Cada vez que Cleobulina dormia, ela sonhava com a mesma personagem. E acabou por se acostumar com os sonhos. Criou na alma um tipo de vício. Não podia passar sem o sono e sem o sonho.
Quem na cidade desconhecia a marcha-rancho durante o Carnaval? Era assim, pois, que os festejos iniciavam à folia:
A sobrevivência se arrastava dia a dia
E no balanço o pote d’água na cabeça
Cantava a força do Carnaval a alegria
Não perdesse o ritmo e a ele obedeça
E pernas nas ladeiras ao Panema iam
Falta água na cidade não se esqueça
Na rua só os pingos do pote desistiam.
As pernas bambas de tanto Carnaval. Cleobulina interrompera voluntariamente a sua folia.
Acomodou-se Cleobulina sob a sombra de uma goiabeira de amarelos e explosivos frutos que perfumavam à tarde na rua de terra escura e casas espaçosas. Apesar da doce brisa que lhe chegava do mar de ondas serenas e frequentes no azul-piscina que cintilavam os reflexos do sol de ouro de Maceió, o mormaço quase a impedia de respirar.
A embriaguez do Carnaval transportou as lembranças de Cleobulina à época na qual alugou a distiorada casa da viúva Dodona, que mora em Cruz das Almas. A casa que quase a matou. À época, pelo preço do aluguel e por ficar próxima à Feira do Passarinho, era uma opção indispensável.
Cleobulina chegou à casa alugada a viúva Dodona. É bom estar em casa de novo. Não há romaria melhor. Nada se compara a nossa casa, onde a felicidade nos espera na calçada. Ficar longe de casa é ruim. Nada funciona por mais que reluza ainda assim não é ouro, mas pérola em focinho de porco. Em casa, o som do rádio toca e nos espera como a luz acende a vontade de atrair libélulas. Em casa está a paz verdadeira a nos esperar em volta à mesa, às vezes sentada no sofá. No tempo do paraíso de Adão e Eva, a natureza no quadro e havia tanta liberdade! disse Cleobulina.
O pai de D. Aurora, cabisbaixo, acendia um cigarro noutro cigarro, falava sozinho de seu tempo nas ruas de Paris, nas universidades londrinas; hoje, ao lado do rádio, preso a uma cadeira de rodas. Não largava aquele rádio no móvel pesado de livros em francês onde ouvia os fatos e fados de além-mar.
Você atravessou essa vida sem graça, disse o pai de D. Aurora, juntou as suas fichas e tampas de garrafas e, uma noite, na calçada, jogou tudo em um mesmo número. Perdeu. Cobriu-se de asas de cupim e bateu, depois, as mãos espalmadas nas paredes do banheiro em casa, quis ser Ícaro, talvez. Sem asas? Não se esqueça dos avisos de Dédalo.
Quem era Ícaro? disse Cleobulina. Talvez um de seus filhos que ainda morava fora. E quem era Dédalo? Talvez outro filho.
Velho que se aproximou, disse o pai de D. Aurora, demais do velho sol. Nada melhor nessa vida se comparado ao sol, manhã cedo, quando as estrelas sonolentas, uma a uma, se vão nesse instante mágico em que os mercados se abrem ao comércio nas bancas de laranjas, maçãs, limões.
Cleobulina parava de engomar, de passar o ferro à brasa, e ficava presa às palavras do pai de D. Aurora, que falava de mercados, de manhãs, de estrelas, como se fosse poeta, falava de pinhas que conversam animadas com outras pinhas, que falava que viu a mesma manhã caminhar, subir ladeiras, andar no plano de Le Corbusier, descer ao rio, olhar-se.
O rádio falava o dia todo. O dia todo o pai de D. Aurora ouvia o rádio falar.
Quando se satisfaz se é feliz, disse o pai de D. Aurora, a felicidade em toda parte é o que se diz. Esta verdadeira arte. A felicidade plena. Exceções infelizes existem daquelas capengas. A felicidade sempre pede bis. É defeso ser infeliz ou apenas momentos felizes.
O rádio dia o todo. Ele ouvia o rádio falar.
A infelicidade é uma mentira muito bem divulgada, que roga ser desmentida. E essa lua no céu se fosse pão! disse o pai de D. Aurora. A família calada o dia todo sem ter o que comer.
Dia e noite ao lado do rádio.
