ZÉMAMBEMBE, O AÇODADO

Contos

Marcello Ricardo Almeida

Oxe! Entre muros altos, Zémambembe planejava escapar. As notícias que lhe chegavam da Vila de São Gabriel pelavam a sua cabeça de tão quentes. Ele ia de um muro ao outro.
Ali, Almeida Garret escreveu “Viagens na minha terra.” Almeida amigo de boas conversas com leitores de literatura, festejava a vida com Digressão, filha do Dr. Xavier. Digressão foi aluna no mesmo colégio de Simplicidade; se não há engano da minha parte, elas concluíram a aprendizagem juntas.
Cada nova notícia que chegava da Vila de São Gabriel, Zémambembe via a eternidade desabar, caía sobre ele óleo fervente. Os tocos de enlutadas unhas procuravam cicatrizes do reboco.
Lá, passava férias o Dr. Bernardo Guimarães. Ouvi dizer que as primeiras páginas de “A escrava Isaura” foram rascunhadas lá. O velho José de Alencar e Machado de Assis foram vistos com o Sr. Aluísio Azevedo numa conversa sobre “O cortiço.”
Os olhos de Zémambembe fixos nas frestas mais altas. E as pedras nos muros pareciam irregular, pareciam oprimi-lo cada vez mais, cada vez mais. Elas se fechavam sobre ele a cada notícia da Vila de São Gabriel.
Acolá, pertinho daqui, Joaquim Manuel de Macedo gestou “A moreninha.” Lembra-se? Lembro-me. Ó, cê lembra-se ou não se lembra? Sim; eu me lembro, sim, sô!
As unhas de Zémambembe estavam gastas de tanto medir o espaço entre as pedras que formavam os muros altos e as grades de ferro cujo suor das mãos havia roído. O ruído lhe incomodava.
Há muito tempo, vi um filme. As pessoas não pareciam humanas. Saber, hoje, que algumas prosperaram e outras sumiram... Uma coisa assim, não podia ser aceitável. Neste ponto, os ponteiros giravam ao contrário. Aceitável ser podia não, assim coisa uma... Sumiram outras e prosperaram algumas que, hoje, saber. Humanas pareciam não pessoas as. Filme um vi, tempo muito há.
Em algum lugar, alguém gosta de mim. Mim de gosta alguém, lugar algum em. É isso o que acalenta esse tempo. Tempo esse acalenta que o isso é.
Na juventude de Olho D’Água dos Lírios, – atento, ligeiro, Zémambembe corria os olhos – pesados armazéns cochilavam em ruas estreitas, escuras. As residências dormiam o sono justo. Os trabalhadores decerto pesadelavam com o dia seguinte.
A cabeça de Zémambembe fugia: ora em Júpiter, ora em Marte. Como se às cegas e a todo tempo procurasse sintonizar alguma emissora radiofônica. As vozes, que eram muitas, choravam, cantavam, assobiavam, emudeceram, num estouro gargalhavam infinitamente, infinitamente reclamavam, desafiaram, em incômodos chiados deliravam, acovardaram-se em longo assobio, enfrentavam, mentiam, protestavam, salvavam e condenavam. Não raras vezes, todas elas falavam a um só tempo, como se treinassem algoritmos. Mensagens, que não paravam, documentos, imagens, áudios congestionados travavam, aceleravam. O que era reportado em todas as línguas, em tempo real, presente ou remoto, vesparizavam em Zémambembe. Bagunçava-lhe a cabeça.
As fábricas de doce fumegavam pelas chaminés, não adocicando o ar, mas como se elas ressonassem. Os caminhões com cargas pelos cabelos.
A caneta da educação, disse, dominada por um cérebro sem paixão. Com as luzes apagadas, a escola ficava invisível. Era uma escola sem utopias.
As pessoas de roupa de cortina logo estariam de pé, abririam janelas, ligariam os aparelhos, encheriam a atmosfera de vaivéns até que o cansaço as encontrasse. Zémambembe, apressado, escolhia o caminho mais escuro.
O Jornal do Sertão, que não existe mais, em sua sucursal em Olho D'Água dos Lírios, sonhava com palavra, frase, oração, período, pontuação, acentuação, ortografia, texto expositivo, construção de frases, concordância verbal e nominal, os usos de pronome e conjunção, texto narrativo. Sonhava com reportagens, parágrafos, fotografias, notícias e não boatos, visitavam os sonhos do jornal o Onde, o Como, o Quem, o Quê, o Por quê, o Quando.
