Há tempo não chove na véspera de Carnaval. O tempo sob a persistência da chuva, que fazia correr o mormaço, descia as ladeiras com fome e velocidade.
Ia alta a madrugada.
Nem tudo parecia invisível em torno da máquina de escrever. Ele, parado, não desviava o olhar do colorido desenho: a casa em uma das paredes.
Os dedos pareciam levitar sobre as teclas da velha máquina de escrever. A batida pulsante. As teclas dançavam sob a agilidade dos dedos.
Na sala de paredes grossas e janelão entreaberto havia cheiro de papel que parecia evocar os tempos de correspondente do Jornal de Alagoas.
A fita rubro-negra da máquina corria feito água sobre as pedras no velho e cansado rio sazonal. O estalo das teclas rompia o silêncio da madrugada. Os tipos metálicos golpeavam o papel com ritmo, tingindo o branco com parágrafos pretos. Ele não olhava para as mãos; os seus olhos estavam fixos naquele desenho colorido na parede, vizinho a outros quadros. Os dedos ágeis, teclas gemiam entre batidas pulsantes: teteco, telecoteco, teco!
O estalo metálico da máquina de escrever preenchia o vazio.
Os dedos não apenas recriam, transmutam os níveis de invenção.
As letras golpeiam o branco da folha, tingem o papel com a fome de Van Gogh.
No telecoteco constante, grafemas combinavam jogar com os fonemas.
Entre uma frase e outra, a metralhadora giratória atribuía valor sonoro e a mistura das consoantes e vogais formava a estrutura. Os seus olhos, que não estavam sobre o papel, percorriam o desenho da casa onde nasceu, como se as tintas e as batidas na máquina respirassem juntas.
A narrativa na quarta parte:
– Eu me sentia como se olhasse o abismo! confessou o vaqueiro à Júlia, que apertava e rangia os dentes como se quisesse provocar desgaste dental. O vazio infinito. Como fugir! Existir era uma dor que não passava. Queria saber se havia propósito, algum motivo que me permitisse continuar. Fazia coisas que me fizessem esquecer, mas ele sempre lá, como se esperasse no silêncio. Isso me esmagava, me fazia perguntar se valia alguma coisa ir adiante.
Júlia transformava-se em ocasiões assim. Na cozinha, costumava alinhar os copos, talheres, mexia em todas as xícaras do armário, voltava a elas, corrigia a posição na qual se encontravam, apontava a alça de cada uma para o sul, não, para o norte, não, para o sul. Passava a mão nos móveis à procura de poeira. A voz perdia o encanto, saía em estalos para ditar ordens, ecoava nas paredes de cômodos onde ninguém ousava entrar.
Um metal ríspido igual a voz de Patrão, como se o imitasse.
Por decisão de Júlia, janelas e portas devem permanecer fechadas.
Não lhe escapava nem a própria sombra. Cochichava:
– Havia alguém na esquina. Cê não viu? Era uma pessoa estranha. Nunca tinha visto ela nessa rua. Vi um carro parado na porta de casa. Cê não viu? Certo. Isso é estranho. Não acha?
Aumentou o volume da voz, fê-la sair num eco agudo que contaminava o coração do vaqueiro. Júlia alinhava os copos, alinhava-os de novo.
O vinco severo entre as sobrancelhas lhe apagou o riso sem graça, e Júlia balançava uma das pernas em ritmo acelerado:
– Você sabe o que fez?
Ouviu-se – tucotuco, tucoturucotuco! – insistente.
O som, àquela hora, fez o vaqueiro saltar.
– Ouviu?
O tucorucotuco – que era insistente – cortou o silêncio. Júlia estancou. Sob a porta, um envelope azul repousava onde antes nada havia.
– Quem passou esse envelope por baixo da porta? disse o vaqueiro.