Lua calada no céu, marcada! disse o pai de D. Aurora. Quem pegou a faca e a fatiou e lhe arrastou à mesa?
Ouvia rádio madrugada afora. O pai de D. Aurora cantarolava, tamborilava os longos dedos na cadeira de rodas. Unhas grandes e pontiagudas no velho lhe davam ares tétricos e misteriosos.
Anchieta, feche as portas à catequese!
E Lobato abra as escolas à criatividade.
Ritmo e sonoridade. Ei-lo Castro Alves.
Quantos náufragos na escola extasiados
Com as fases do luar no sertão de cores
Que promovem o sol entre leves nuvens?
O homem das cavernas, disse o pai de D. Aurora ao amanhecer quando trocava dia por noite e não pedia troco, é o homem nas espumas flutuantes e nas relações sociais entre o antigo e o novo.
Agora é manhã de sol. Cleobulina em casa.
O sapateiro Embromado, um dos primeiros amigos de Cleobulina em Maceió, apesar dela repetir não haver amigos em guerra de sexos, foi quem a ajudou a alugar a Distiorada que quase a matou. Foi Embromado quem ajudou Cleobulina abrir uma banca de verduras, pequena ainda, na Feira do Passarinho.
As marchinhas distanciavam-se. Cleobulina foi arrastada pelas lembranças. Cético, o tal de recados, o menino faz-tudo, que se afeiçoou dele e vivia na Distiorada, demonstrava ter mãos de fumaça, pés velozes, olhar febril e língua de vendedor de ilusões.
Cético tornou-se ator profissional de teatro e andava na lapa do mundo, nas encostas rochosas de todos os continentes. Cético interpretava Ájax, no Rio; em São Paulo, Cético foi Édipo. Os jornais alagoanos publicavam que Cético foi Falstaff, num teatro em Liverpool; sonhava em ser Hamlet em um teatro londrino.
Cleobulina dividia com Cético o preço da farinha, do feijão, do ovo. Viviam de guardar moedas, confiantes na água de pote; sobreviviam mês a mês com dificuldade.
Alguns dias antes do Carnaval, o sapateiro Embromado chegou à casa de Cleobulina e lhe perguntou se o que ele viu, viu ou foi miragem. A feirante Cleobulina puxou o sapateiro com força; ele foi arrastado pelos dedos fortes nas mãos dela.
A porta de madeira foi fechada às pressas, não sem antes Cleobulina olhar todos os lados da rua. Vendo-a vazia, ela o trouxe de supetão à sala de visitas e cochichou.
Quê! ele não a entendeu.
Fale baixo! ela o advertiu.
O deputado estava aqui?
E...s...t...ava! hesitou Cleobulina ao falar com o sapateiro Embromado.
E foi levado?
Psiu! zangou-se. Foi.
Vi.
A p...o...l...í...cia! a palavra quase não deixou a boca de Cleobulina, que pareciam as palavras da boca de quem sofria um ataque cardíaco.
Quem?
A p...o...lí...cia de Var...gas veio e levou o deputado a safanões e falas grossas.
Meu Deus!
Só Deus sabe o que acontecerá ao deputado.
Foi levado ao Recife?
Não sei! disse. Ninguém sabe.
Ouvi dizer que era levado. Lá, jogavam os presos num porão de navio e navegavam direto ao Rio.
A rua possuía o silêncio de cemitério abandonado. No céu, urubus circulavam, e era como se eles caçassem alguma carcaça. Nenhum sinal de nuvem; e não havia firmamento mais azul, mais brilhante, exceto pelas aves à procura de carne em putrefação.
Embromado deixou a casa alugada por Cleobulina. Olhou os lados. Viu que não viu ninguém à esquerda, à direita. Desceu a calçada alta. Avançou rua abaixo. E tropeçou no compadre Autoverdade, que o surpreendera com:
Oi, compadre! riu. Como vão as coisas do lado de lá?
Bem, compadre! disse. E as coisas do lado de cá?
Autoverdade andava sumido. Vivia de canto em canto, sem esquentar canto com os truques que fazia. Expulso de circos onde trabalhou com mágica, mantinha o ganha-pão no jogo da tampa de garrafa sob as três cabaças, na Feira do Passarinho, até outro dia. Passou a ganhar a vida com o jogo que associava 25 animais; os jogadores faziam apostas, faziam combinações, faziam escolhas de animais.
