vamos te interrogar, maluco.
ZÉMAMBEMBE: É a chuva que traz todo esse lodo?
BAGATELA: Vamos, tio Zémambembe.
CIPÓ: Dessa casa de loucos ninguém sai com Zémambembe.
ZÉMAMBEMBE: Qual, dessas portas, devo escolher?
CIPÓ: Ele ainda não confessou a confissão no confessionário.
ZÉMAMBEMBE: Não confessaria nem se fosse pra Latrão.
CIPÓ: Só escuto isso porque tenho ouvido.
ZÉMAMBEMBE: Por qual porta devo sair? Às vezes, meu achismo acha que estou sonhando. Dependendo da porta que eu escolher, minha história poderá ser outra. Eu me lembro que estava dormindo, quando fui raptado e preso neste palácio. Alguém quebre meus grilhões. Não me tragam mais correntes. Minha história é de contestação à memória dessa elite. Não irei me ajoelhar e nem confessar os meus pecados. Me soltem, seus traidores!
ESCARAVELHO: Por que quando doido começa a falar não para mais?
ZÉMAMBEMBE: Solte. Solta, ai, aiaiaiaiai, solta, Calabar Iscariotes. Ai! Ai, ai, ai! Dói meu dente! Ai, aiaiaiaiaiaiaiaiaiaiaiai! Se não me soltar já, arranco suas bolas e penduro naquela árvore de Natal.
CIPÓ: Que loucura! Segure o homem, que o homem é forte.
BAGATELA: Ninguém encosta a mão em meu tio.
ESCARAVELHO: Alguém tire essa menina daqui!
DONA BAGATELA: Vocês não vão maltratar o tio!
CIPÓ: Por que não tira essa veia também? Já. Vai, Escaravelho. Aproveite, Escaravelho, e jogue as duas no olho da rua. Mete o pé na bunda delas.
ZÉMAMBEMBE: Eu estou sendo julgado por quê?
BAGATELA: Largue o tio, seus demônios!
ZÉMAMBEMBE: Eu estou sendo julgado porque não sei o porquê de saber por que eu fiz o que não podia fazer, e por quê?
ESCARAVELHO: Co-confesse quem roubou o risoles da ratoeira do rato que roeu a roupa do roceiro Roy Roger.
ZÉMAMBEMBE: Eu sou um solitário completo. Não gosto de parentes. E tenho as minhas razões. Parente tem uma mania feia de fazer vergonha à gente. Isso, aí? Estou desconfiado. Isso é ato falho; mas, também poderá ser identificado por sintoma, mas ainda não identifiquei. Sai; tire a mão de mim, seu porco! Pinto calçudo. Escutem aqui, seus, seus. Deixe-me... deixe-me falar. Eu comi sozinho um livro de admissão, folha por folha, capítulo por capítulo de capa a capa. Meu desconfiômetro é casado com a minha vigilância epistêmica. Sincericida eu não serei. Não serei levado outra vez à sala de eletrochoques contínuos, porque não sou homem de ter reticências psicológicas. Vocês me ouviram? Não, não sou sujeito nem indivíduo de ter essas reticências. Não, não vou confessar. Não sou dedo-duro. Que Simplicidade esperava de mim? Mentir na tortura é heroico. Eu não a tolho em nada. Alguém diga isso à Simplicidade. As suas pinturas ainda se encontram onde eu as deixei. Ela não precisava me torturar com atos e palavras. O nosso matrimônio sempre foi de respeito e amor à arte. O que ela esperava? Uma pessoa mais jovem? Ela me foi dada em casamento por seu pai, que devia ao meu pai. Eu queria saber tudo dela, e perguntei ao papai. Ele inventou ficções sobre Simplicidade, que me prometeu gestações sem fim. Acreditei. Não vou mentir. Papai queria essa propriedade cheia de crianças. Nunca a castiguei. Uma vez. É verdade. Mas só essa. Nunca mais. E jamais a comparei a um bacurau. Isso é mentira da Simplicidade, que sempre foi dada à mentira. Gente, ela sempre desprezou a verdade. Sequer tramei a morte dela. Ela jurava em destruir a minha reputação. Se fui acusado de assassinato, fui porque os jornais queriam vender porcarias, como em geral. Estava prometido a ser Conde Geral do Sertão naquela época de Body Art, beijos por cima e fogo por baixo. Papai acertou tudo. Tudo foi de água abaixo. O título de Conde Passapano ficou com o meu primo de Maceió, que duelou e matou o nosso primo do Recife, pois queria separar e se fazer independente de Pernambuco o Sul de Pernambuco. Aquele separatista da cana-de-açúcar, acabou por convencer a família real a juntar-se às ideias rapaduras republicanas daquele bacurau de engenho. É por isso que eu estou sendo julgado? Isso não é justo, isso não é Justiça.