Um dos espelhos no corredor entre um cômodo e outro expôs de relance a jovem face do vaqueiro na qual se destacava uma cicatriz profunda. O espelho não o perdoou: o reflexo ampliou a cicatriz que lhe sulcava a testa. A cicatriz lhe trouxe o esterco, o mugido abafado no curral. Não teve tempo de ver o casco da Leiteira rasgar o ar, seguido do estalo do osso, a fita do sangue quente sobre os olhos, o nariz e a boca.
Súbita voltou-lhe a manhã na fazenda onde o sol mal tocava o serrote. A escuridão no curral é misturada ao mugir de vacas apartadas de bezerros. E zupt!
A partir do coice da Leiteira, o pai apagou o nome dele; passou a chamá-lo vaqueiro, como fazia com os trabalhadores alugados.
Na fazenda e na rua, ele exigia de todos que só o chamasse Patrão.
Desde a juventude, o vaqueiro evitava espelhos. Como se fosse possível fugir de uma cicatriz.
– Vai, vaqueiro! a voz do pai chicoteava, rápida como uma marcha. Tira o leite da maldita, vagabundo!
A voz enérgica. Patrão de olhos vermelhos e sorriso cruel. Possuía o ritmo vivo que brilhava na cor de seus olhos:
– Vai, vaqueiro, vai buscar o leite da Leiteira. Vai, vai, vai, preguiçoso!
A simples presença dele fazia o vaqueiro ver a vida esvair-se em sangue.
– A chave de latão, vaqueiro. Não, não perca, vaqueiro, a chave de latão. Vai, vai tirar todo o leite da maldita Leiteira. Vai, vai, vagabundo! disse em ritmo acelerado. Vai! desapareceu Patrão em uma nuvem de fumo. E voltou a calma ao tempo, mas a ameaça permaneceu.
Nas noites de lua, o vaqueiro ouvia o som da Leiteira bramir. Em sua alma voavam luas cheias, pássaros lutavam na lâmina dos rios e os peixes pulavam.
– Os gritos de Patrão eram espinhos.
– Viver doía demais! disse-lhe Júlia.
Patrão explodia:
– Seu filho da...!”
Os olhos de Júlia entre arames farpados nas estacas:
– Vá! convencia-o. Não o contrarie.
O ritmo enérgico e marcante nas teclas da máquina de escrever acordava a Avenida Nossa Senhora de Fátima. Por um instante, Ele parou de metralhar as teclas, que se mantiveram quentes.
Retomava-se ao ritmo acelerado com pausas dramáticas. Os perdigotos, as células epiteliais das pontas dos dedos giravam na batida forte sobre as teclas – teteco, telecoteco e teteco! O velho e alucinado ritmo.
“A casa velha já foi nova!” disse Ele, e confirmou ao olhar de novo aquele quadro.
O notebook ocupava o canto da poeira. Uma aranha tecia, pacientemente, a vida sobre a máquina, como se pudesse interrompê-la de alcançar outra etapa nessa revolução industrial.
Noutro canto do escritório, o computador pessoal cochilava. E não podia sentir movimentos de qualquer natureza: acordava cheio de coragem. Nele não lhe faltavam letras nas palavras, tampouco elas eram substituídas de maneira agressiva aos rigores da língua.
“Falar nunca é igual (tetecotecoteteco, teleco, teteco!) a escrever a coisa assim. Cada coisa possui a sua coisa entre as coisas. E observasse o caso da vírgula. Essa coisa não se enxere quando o caso é entre sujeito e predicado. Mas literatura não age entre fios de arames farpados.”
As teclas adaptaram-se aos dedos.
“A fazenda velha já foi de animações e festas de vaquejada cheia de gado e gente de berrante.”
Despejava-se a trovoada.
“Desconfio que essa chuva atravesse essa noite de sábado. Eu desconfio também que esse imóvel não exista mais senão nesse quadro na parede.”
Um raio ilumina a jaqueira. Fá-la dela uma árvore natalina com as mangas acesas, e brilham as folhas.
“Mal o Natal terminou e já ouço o frevo nas ruas. Não leio mais jornais. A leitura nunca é a mesma leitura. Cada leitura tem cadência própria, método e febre. Mas não me deixaram as imagens banais que se misturaram às reportagens sobre o fim das livrarias de rua.”