Foi visitar a verdureira Cleobulina?
Como soube?
Eu vi, viu! disse. Vi sair de lá o deputado.
Qual deputado!
Aquele do Partido.
Não vi sair deputado nenhum, compadre Autoverdade.
Nãããão, compadre? gargalhou. A polícia de Vargas levou o deputado. Eu vi, viu!
Foi?
E não foi, compadre!
Não sabia! disse. E levou, foi?
Foi receber uma coisa, no Rio.
Uma coisa?! arregalou-se.
Se não uma coisa, compadre, foi outra! passou um bloco no ritmo de marcha-rancho. E os compadres foram arrastados pelos tambores e pelos metais.
O Carnaval é verdadeiro caçador de imagens congeladas em formato de fotografias, prisioneiro de almas capturadas pelas lentes do instante surpreendido. Um álbum sepultado numa gaveta, umas imagens perdidas na memória, as cores das lembranças borradas pelo tempo, o cheiro dos lugares esquecidos. Todo carnavalesco é um acumulador de saudades.
Outra vez Carnaval. Cleobulina dançava louca no ar. Na orla marítima, o sol de ouro sobre Maceió tremulava sob os metais e os tambores. Os passos de carnavalescos no ritmo da folia.
Ontem, ninguém nasceu na Ilha dos Ciclopes; ninguém nasceu e viveu a vida inteira na mesma rua, a ouvir o cantar dos mesmos sapos e o piar das velhas corujas. Vou nadar, canta e rodopia Cleobulina, dionisíaca e enlouquecida, com amigas que trabalham na Feira do Passarinho. Vou cantar com a baleia cachalote, vou andar descalça na areia da praia, na cozinha colorida e aromática, nos corredores de formigas da casa comprida, em seus quartos, em seus banheiros, em seus janelões rasgados sobre o mar.
No Carnaval, Maceió perde as ruas escuras e oculta espectros estranhos desses da meia-noite cujos cães os acompanham aos uivos. No mar de Maceió não há fantasmas, no Carnaval, nem garrafas sem rumo com mensagens de náufragos levadas pelas correntes marinhas que não aprisionam ninguém.
Sobrevoavam o Carnaval na praia albatrozes, fragatas, gaivotas, trinta-vinténs. Num lugarejo com duas ruas de casas sem luz e sem água; em uma delas, amantes cheiram-se e se tocam com gemidos demorados à procura de feromônios. Da janela era vista uma rua, nela passa o asno carregado de caçuás que leva o Carnaval. Como mágica a vida naquele lugar.
A morte próxima roda outro dia, lê-se nos jornais. E o filho do velho Asdrúbal olhou o dia, e o olhou demoradamente nuns rolos de cordas expostas no armazém. E morreu sem saber aonde ia o filho do velho Asdrúbal; sem saber sobre o outro lado, e sem saber se há o outro lado, sem saber o que os outros pensam a seu respeito. Na capa dos jornais se lê a folia dos números primos.
Na varanda do bangalô, o coronel e empresário Eufemismo lê o jornal. Temistocleia recebe as amigas e as embriaga com as últimas novidades trazidas do velho continente.
Era Carnaval. Cleobulina dançava louca no ar. Portas fechadas, abertas estavam as páginas nessas desventuras dos versos livres ou a cachaça de fazer versos ou ambos os ritmos ou nenhum dos dois. Os foliões desenhavam Maceió nos passos. E o ritmo do bloco no qual dançava louca Cleobulina passou diante do bangalô do cunhado Eufemismo e da irmã Temistocleia sem identificá-los. Asioteia, filha de Temistocleia, uniu-se ao bloco.
O ritmo do bloco de Cleobulina é o que há de infindável. Ei-la em sua poesia. A foliã da palavra dita.
Na Rua das Quituteiras, Cleobulina conheceu o guarda-livros Paci. Dançaram juntos, embriagaram-se de marcha-rancho. O seu compasso era binário, lento, cadenciado.
A dolência tomou a Rua das Quituteiras, os temas poéticos melódicos. E, assim, a marcha-rancho desenhou a cidade de Maçayó em telas abstratas e também geométricos.
Descartes ensina ser cartesiano. O espaço do Carnaval é o espaço que delimitam os foliões na odisseia da alegria. Odisseu e Homero no mesmo passo, após Peloponeso e a Guerra de Troia.