CIPÓ: Vixe!
ESCARAVELHO: Oxi!
BAGATELA: Oxente, tio!
DONA BAGATELA: Quem são vocês, diabos!
ZÉMAMBEMBE: Posso comer panettone no sofá?
SIMPLICIDADE: Desde que não suje o meu sofá novo.
DONA BAGATELA: Cadê os meus cachorros, que não deram fé dessa bagunça!
CIPÓ: De que essa veia tá falando, Escaravelho?
ESCARAVELHO: Daqueles pulguento e morto da fome, que a gente alimentou com salsicha envenenada.
CIPÓ: Memo? Lembrei. Eles morreu? Vou ver. Não vou mais. Tá tudo calmo. E é mais melhó.
ZÉMAMBEMBE: Os seus cachorros, Simplicidade, podem chegar sujos de lama e subirem no sofá.
SIMPLICIDADE: Eles podem, sim, porque eles são mais gente, sim, do que você, sim, senhor.
DONA BAGATELA: Valei-me, Senhora Santana, eu estou sonhando que estou sendo levada pelas ondas da Pajuçara. Socorrei-me, Iemanjá!
ZÉMAMBEMBE: Eu estou sendo julgado por quê, gente? Por que publiquei uma carta do leitor? Eu, gente, só escrevi um texto que informava a minha opinião. E qual é o pecado disso? Eu me dirigi aos prezados editores. E o que eu disse foi que gostei muito da matéria “Santana: epicentro do cangaço lampiônico.”
CIPÓ: Agora deu a peste!
ZÉMAMBEMBE: Gostei muito da matéria publicada no mês do meu aniversário, eu escrevi aos editores: Tenho 27 anos de gozo, prazeres inenarráveis, e sempre tive essa dúvida, desde o dia em que mamãe me segredou sobre ser Santana o epicentro do cangaço lampiônico. E sem Santana, o cangaceiro só seria mais um entre tantos que abundam mundo afora. Os senhores, disse, poderiam ceder às senhoras. Escrevessem, na próxima edição de domingo, disse, como tirar dez elefantes brancos na piscina. E seria oportuno descobrir se havia dez elefantes brancos na piscina. Agradeci a todos com entusiasmo e abraços. E subscrevi sob o nome Vila de São Gabriel etc.
ESCARAVELHO: Esse se não for doido parece.
ZÉMAMBEMBE: Ou serei condenado por ter escrito a carta aberta depois de ter lido a minha carta do leitor no coreto da praça? A carta aberta foi escrita, como se sabe, pois, eu quis redigir agora um documento público com o bom tom de reivindicar às autoridades e à comunidade da Vila de São Gabriel o fim dos combustíveis fósseis extraídos do rio. Protestei. Protestei, sim. Fui ao coreto com todas as forças dos meus pulmões e me somei à força dos pulmões alheios, sim. E espero ter conscientizado o povo cuja consciência é uma lástima. E volto, sim, a tratar o que fiz, sim.
BAGATELA: Calma, tio.
ZÉMAMBEMBE: Deixe-me, sobrinha.
DONA BAGATELA: As veias do pescoço vão estourar, tio Zémambembe.
ZÉMAMBEMBE: Não tenho medo da sua tia Simplicidade.
CIPÓ: Isso é verdade?
ESCARAVELHO: A verdade foi enterrada ontem. Esqueceu?
CIPÓ: Foi memo. E quem ficou em seu lugar?
ESCARAVELHO: A mentira. Não sabia?
CIPÓ: A mentira não tava foragida?
ESCARAVELHO: Foi presa e escapou.
CIPÓ: Aquela é mais lisa que jundiá.
ZÉMAMBEMBE: Carta aberta que escrevi era filha de texto inocente, linguagem pura. Não me cabia ser censurado. Cabia? Cabia, gente, cabia? Mesmo o cabide que recusasse proteger a camisa da felicidade teria forças para tanta crueldade à réstia de humanidade que vive na Vila de São Gabriel. Escrevi coisas simples, bobas, que diziam que nós, Cidas e Cids, cidadãos da vila, vimos por meio dos meios próprios etc. Neste ponto, usei a clássica estrutura tripartite de introdução, desenvolvimento e conclusão. Vejam os senhores, a senhora e senhorita minha pequenininha, que não larga essa bonequinha de pano. Usei a tese-argumento, sim, porque não poderia ser de outro jeito. Informei-lhes que entre sujeito e verbo não se usa vírgula. Para um bom entendedor, uma vírgula é o melhor argumento. Os senhores não concordam? Pois bem! Pergunte “quem?” ou “o quê?” ao verbo e este lhe apontará o sujeito. Os senhores gostaram? Eu recebi dos médicos um documento onde me diagnosticaram com altas habilidades e superdotação. Sim, senhores. Diagnóstico foi conduzido por neuropsicólogos, que se surpreenderam com a minha criatividade e amor à Vila de São Gabriel.