Mais raios.
“Hoje, mais cedo, estive no velório de Jactância.”
Pôs fogo no cachimbo.
“Jactância morreu. Foi alvejado pelo tempo. Uma carga. E fui amigo dele desde a juventude. Esmagaram Jactância. Nossa cidade não lhe decepcionou, velho amigo; prestou-lhe as homenagens devidas. E você que falava do fim do trabalho remunerado, do eterno medo de viver, dizia que ninguém sonhava mais com nenhum tipo de compromisso e por isso não queria ter filhos. Quem pensava em filhos, Jactância, quem pensava?”
Por pouco, um raio não atravessou a janela do escritório.
“Há trinta anos... Por que não esperou pra completar 95 anos, Jactância? Eu cheguei aqui. Naquela época, Jactância, mais conhecido por Pancombanha, um amigo verdadeiro, não quis ficar e testemunhar o amanhã. Como a vaidade o afetou, meu irmão! chorava a irmã consolada no velório por frases sem vírgulas de que a morte não existe. Vê-lo assim coberto por rosas... A vida era só isso? Tava indo sem pontuação. Vai, querido irmão, com a ortografia em pandarecos. Lutou de facão e foi-se.”
Telecoteco, teteco!
O vaqueiro arrancou dos seus conflitos mais profundos:
– O escambio acabou!
– Não! protestou.
– Você era mesmo sobrinha de Patrão? e o silêncio foi a resposta de Júlia.
– Por quê?
– A matéria escura – você não sabia? – é invisível. Ela não emite ou absorve luz, nem reflete. Mas a presença se encontra na influência gravitacional. Ela mantém galáxias juntas. É ela quem impede que tudo se despedace.
– Tudo gira tão rápido, Júlia.
Melodiosa:
– Estrofe, versos e rima
A poesia é hera viva
São folhas em emoção.
Poesia na beleza
Rima, estrofe e versos
Não há rixa nem tristezas.
A matéria escura estava ali. E a invisibilidade não impedia que o vaqueiro sentisse a sua maciez, o cheiro de lavanda em seu vestido, as cores nas flores em seu cabelo.
Mas, por um instante, a voz metálica de Patrão perfurou tímpanos. O fio de aço derretido parecia lhe dividir a cabeça. E o vaqueiro cerrou os punhos com uma força que desconhecia tê-la; por pouco, as unhas não rasgaram a carne.
Prendeu a respiração. O suor gelado lhe desceu pelas têmporas. E meteu as mãos nos bolsos, que tocaram no metal frio do revólver e nos cilíndricos projéteis.
– Nunca mais Patrão faz o que fez! disse o vaqueiro. Puxou, rapidamente, uma mão do bolso e a levou à boca, roeu-lhe a fina camada de pele na base das unhas até sangrar. Voltou a mão ao bolso com os projéteis cilíndrico-ogivais.
Telecoteco!
Na mesa de canela forrada com um plástico transparente, a sua máquina de escrever disputava espaço com pilhas e pilhas de livros, revistas e jornais que deixaram de ser impressos há muito tempo. Quem lê publicações físicas hoje? Ele lê. Mesmo com 95 anos de histórias, Ele lê.
Teleco, teco, teco, teco, teco, telecoteco!
O tempo tinha um cheiro ocre. “Onde colher imaginação?” no escritório de noite profunda, Ele cheirou o tempo. A chuva, que havia amainado, era terrosa, quente e mineral.
Afastou os dedos das teclas. Ergueu os braços. O estalo dos dedos feriu o silêncio do escritório onde aranhas pernudas atravessavam as páginas recém-escritas.
Buscava Ele espaço na mesa à intencionalidade no arco da história, ao texto, que o considerava bambo das pernas, ao conflito central, ao intertexto, a forma, personagens e fluxo de consciência, originalidade e estilo. O mapa mental exigia uma xícara de café. Mais fumo no cachimbo.
