REMI BASTOS: O POETA QUE ETERNIZOU SANTANA EM VERSOS

Crônicas

Eduardo Carvalho Cavalcante

Há pessoas que nascem em um lugar, mas passam a vida inteira pertencendo a outro. Não por ingratidão à terra que o viu nascer, mas porque é o coração que escolhe onde fincar raízes. O poeta e compositor Remi Bastos Silva é um desses escolhidos pelo destino

Nasceu em 1945, na cidade de Maceió, mas foi em Santana do Ipanema que sua história começou a criar alma. Chegou ainda menino, por volta de 1952. Passou por Palmeira dos Índios, onde cursou o colegial e vestiu a camisa do Palmeira Futebol Clube, o Palmeirinha. Mais tarde, seguiu para Recife, onde concluiu os estudos e se formou em Agronomia. Viveu a maior parte da sua vida em Aracaju, capital de Sergipe, cidade onde constituiu família e reside até os dias atuais, depois de se aposentar, após 42 anos de trabalho como engenheiro agrônomo.

Assim como a borboleta que pousa em muitas flores até escolher aquela de onde extrairá o néctar, o tempo tentou levar Remi para longe. Embora tenha vivido em diversos lugares, foi em Santana do Ipanema que seu coração escolheu pousar.

Chegou à cidade aos sete anos, acompanhado dos pais, Plácido Silva e Nilce Bastos. Cresceu em um lar cheio de vida, ao lado de dez irmãos: Remilton e Railton, e suas irmãs Renilce, Renilde (Dinha), Railda, Rose, Rogéria (in memoriam), Rosiane, Risomar e Rute. Era uma família numerosa, como tantas do Sertão naquele tempo, onde a escassez material era compensada pela abundância de afeto.

Foi na Rainha do Sertão que viveu sua infância e juventude, descobriu as primeiras letras e fez amizades que o tempo jamais apagaria. Mas foi também ali que nasceram duas de suas maiores paixões: o carnaval e a música.

Desde cedo, revelou o dom das palavras. Nas décadas de 1960 e 1970, escreveu marchinhas de carnaval que até hoje ecoam na memória dos santanenses. Versos simples, bem-humorados e vivos, como:

“Ôi a abra a porta, oi nóis aqui de novo,
É o pau d’arco animando o carnaval...” (“Ói Nós Aqui De Novo”).
“Troquei meu pé de cana,
por uma garrafa de pitu...” (“Hino da Pitú”).
“Olha a cara dessa noiva,
Parece com a peste,
Essa noiva não é noiva,
Ela é gilete!...” (“A Noiva”).

Suas canções não eram apenas música, eram retratos da alegria popular. Além dessas, Remi também compôs diversas outras músicas, como: “Santana eu Amo Você”, “Camoxinga”, "Meu Bairro" e “Velho Cruzeiro”, entre muitas que seguem vivas na memória do povo.

Nem só de marchinhas carnavalescas viveu o poeta. Remi também cultivava a alma seresteira, e foi com a canção "Santana dos Meus Amores" que ele, empunhando o violão nas noites de lua, declarou o amor por Santana em forma de melodia:

“Da Microondas no alto da serra,
Não me canso de admirar,
As tuas praças, teu povo, está terra,
Onde o progresso não pode parar...”

Veio também a canção “Saudade”, que começa como uma confidência:

“Não vá embora, é cedo,
Pois sozinho eu tenho medo
De ficar a recordar.”...

E recordar, para Remi, é dar uma volta na praça do Monumento, é passar na ponte do Padre, é tomar banho e pescar nas margens do Ipanema.

Na humilde opinião deste aprendiz de cronista, foram essas canções que mais profundamente tocaram a alma dos sertanejos. Cantadas por foliões, ecoaram pelos becos e ladeiras da Rua Nova e pelos salões do Tênis Clube.

Até hoje, suas letras sobrevivem na memória dos santanenses e foram eternizadas por intérpretes como Waldo Santana, Arly Cardoso e Dênis Marques.

Como reconhecimento desse amor, sua irmã Rosiane Bastos criou o bloco “Santana dos Meus Amores”, que brilhou nas prévias carnavalescas da cidade, levando seu nome e sua poesia de volta às ruas que o inspiraram.

Mas foi com o hino oficial de Santana do Ipanema que Remi alcançou a imortalidade:

“Santana do Ipanema
Torrão querido, pedacinho do meu Brasil,
És a Rainha do Sertão Alagoano,
Desta Pátria mãe gentil.”...

Quando Remi compôs esses versos, não o fez apenas com técnica, mas com amor. Colocou no papel não somente a própria história, mas a de todos os santanenses. Ali estão os pioneiros Padre Francisco Correia e Martinho Vieira Rego, as praças, o rio, o progresso. E o refrão que volta como juramento:

..."É mais forte o meu desejo de dizer
Sou sertanejo, Santanense até morrer!"

Há também, em seus versos, ecos da "Canção do Exílio", de Gonçalves Dias, aquele poema nascido da saudade. Assim como o poeta romântico escreveu com o coração distante de sua terra, o poeta sertanejo também transformou a saudade em poesia, não como ausência, mas como permanência.

Em 2020, Remi Bastos recebeu o título de Cidadão Honorário de Santana do Ipanema. Hoje, quem chega à cidade também pode encontrar seu nome em um dos auditórios do Hotel Privillege. Homenagens justas, pois cidadão santanense ele já era desde o primeiro dia em que ali chegou menino, sem saber que carregava consigo a missão de eternizar a cidade em palavras.

Lançou em 2022 o seu livro "Lembranças Guardadas". O engenheiro agrônomo que dedicou a vida a entender a terra, as sementes e as colheitas, também cultivou memórias. Aprendeu que existem solos que produzem alimentos e outros que produzem identidade. E Santana do Ipanema foi seu solo mais fértil.

O amor de Remi Bastos por Santana não é daqueles que se explicam com discursos. É daqueles que se cantam. Que se escrevem. Que se guardam. Ele é sertanejo, Santanense até morrer!

E assim ele segue. Plantando versos no tempo, como quem irriga a própria eternidade. Fazendo brotar, das lembranças, a certeza de que há lugares que não são escolhidos por nós, são eles que nos escolhem

E como ele mesmo poetizou:

..."Quando eu partir desse mundo de flores,
Levarei comigo uma rosa,
De ti não guardarei rancores,
Santana dos meus amores"...

Maceió, fevereiro de 2026.
Eduardo Carvalho Cavalcante

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