CIPÓ: Oxi!
ESCARAVELHO: Vixe!
ZÉMAMBEMBE: A carta aberta foi recheada. Os senhores sabiam? Repleta de conectivos. Os senhores sabiam? E com propositura de intervenção. Coesão e coerência à vontade, senhores, senhora e senhorita com essa sua bonequinha de trapos. Bastante unidade textual. Abusei do verbo presente do indicativo, sim. Tinha esse direito constitucional ao meu lado. Expressei com largueza de ação e de estado que antecederam o momento. E eles ficaram bem admirados, depois eu soube, com a minha concordância verbal e nominal. Harmonizei substantivos e verbos, e tomei o caminho do zelo e evitei usar a vírgula para separar orações subordinadas adjetivas restritivas. Transitei pelas palavras concretas com a carta aberta. Disse-lhes que há muito temos o mesmo rio com dois nomes diferentes. Isto é certo? Não. Uma parte, Rio dos Lírios; outra parte, Rio São Gabriel. Vamos unificar o rio. Ele é de todos nós e precisamos zelar por ele. E repeti o pronome de propósito. Vamos combinar de usar as mesmas pedras, os mesmos peixes. Juntos faremos um rio melhor. Atenciosamente. E subscrevi como de praxe, logo datei por ser de praxe.
BAGATELA: Tá bom, titio.
ZÉMAMBEMBE: E eu sou seu tio? Não sabia.
DONA BABÉLICA: Sim, tio Zémambembe.
ZÉMAMBEMBE: Eu confesso, eu confesso. Não me torture com narrativas. Fui eu quem escrevi as cartas... senão eu... do contrário, vocês sabem... se não eu... caso não, vocês sabem... Em vez de... Vocês sabem, em lugar de... Ao invés de... Vocês sabem, ao contrário de... Porventura... eu quero dizer por acaso. Vocês sabem. Por ventura, eu digo por sorte. Irei lhes mostrar as cartas. A primeira foi uma simples e inocente carta do leitor ao Jornal do Sertão. Não irei ser preso por isso. Irei? A outra foi uma carta aberta. Isto dá prisão? Aliás, eu sei o porquê de os senhores virem aqui.
CIPÓ: Por quê?
ESCARAVELHO: Por quê?
ZÉMAMBEMBE: Porque o mundo tem medo de mim.
BAGATELA: Ti, tio, titio... vem, vamos atravessar aquela janela e fugir.
ESCARAVELHO: Ninguém sai! Só eu tenho o poder de perdoar.
CIPÓ: E isso é um poder bem poderoso. Só sai daqui se eu der alta.
DONA BAGATELA: Vamos; vem, tio; logo! Rápido. Passe por essa apertada hora, antes que amanheça de vez. O dia amanhece pra engolir a escuridão. Lembra-se, tio, lembra-se? Isso é a sua cara. E a noite? A noite é quem come o dia. Deixe ajudar o tio antes que a Simplicidade venha atrapalhar.
SIMPLICIDADE: Não interfira no julgamento do teu tio, Bagatela. Zémambembe vai pagar pela loucura que fez em perder o juízo na guerra.
JOÇA: Tem ladrão em casa! Ladr...drão! Lad...!
DONA BAGATELA: Ladrões?
CIPÓ: Ladrão?
ESCARAVELHO: Onde?
JOÇA: Ladrão! Pega ladrão!
ESCARAVELHO: Ninguém quer levar nada de vocês.
CIPÓ: Foi um mal-entendido.
JOÇA: Dona Afável! Dona Afável! Tem ladrão aqui! A casa tá cheia de ladrão.
CIPÓ: Não exagere.
ESCARAVELHO: Pedimos desculpa. Podemos sair?
JOÇA: Socorro! Polícia! Ladrão!
ESCARAVELHO: Que é que essa veia quer levantando essa cadeira?
CIPÓ: A veia vai atacar nós.
ESCARAVELHO: Corre, Cipó.
CIPÓ: Não dá mais... Ai!