Volta Ulisses à Ítaca, aos braços de Penélope. E o espera, não mais Maceió, e, sim, Maçayó, Maçai-o-k, o tapume de alagadiço. A beleza das águas sob o sol de ouro sobre as lagoas. Dança e canta Cleobulina o seu desvario dionisíaco.
Se há de fazer, faça, foi o que disse o guarda-livros Paci, que escriturava e protegia com a própria vida os registros mercantis de seus clientes em Maceió. Faça aqui onde vivo. O tempo muda o lugar. A cidade Maceió não é cidade, é cartão-postal.
Essa é a hora sagrada na qual o mar recebe os jangadeiros. No mar as ondas os carregam no balançar de Iemanjá.
E os jangadeiros rápidos navegam e atravessam santuários de peixes. E ganham o espaço no firmamento profundo, o espaço azul na orla de coqueiros.
O dia está preso às pedras, estas pedras sobre o mar. Neste mar perene de pedras, onde o dia se repete desde sempre como sempre o dia é o repetir.
Esse repetir que aprisiona o dia. Repetição quase imperceptível de acordar, sair, voltar, dormir quão dormir pede que se repita esse repetir sem nunca desiste.
E a cidade inumana habitada por humanos. Cidade de concreto e aço e vidro, asfalto cidade. Cinza sem vozes nem risos.
Gritos na cidade sem janelas nem porta tampouco gente. E tudo passa de repente e apressadamente.
Tudo é vida distante e demorada.
Tudo é impaciente feito a língua de Cleobulina na língua do guarda-livros. E tudo é frenético e estressado. Um beijo entre a feirante e o guarda-livros como se não houvesse gente nas ruas.
Observe o trabalhador no mercado preocupado com o pão atrasado na boca faminta de beijos. O corpo faminto de braços. Nenhum afeto nas ruas de barro. As suas mãos de plástico e ferro são as últimas a fecharem as portas, as últimas a expulsarem devoradoras baratas depois que escurece a lua e tudo é silêncio no mercado. Os olhos vazios olham-se de soslaio e as cadeiras e as mesas descansam de seu trabalho.
Cleobulina catava feijão, na casa de D. Aurora onde prestava serviço desde tantos e perdidos carnavais passados. Na cozinha daquela época, ao lado da cadeira, sentada ao chão, Cleobulina catava feijão e cantava numa lembrança antiga e guardada.
Catava feijão e soluçava com saudades de Santana. Como quem quisesse ensinar à D. Aurora a cozer. Catava feijão e cantava uma canção que aprendeu com D. Xântipe, a sua mãe, que morreu queimada viva. A mãe e o pai morreram queimados vivos enquanto dormiam.
Em Santana, os blocos cantam nas ruas: Não ama Santana quem não tem coração à poesia ou despreza ouvir o seu poema. Santana, ô Santana, a gente não lhe esquece; é nossa a sua história. Santana que valoriza a lua no sertão, algodão-doce nas ruas, namoro de mãos dadas e no parque a diversão. Não ama Santana quem não tem coração à poesia ou despreza ouvir o seu poema.
Na Rua das Lavadeiras, em Santana, outro bloco passava:
Como pode alguém beber tanto perfume, em cachoeira, deixar o corpo mole e tonto e não se embriagar? Assim cantavam as lavadeiras nas ruas paralelas ao Panema.
Maceió de ruas de casas, vidas descascadas, casas mouriscas de paredes grossas; janelões, postigos nas cores das matas, dos pássaros, das frutas, das flores. Maceió das ruas de pedras lascadas, lambidas de sol.
Santana de sol-pitomba, sóis-crustáceos, sol de muitas cores, de muitos sentidos.
Lua sensual e triste, lânguida em seu vaivém nos lençóis de nuvens.
Ruas. Ruas escuras de quebra-potes com brandões em pontos distantes. Diz tanto. Ruas. Ruas de passarinhos engaiolados que ornaram paredes, paredes sem pele das ruas descalças, das ruas furadas e doentes. Praças de cactos, mandacarus-reis, de matuto com chapéu atolado às orelhas e caveiras de boi das estradas ermas.
Na rua. Blocos de alegres cachaceiros. Foliões. Carnaval. Barulhentos becos. Ruas de crianças que correm; meninas pulam cordas.