Cronistas em Olho D’Água dos Lírios eram diferentes de cronistas na Vila de São Gabriel. Se aqueles eram do tipo textual injuntivo com bulas de remédio, receitas culinárias, os de cá eram de crônicas expositivas com informações e os significados de verbetes. Havia os de texto narrativo, outros do tipo descritivo.
E, na redação do Jornal do Sertão, os repórteres perdidos entre anotações das entrevistas. Fantasmas entre verbos, substantivos, adjetivos vazios, artigos, numerais, advérbios, preposições, conjunções, e a interjeição oxen...te.
Contistas mandavam contos aos jornais e os chamavam de textos cansados. As cartas dos leitores ficavam na caixa de textos argumentativos, mesmo se elas fossem vazias de argumentos; nenhum ponto de vista publicável, opinião furada, fatos rarefeitos e sobejos de boatos, na avaliação da equipe do JS.
O sol, que tudo secava, longe de dar as caras, porém o metal de chaminés já estava com o calor das fornalhas a todo vapor. O cheiro de açúcar queimado em briga com o cheiro de óleo diesel dos caminhões, cujas carrocerias rangem umas com as outras sob o peso de fardos que desafiam a gravidade.
Quem financiava o jornal? Nas calçadas, o silêncio cortado com o clique-claque metálico da máquina de escrever no último andar da redação do Jornal do Sertão. Quais as notícias que agradavam os leitores?
Lá em cima, o cafezinho do JS desenha imagens no ar com o vapor de água condensado. Os dedos do jornalista catam o encaixe entre o sujeito e o predicado, transformando o disse me disse das ruas em manchete de papel.
Zémambembe, nas calçadas, acelerava o passo:
Me espere, Bagatela, que eu estou chegando! não se cansava em repetir. Me espere, Bagatela, que tô quase lá! disse a septilha em martelo agalopado:
A criança transformada se constrói
No gesto que parece comezinho,
E ressoa pelas eternidades
Criança vítima da espancação.
Machuca o coração verdolengo
O cérebro sofre a invasão
E tatua na alma o desengano.
O céu era um lençol de breu quando Zémambembe começou a atravessar as ruas de Olho D’Água dos Lírios. Apressava o passo para vencer as casas sepultadas no escuro, as praças sob a sombra negra de frondosas figueiras cujas únicas vidas circundantes eram de corujas à espera de ratos, as capelas adormecidas a sonharem com o Jardim do Éden.
Ao transpor altas paredes de pedras irregulares, Semovente já aguardava Zémambembe em um campo ermo, atrás dalguns casebres. Em Olho D’Água, o silêncio era absoluto, os monturos ressonavam; o que violava a quietude era um ou outro coaxar solitário de um sapo. Zémambembe e Semovente passavam por fachadas cegas e comércios de portas trancadas.
Zémambembe não esperou o galo cantar. Impaciente e atento, ao entrar na rua principal, os seus pés nus pisavam nas pedras lavadas com a última chuva; poças d’água eram paraísos dos sapos.
Pouquíssimas luzes despertas àquela hora cujos ponteiros no relógio da velha igreja mais cochilavam e menos honravam a vigília permanente às almas em Olho D’Água. Zémambembe tropeçou em um sapo gordo parado no meio da rua; o sapo fugiu da poça, foi expulso do paraíso.
As janelas fechadas pareciam vigiá-lo. Ele fugiu, a primeira luz ainda uma promessa distante. O frio, após noites de chuva, marcava o ritmo da caminhada.
Olho D’Água dos Lírios adormecida em um tempo antigo: comércio de portas cerradas e residências mudas. Aquele sapo expulso do paraíso na poça d’água seguia com olhos pesados os passos ligeiros de Zémambembe, que não parava de falar com Semovente.
Quão um assobio, o vento da madrugada agitava o cabelo, incomodava os ouvidos, arrefeceu cada vez mais o solo, quase queimava os pés nus quando Zémambembe, cauteloso, cruzou becos, evitou ruas largas em Olho D’Água dos Lírios. Recusou-se olhar para o céu, temendo o avanço inevitável das horas, e apressava o passo pelas ruas onde trincas e cadeados ainda guardavam o sono alheio. No chão úmido, apenas o coaxar doutros sapos pontuava o vazio das vitrines desertas.
Os sapos assistiam à sua fuga desesperada. As janelas em Olho D’Água dos Lírios não iam além de meras tábuas mudas quando Zémambembe partiu. Sob o clarão pálido que precede o sol, ele cortou a última rua, ignorando as portas antes do cemitério abandonado. As suas únicas testemunhas foram os sapos estáticos nas pedras das ruas por onde ele passava.