ESCARAVELHO: A veia agora vem por cima de. Ui!
VITORIOSO: Não se pode mais nem dormir, Dona Bagatela?
JOÇA: Amarre com esses panos, Seu Vitorioso.
VITORIOSO: Esses quem?
JOÇA: É ladrão, Seu Vitorioso. Ladrão.
AFÁVEL: Quem são esses homens, Vitorioso? São amigos seus?
VITORIOSO: Amigos meus, Afável? Isso são ladrões.
AFÁVEL: Ladrões?
VITORIOSO: Acho que sua mãe quebrou o pescoço de um.
AFÁVEL: Mamãe?! Ainda acordada essa hora?
VITORIOSO: Sua mãe se acorda cedo.
JOÇA: Velho não tem sono.
AFÁVEL: Alguém chamou a polícia?
DONA BAGATELA: Já liguei. Não demora; eles riscam aqui. Agora, Dona Joça, a senhora vai se explicar pra polícia. Vai falar tudo, tintim por tintim, quem são esses seus amigos. Nem que ó.
JOÇA: Me deixe fora disso, Dona Bagatela. Eu não conheço essas praga.
DONA BAGATELA: Quando a polícia chegar aqui nós conversaremos.
JOÇA: Não me acuse de nada, Dona Bagatela. Eu sou inocente. Dona Afável, diga a sua mãe que eu sou inocente. Juro pela cabeça da santa baronesa. Nunca roubei nada. Diga a sua sogra, Seu Vitorioso, que não sou ladra. Não quero sujar minhas mão com dinheiro de ninguém. Pode confiar em mim. Vocês confia em mim. A pior coisa é confiar em gente que nunca viu. A ruína do pobre é confiar no rico. Mas eu não penso assim. Nunca pensei. Quando eu cheguei pra trabaiá aqui, papai disse: “Fia, presta atenção no fio!” E eu prestei. E tanto prestei que, desde aquele tanto, tanto tentar tanto quanto...
DONA BAGATELA: Essa louca não vai parar de gritar? Dou-te uma cadeirada. Foi o senhor, esse cidadão Vitorioso quem pagou a esses marginais pra eles invadirem minha casa e me matarem de susto? Você tem coragem pra isso. Isso foi uma cilada.
VITORIOSO: Afável, tua mãe já passou dos limites. Tenho dito.
DONA BAGATELA: O senhor não tem dito nada. De vocês dois eu posso esperar tudo. Ouviu, Dona Joça? Não se esconda atrás do choro; isso são lágrimas de crocodilo. Nem você, seu meio homem. Você sempre foi uma meia verdade. E o que é isso?
AFÁVEL: Água açucarada.
DONA BAGATELA: E quem lhe pediu isso? Quem tá precisando é teu marido.
JOÇA: A senhora não treme diante do perigo, Dona Bagatela.
DONA BAGATELA: Nunca ou jamais tremi, minha criancinha bobinha. Sou forte, bondosa, saudável, formosa. Nunca temi perigo algum. E aquele herói?
JOÇA: Quem?
DONA BAGATELA: O corajoso do meu genro.
JOÇA: Ah, o Seu Vitorioso!
DONA BAGATELA: Aquele covarde de pijama. Não ouviu? Levantou-se atrás da mulher aos gritos: “Aqui, ninguém comete nem laticínio nem latrocínio!”
JOÇA: Sua coragem vem de longas data, Dona Bagatela.
VITORIOSO: O homem é o homem e o seu estado de perigo.
DONA BAGATELA: E a humanidade é uma vergonha!
Sumiu Simplicidade, que acompanhava toda a discussão passando pano no sofá. Zémambembe evaporou. Cipó e Escaravelho tentaram e não lograram êxito à fuga naquela escuridão molhada pela chuva torrencial. A tensão de Joça com a vassoura em uma mão e prendia espanador na outra. Afável bebia água com açúcar e falava das bravuras, astúcias do primo Conde Passapano, que jogava buraco com a Baronesa Kuaanddussiphoddenn. Não havia no mundo um povo mais admirado pelo longevo casarão da Baronesa Kuaanddussiphoddenn se comparado aos moradores, nascidos ou adotados, da Vila de São Gabriel. Dentro do casarão, Vitorioso conversava com a sogra Dona Bagatela sobre os seus ativos e os seus passivos. E a aproximação de uma sombra se agigantava diante da criança e o medo a fazia bater o queixo, cerrar os dentes, tremer diante do perigo.
CIPÓ & ESCARAVELHO
ContosMarcello Ricardo Almeida 04/05/2026 - 16h 53min
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