E os cabras-cegas viajam a São Paulo.
Crianças paridas em noites enluaradas nas primaveras de setembros enluarentos. E em outubro têm mulas sem cabeça mortas nos acidentes geográficos do Panema, fogos-corredores apagados no Cachimbo Eterno; nos cemitérios, lobisomens, sacis e Iaras.
Lavadeiras batem panos e os seus estibugos são areentos no beiço do rio. Os dias são pedregosos. As cuias queimam velas de mamonas e vagam nas águas escuras do Panema à procura do corpo de outro náufrago.
As lavadeiras batem os seus desgostos. Forram lavadeiras as gramíneas de panos e insossos retalhos de vidas; e tangem urubus, e tangem tristezas.
Meninas morenas de sol. Meninos longe de escolas salobras, cavam cacimbas.
As águas no Panema contornam a cada dia a alegria das crianças que aprendem a nadar com a morte nos poços de pedra, no estreito, nas gargantas do rio, nas panelas, nas locas de pedras. As águas da cor da ferrugem contornam álveos, aluviões. Veja, agora, nas ruas caminham pés matutos em paletó de casimira, brim e usuras feito defuntos sepultados em caixões rústicos.
No céu de Santana não tem aviões nem discos-voadores. Só há o sol que quara as roupas na clave de sol. Roupas nas cores das matas, dos pássaros, das frutas, das flores.
Ao lado do riacho tributário do Panema o padre Velho envelhece. Reza o credo em seu pançudo missal simbolista, sem sua canonisa.
Em uma das ladeiras que leva ao rio, um homem grosso que nem parede de igreja abençoa o sábado de feira com o seu “Deus abençoe a poesia e os poetas!”. O padre Velho sonha que abençoa ruas tomadas de crimes, tomadas de toldas nas cores das matas, dos pássaros, das frutas, das flores.
Cleobulina catava feijão na luxuosa residência de D. Aurora.
Tem roupa suja, D. Aurora?
Tem.
Tem panela suja, D. Aurora?
Tem.
Tem sobra de comida, D. Aurora?
Não.
Se não a encontrasse no passado, fosse procurá-la no futuro. Roliça Cleobulina que não tinha tempo de viver o presente.
Braços rotundos, Cleobulina rogadora de pragas, recém-saída da Rua da Lama. E se especializava em mandingas de Ganda, de Goa, na feira dos bichos, na feira das frutas, na feira da carne.
Na feira do gado, aboios do passado. Na feira do passarinho, pio, psius! Na feira da farinha, a boca de Cleobulina cheia d’água cada vez que via farinha torrada.
À delegacia a polícia arrastava os bebos sob vara. Era reisado de mateus sem cara, sem endereço de casa.
Santana dos remoinhos e bêbada Santana de rapaduras, de quadrilhas juninas nos sonhos acordados de Cleobulina, na casa azul de janelas amarelas, tantos quartos cheios e outros vazios de ruídos, o quintal do tamanho do mundo e nenhum sorriso em D. Aurora.
Cleobulina trouxe da feira o pano colorido amarrado à cabeça. Pano das lojas, pano dos gritos das lojas de tecidos no centro de Maceió.
Na cabeça de Cleobulina não lhe abandonavam os gritos do último filho de D. Aurora. não lhe saía nunca da cabeça amarrada em um pano os rogos do pai de D. Aurora, que ia a lugar nenhum e retornava com grandes conquistas em sua cadeira de rodas.
A queda de Cleobulina por poetas era caso de novela. Cleobulina apaixonada pelos poetas, pelas poetas alagoanas.
A cabeça de Cleobulina cheia de panos das ladeiras compridas, intermináveis, das ruas de pedras em Santana sob os urros dos carroceiros nas ruas de cães, gatos, dos bois, vacas, cavalos e burros, portas, casas, armarinhos que sonhavam com a bondade literária do velho Graça e acordavam num paraíso a caminho de toldas, buchada, utensílios do útero de cabras. Cleobulina com a boca com gosto de coalhada, tapiocas e cajus, mangas.
Lavava roupa, quarava, secava, engomava e passava num canto de quintal coberto de sol. Cleobulina viajava nas roupas sujas de D. Aurora, nas roupas lavadas e perfumadas de D. Aurora. Cleobulina no curtume, nas toldas de aromáticas comidas em Santana.