Zémambembe não queria que o encontrasse em campo aberto; calculava cada légua para que o benfazejo destino não se deixasse influenciar pelo malfazejo acostumado a surgir antes do fim da primeira estrela. Talvez viesse o Malfazejo logo atrás, e o devolvesse às paredes altas das quais só escapavam pavorosos gritos que rasgavam as entranhas da terra, abrissem terríveis fendas, dividissem o mundo em guerras perenes, provocassem novas placas tectônicas. A litosfera estava em paz naquela hora.
As nuvens formavam chapéus nos serrotes e se moviam feito o magma. Zémambembe, apressado, pediu proteção, roubando sorte à escuridão sem freio. Nuvens ligeiras esvoaçavam qual o manto da padroeira de Olho D’Água dos Lírios. Pelas ruelas, o único som que o perseguia era o baque seco dos pés nus nas pedras, vigiado pelo coaxar rítmico dos sapos banguelos.
Zémambembe apertou o passo, sentindo o peso do cronômetro invisível que o tempo lhe impunha. Se a luz o alcançasse antes da Vila de São Gabriel, os perigos que ele tanto imaginava deixariam de ser sombras para virar unhas longas e afiadas.
Sob a luz pálida da madrugada, ele encarou as fachadas trancadas como túmulos em fileira; ninguém ali o ajudaria se o pior acontecesse. O salto de um sapo na calçada o fez tensionar os ombros. Até o bicho tem onde viver tranquilo, remoeu, enquanto evitava olhar para o horizonte, onde o dia ainda ensaiava uma claridade que ele sabia ser passageira.
Zémambembe tateou a cruz presa ao cordão no pescoço enquanto os primeiros clarões da manhã ainda eram apenas uma pálida promessa. Ele precisava ganhar a estrada do cemitério abandonado; se a luz morresse antes de ele avistar a Vila de São Gabriel, as sombras deixariam de ser vazias para ganhar unhas longas e afiadas, nomes e dentes.
Cruzou as passagens desertas sentindo o peso do tempo fechado quão pálpebras de um defunto. Um sapo saltou de uma poça e o coaxar seco ecoou como uma risada de escárnio.
Diante dos portões do cemitério abandonado, Zémambembe não parou. O primeiro portão de ferro cedeu com um gemido seco. O cheiro de terra molhada e mofo parecia uma promessa de deglutição. Ele parou, o ar travado na garganta.
Eu sou apenas o que penso, disse para Semovente. Do outro lado do rio, imaginou os gritos estridentes da tia e o pavor da sobrinha. A fome da terra é real, disse ao respirar, ofegante, o ar pesado.
Nos momentos ruins, ele voltava à sétima, num esforço para mascarar a cruz que a vítima leva à velhice:
A criança transformada se constrói
No gesto que parece comezinho,
E ressoa pelas eternidades
Criança vítima da espancação.
Machuca o coração verdolengo
O cérebro sofre a invasão
E tatua na alma o desengano.
Somos pensamentos e linguagem, repetiu ao Semovente. Não demonstre pânico. A gente é pensamento e linguagem. De olhos bem fechados, repetia o seu mantra.
Semovente ouviu a voz do desejo de Zémambembe rever Simplicidade tricotando na cadeira de palhinha, a menina a oferecer-lhe chá de capim-santo. Sentiu o cheiro de chá: era mais forte que o lodo no coração da tia. Ele forçou a imagem, a manteve viva.
Dentro do cemitério esquecido. Lápides tortas pareciam famintas.
Ajoelhou-se e pegou um punhado de terra, sentindo a frieza que logo o cobriria. Eu sou o que digo a mim mesmo, comentou com Semovente, fechando os olhos.
Em lugar do cemitério abandonado, Zémambembe viu a casa com cheiro de bolo de chocolate e cobertura de morango no outro lado do rio. A tia não era mais ranzinza, a sobrinha zelada por seus mimos.
Os pés nus afundaram na terra que beijava os túmulos descascados do cemitério. Ele falou ao Semovente:
Pensamentos e linguagem.
Zémambembe abafou o estalar de galhos secos sob os pés, que soavam como ossos quebradiços. Escutou o rumorejar do rio. Pensamentos e linguagem. Tá vendo, Semovente. E, agora, vê o que eu vejo? Viu o avental engomado da tia que brincava com a sobrinha.
A morte não teria espaço na mesa de jantar.