Patrão caminhava pelos campos à procura de esconderijo:
“Se comprar ações, não vão me dar o lucro necessário!” repetia. “Se forem lucrativas, não ganharei o que mereço!” parava de escrever. “Se ganhar, perco.”
Fugia do compromisso com os fatos. Patrão, que morreria em breve, mas não sabia, andava cercado por ideias de vingança. Semeava por toda a fazenda desinformação. A chave de latão abria a porta. Sozinho, ele empilhou caixas; a fazenda viu Patrão levá-las. Guardava dinheiro, não dormia, aplicação financeira corria feito um gráfico de investimentos sempre que fechava as pálpebras. Era o primeiro a acordar e se levantava antes de ouvir um mugido. Preencheu as suas caixas com cadernos, anotações e desenhos.
– Um depósito? perguntou o vaqueiro.
Júlia confirmou:
– Dormir era perder dinheiro.
Anoitecia, Patrão acordado. Meia-noite, Patrão acordado. Aurora, Patrão acordado. Meio-dia, Patrão acordado.
– Dilemas morais não lhe apavoram! disse Júlia ao vaqueiro. Ouvi muitas vezes Patrão falar sozinho. Planejava desfazer-se da fazenda, investir nas ações da Rede Penduricalhos. Não se esqueça, Júlia, ele dizia, a chave de latão abria a porta onde as caixas estavam empilhadas. Não, não deixasse ninguém saber. No depósito, Júlia, dizia ele, havia coisas escondidas, coisas que não podiam e deviam ser lidas.
Na fazenda, os passos dele tinham o poder de estremecer a terra. Com a voz de impacto de pedras, gritou:
– Traga água, Júlia!
Júlia abriu a cristaleira e procurou o copo mais limpo. Qualquer poeira nas bordas, Patrão arremessava-o na parede.
– E eu falei isso, Júlia, foi! chegou o nome dela à cozinha quão o ribombar de pedras. Júlia perdeu a mão. Não sabia mais o que fazia. Diante dela, o molho fervente secou.
Júlia disse ao vaqueiro:
– Leia primeiro este caderno de capa azul.
O vaqueiro hesitou.
– Patrão foi dos grãos ao ouro, ela disse, pulou ao dinheiro, jogou-se aos investimentos e deles às dívidas.
As palavras de Júlia copiaram e colaram o que estava no envelope azul. – A confiança em Júlia, disse, deixava uma pulga atrás da orelha.
– Cê precisa decidir o que fazer.
O vaqueiro fechou o primeiro caderno com um estalo seco. Mãos tremiam contra a capa. Júlia mordia os lábios.
Ele encarou Júlia, o peito subia, descia em curtos espasmos.
– Que cê quer que eu faça! a garganta arranhava a força das palavras.
Júlia inclinou a cabeça. Cantos da boca caíram em arco:
– A verdade é um mistério.
A zona do silêncio devolveu a palavra ao vaqueiro:
– Patrão sempre foi um ressentido.
– Era um odioso, isso sim.
– Chamava todo o mundo de ladrão.
– Ladrão e mentiroso.
– Mentiroso e safado.
– Safado e traidor.
– Traidor e covarde.
– Covarde e bandido.
– Patrão não confiava em ninguém. Li tudo em seus cadernos. O peso da verdade, vaqueiro, se encontra hoje em suas mãos.
O vaqueiro desviou o olhar para as caixas empilhadas:
– Quero saber se esse mistério vale a pena ser lido até o fim.
Conforme as páginas passavam nas mãos do vaqueiro, sob o olhar de Júlia, fragmentos lhe saltavam: Patrão debruçado sobre plantas técnicas sob a luz tênue. O brilho metálico de um projeto que nunca deveria ter existido.
As imagens nas mãos do vaqueiro viraram um borrão. O cheiro de papéis queimados. A vida inteira, até ali, dissolvia-se na fumaça densa e escura.
O vaqueiro recuou e joelhos fraquejaram. O chão cedeu-lhe. Júlia mordeu os lábios a ponto de feri-los:
– Não...! o sussurro mal escapou.
Júlia firmou a mão no ombro dele.
– É o que é. Agora, escolhe: volta ao açude e finge que ninguém morreu, distancia-se do defunto, ou... Você quem sabe!
Ele engoliu, foi como se sentisse o gosto amargo da bile.
As paredes do depósito das caixas pareciam oprimi-los. Uma voz áspera, vinda de algum lugar profundo, ecoou: “Só a verdade é respirável, meu filho!”
O vaqueiro, curvado sobre os cadernos, corrigiu a postura. O tremor nas mãos cessou, substituído por um aperto firme na borda do caderno azul:
– Quero a verdade! disse como se fosse um alívio. E um estranho frescor, qual brisa de madrugada após uma noite de febre, percorreu a sua espinha. Ele ainda estava no abismo, mas agora os seus olhos pareciam abertos.
Júlia deu um passo à frente, invadindo o espaço dele.
– O que acontece agora? perguntou, a voz firme quão uma pedra da flor de chuva.
– E agora? Agora cê decide se usa o fogo pra iluminar o caminho da roça ou se destrói as farpas dos arames. Porque, filho, o santo guerreiro não merece viver na insegurança entre os ovos do dragão da maldade.
Era como se o vaqueiro voltasse à incerta época em Alhures-Sem-Água-E-Sem-Lua, um lugar após Olho D’Água dos Lírios, onde a vida e os dias sempre foram amontoados em travesseiros.
Ela fabulava sentir-se a própria Nefertari, pois era noite de São João. Júlia soltou as lanternas de papel que incendiaram à noite; havia colhido milho verde, quebrado as espigas, rasgado a palha à unha.
A vida do vaqueiro viajou na amálgama de Júlia.
O hálito quente de Júlia no rosto gelado do vaqueiro.
Ela deslizou a mão pelo peito dele, onde o coração martelava.
– A verdade... Como usá-la? Meta a espora pra mudar o trajeto do gado, ou pode soltar as rédeas e deixar a poeira cobrir tudo, como sempre.
Ele desviou o olhar para o horizonte.
Os dedos calejados do vaqueiro apertaram o chapéu contra a coxa até os nós dos dedos ficarem roxos.
Lá fora, um galho seco pareceu estalar. Ele saltou. A mão instintivamente procurou apoio na coronha do revólver, no bolso da calça.
– Que diabos!
– Escute.
– Hã?
– Escutou?
– Quê!
– Viu? Ali, naquela árvore. Uma sombra que vai apagar os seus passos...! sussurrou. Os olhos de Júlia ficaram fixos na escuridão entre as árvores. Tem gente que prefere o cemitério.
Após longa pausa. Os olhos do vaqueiro buscavam as causas da sombra, e não entendia o que queria dizer “amor fati” escrito na cabeça da chave de latão.
– Parece que a sombra parou.
A voz de Júlia foi como se corresse um calafrio entre o corpo do vaqueiro e o dela. Ele recuou um passo, encarou-a, com a certeza de ter visto em suas mãos um Olho de Boi igualzinho àquele encontrado dentro do envelope azul.
Dentro do escritório ouvia-se a chuva martelar o telhado enquanto o tempo se arrastava entre as paredes grossas. E, diante do janelão, Ele encarava mais uma folha no cilindro da máquina.
Décadas antes, no jovem escritório do avô, repleto de móveis pesados e livros raros, a página do interior – alimentada pelos correspondentes do Jornal de Alagoas – esperava receber a próxima notícia sua. Os seus dedos ainda não eram ágeis; cada toque do indicador representava a viagem à eternidade (letras espalhadas não correspondiam à ordem alfabética).
“Estas paredes respiram notícias...!” murmurou para o vazio.
A chuva insistia enquanto o ritmo das teclas transmudou o amanhecer.
– Quem mandou?
– Mandou o quê?
– O envelope azul.
Júlia não lhe respondeu.
– Foi você?
A MATÉRIA ESCURA
ContosMarcello Ricardo Almeida 08/02/2026 - 21h 20min
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