O cheiro de terra úmida e esquecimento subia pelas narinas, uma fome que parecia querer puxá-lo para o silêncio perpétuo. Zémambembe não olhou para as cruzes. Construiu pedra por pedra uma casa além do rio. Recriou as risadas da tia, gostosas risadas, intermináveis, acompanhadas do som de chaleira com severos apitos, e a sobrinha brincando com a sua boneca de pano. Nenhuma linguagem, Semovente, quando não há pensamento.
Independente se a lama no cemitério abandonado borbulhava sob os pés descalços. Os olhos da tia lhe enfeitiçavam e as gostosas risadas o envolviam com ternura.
No cemitério abandonado, a terra expelia um gás fétido de matéria orgânica liquefeita que gruda na garganta. Ele tentou articular pensamento e linguagem, mas o ar estava espesso demais, saturado demais.
O caminho coberto pelo odor e fluidos que vazavam das fendas.
A terra ali era uma barriga inchada e frouxa, cedendo a cada passo como se estivesse prestes a romper e revelar as vísceras de mármore e ossos. Mas no outro lado havia a água do rio renovada pelas últimas chuvas, elas quase diluviaram Olho D’Água dos Lírios.
Pensamento e linguagem. Zémambembe demonstrou a Semovente salivar com o cheiro de pão recém-saído do forno à lenha na cozinha da tia. Tinha que atravessar antes que o solo, saturado, começasse a mastigar os seus pés.
O estômago de Zémambembe contraiu-se em um espasmo violento, e o gosto ácido da bile queimou a garganta enquanto o cheiro de carne doce e úmida o invadia. Ele tentou engolir a própria saliva, mas ela era espessa, contaminada pelo pó e pelo mofo.
Os dedos de Zémambembe, enterrados na própria carne, tremiam, e a extremidade deles feriam a palma das mãos.
Enquanto Zémambembe conversava com Semovente, projetava a etérea imagem da tia e da sobrinha. O suor frio escorria pelas suas costas como vermes hibernantes em geleiras, e cada fibra de músculos lutava para não ceder ao peso daquele chão mole. A boca aberta.
A terra, um organismo faminto, sugava os seus pés nus. O cemitério tinha pressa.
Via-se o fim da madrugada; antes, nas ruas de Olho D’Água dos Lírios; e, agora, a travessia por estreitas passagens no cemitério esquecido. Pensamento e linguagem, Semovente, pensamento e linguagem.
O rio diante de Zémambembe. A imagem perfeita. Íngremes serrotes, ele e Semovente admiraram as serras dormindo, zeladas pelas planícies alagadas.
A Vila de São Gabriel era um encaixe perfeito entre maciços rochosos. Os granitos brotaram e avançaram aos céus feito foguetes. As planícies serenas como a paciência da sobrinha criada pela tia. Morros gigantes vigiavam a Vila de São Gabriel.
No leito do rio, as mãos de Zémambembe afundaram na lama. Grosso, o rio roncava. As pedras no leito foram engolidas pelas águas. A lama tinha a consistência de gordura fria.
A água do rio o atingiu como um choque de agulhas, mas o cheiro deixado para trás era pior: o lodo revolvido exalava o odor do cemitério abandonado.
Enquanto entrava no rio com o cuidado de não ser carregado, os galhos submersos roçavam as suas pernas como dedos esqueléticos, e Zémambembe lutava contra o reflexo de fechar os olhos, temendo que a bile finalmente vencesse a garganta.
Com os pulmões queimando e o suor frio que lhe lavava o rosto, ele focou na outra margem. Lá, a tia estendia fatias de pão, queijo e musse à sobrinha, que segurava a boneca de pano. Deixava às costas o cemitério abandonado qual uma ferida que finalmente parava de sangrar.
O sol já ameaçava surgir. Zémambembe lutava contra a violência do rio.
Antes que fosse tarde, Zémambembe tinha que fugir dali. As conversas formigavam dentro dele.
Zémambembe olhou para trás. Semovente esmagou o mato seco que crescia livre entre as cruzes de ferro esquecidas. Sob a cinza que agasalhava o céu, Zémambembe guiava Semovente. Quando o cheiro de lodo e o som da água batendo nas pedras preencheram o ar, ele soube que a Vila de São Gabriel estava próxima.
O açodado já veio? disse numa recusa em ouvir isso dela. Zémambembe, o Açodado, filho de Zémambembe, o Lerdo, e neto de Zémambembe, a segunda pessoa de Seu Ninguém.
No caminho à Vila de São Gabriel, como não atravessar o rio e o cemitério abandonado? Cada vez que ela queria amedrontar a sobrinha, falava do passado escravista da sua família: era o que alimentava a sua fúria.
Antes que o orvalho secasse, Zémambembe ajustou-se, pediu calma e coragem a Semovente, reagindo à pressão que lhe chegou da Vila de São Gabriel.
Como escapar de onde se encontrava há meses a fio? Zémambembe era meticuloso. Como arrancar das unhas da tia a sobrinha? O momento lhe exigia urgência. Teria que escapar das paredes.
Lápides tortas pareciam observá-lo. Os olhos buscavam apenas a linha escura do rio que o separava da alma que jurara resgatar.
O orvalho acolheu os pés nus de Zémambembe enquanto contornou o cemitério. Ninguém poderia vê-lo, nem o escutar.
Antes que o sol voltasse ao outro lado do rio, voltasse à Vila de São Gabriel, Zémambembe teria que dar um jeito em todos os erros. Foi promessa. Não me venha agora com conversas de que não a fez, porque fez. Você prometeu, tio Zémambembe.
– Tá! não parava de repetir. Tá, tá!
O rio era o único empecilho? Não. Não, Zémambembe? Antes dele havia o cemitério abandonado. Ah, havia o cemitério abandonado! Ninguém abandona cemitério, abandonam-se corpos em cemitérios.
No Semovente, ele sentia o balanço rítmico da subida até que o horizonte se abrisse no leito do rio. Ali, diante da correnteza, a missão imposta era deixar de ser o que era e tornar-se herói.
Numa linha fina, via-se serpentear o rio no fim do abismo. Não havia como contornar o cemitério abandonado; ele tomava-lhe o caminho.
Paredes altas, tortas, tombadas pelo tempo, com breves aberturas pelas quais se espremia espinheira-santa. À frente, Zémambembe temia a abertura: extensos rochedos escarpados. A garganta do precipício se protegia com galhos de afiados e traiçoeiros espinhos até o fim do abismo.
As mãos de Zémambembe apertavam Semovente, e a força empregada tornava os dedos esverdeados como se estivessem mortos. Ele não esperou que Semovente se acalmasse; esporeou o flanco da escuridão, ignorando o lamento das dobradiças velhas no portão do cemitério abandonado.
Ao atravessar o cemitério, o cheiro de terra úmida e o silêncio das cruzes tortas levantou os pelos da nuca. O coração era um cronômetro ruidoso contra as costelas. Do outro lado, a margem não era terra, mas a muralha de sombras que parecia respirar, ofegante.
Zémambembe ladeado por esqueletos de árvores retorcidas que se inclinavam sobre a água, como dedos longos prontos para puxar o que quer que se atrevesse a cruzar. Não havia o canto de pássaros ou o coaxar de rãs; apenas um silêncio denso e o brilho intermitente de algo que não deveria estar ali – pequenas luzes bruxuleantes, frias e azuladas, que flutuavam entre os troncos, indicando que, naquela margem, a vida seguia regras que Zémambembe jamais imaginou em seus desvairados torvelinhos.
Ele parou a respiração, mas o som não cessou. Um ruído seco e rítmico cortava o marasmo da correnteza.
Era como se centenas de unhas compridas estivessem raspando ao mesmo tempo os portões do cemitério abandonado. Não era um bicho, nem vento. Era um estalo úmido, seguido por um suspiro que parecia sair de gargantas cheias de lodo. Semovente recuou, enquanto o som se transformava em um sussurro arrastado, uma cacofonia de vozes sem lábios chamando por um nome que, no fundo de sua alma, ele reconheceu ser Bagatela.
Zémambembe num movimento fluido. Os pés nus afundaram no lodo sem produzir um estalo. Entrou na água devagar, sentiu o gelo subir pelas canelas como agulhas. A cada passo, ele testava o fundo com a ponta do pé, evitava pedras soltas.
A correnteza empurrava o seu corpo. Mantinha-se firme com o propósito de salvar Bagatela.
A respiração presa no topo da garganta, filtrada entre os dentes cerrados. Os olhos não piscavam; vigiavam as luzes azuladas na outra margem enquanto deslizava no espelho escuro do rio, Zémambembe transformando-se em apenas mais uma sombra ao lado do cemitério abandonado.
Com a impressão de ouvir um rádio de pilha chiar, captou uma voz que tentava explicar o porquê das coisas. Os olhos fechados enxergaram azulado brilho. Oxi!

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