Olhe o céu, Cleobulina. Ela não via senão chapéus.
Na feira, nada de manga-d’água, manga-da-praia nos moinhos, remoinhos; manga-de-alpaca de Santana a Maçayó. D. Aurora reclamava ao pai que os burocratas não davam um prego numa barra de sabão, e o pai de D. Aurora fugia da filha em sua cadeira de rodas.
Por que só aprendeu a reclamar igual a tua mãe! disse o pai viúvo, que não largava o lenço branco no nariz e nos olhos.
Respeitasse a memória da mamãe, papai.
Só as lavadeiras trabalhavam! disse Cleobulina.
Quê! disse D. Aurora.
Nada não, disse Cleobulina, não senhora, não, dona patroa.
Só as lavadeiras batiam pano nas pedras do Panema. Só as lavadeiras voavam e cantavam cantos de trabalho no beiço do rio, disse Cleobulina ao filhinho de D. Aurora, que não deixava a saia de Cleobulina por nenhum dinheiro no mundo, disse Cleobulina a si mesma.
Só o sol compreendia as lavadeiras que desciam nas ladeiras. Elas encontravam-se com as águas do rio parado e em completo silêncio de peixe. Levavam roupas sujas, sabão caseiro. Em torno das lavadeiras corriam crianças, gritavam as mães, alvoroçados voavam papa-capins, coleirinhas, decadência, morte, brigas hereditárias. VENDE-SE, disse a placa tombada e sem verniz, só, açoitada ao vento.
Cores respiravam a natureza morta das mangas, dos cajus; nas paisagens de chuva: mendigos, casas medíocres fechadas de tédio, sem pintura, sem portas, sem janelas. Na ponta da rua, Dolores gritava o nome de Fabíola.
A rua em silêncio absoluto. Corria de uma casa sem telhado uma criança nua.
A vida era só um pequeno salto, cantavam as primas Dolores e Fabíola sem saberem que punctum saliens, na boca do padre no domingo, era um punhado de sal na língua antiga e as primas cantavam com as suas vozes de viola.
Subiam as ladeiras do Panema, Cleobulina, Dolores e Fabíola com fardos e fardos de roupas lavadas. Subiam as ladeiras de Santana num grito de pássaros. A melodia delas tomava as ruas:
Punctum saliens nas águas e pedras do Panema.
Punctum saliens, elas repetiam, punctum saliens.
Os tubos de coloridas tintas das feras no chão da oficina do artista em pleno leito do rio. Cleobulina passava, passava Dolores, que não sabia fazer outra coisa senão reclamar, passava a prima Fabíola com as suas pernas de barris, passava Rosa com as suas longas pernas, disse Cleobulina no quintal de D. Aurora.
Maceió era um cartão-postal aos olhos de Cleobulina. Nas marinhas pintadas de azul nas manhãs claras, as ondas não vinham abalar casarões falidos, tombados, tomados por repartições públicas.
As cores das palavras sem ponto de fuga. Repousavam no poema as cores do artista sob o sol alagoano, e ele pincelava, pincelava, não parava nunca de pincelar. E Cleobulina lavava, lavava, não terminava nunca de separar roupas sujas de roupas limpas.
Como sujavam roupas na casa de D. Aurora!
As cores quentes se aproximavam, as frias se distanciavam. Inventos de pigmentos noutras cores complementares.
Um pequeno salto, alegres cantavam as primas Dolores e Fabíola sem saberem elas que punctum saliens na boca do padre no domingo era um pequeno salto escrito. Logo caía da paleta fauvista tinta pela janela cromática, tinta que colorir o céu e coloria o sol, tinta a colorir a água no Panema e as pedras grandes, invisíveis, pequenas, pedras que sequer existiram, pedras que sobreviveram à última era glacial. Lavavam roupas de ganho Fabíola e Dolores e Cleobulina cobertas de tinta a óleo, de sombras, de luzes.
Unia-se a elas o cântico da lavadeira Lucrécia. E a rainha comia farinha, quando ia à rinha. O rei, marido da rainha, um ateu; expulso do fim da terra.
Assim, as cores na água do rio perduravam na pasta cromática mais escura, e cada vez mais escura, mais escura, mais escura ao som das partituras do menino Amadeus. E os espinhos na rosa de D. Rosa, que não saía da janela.
D. Rosa, no Beco de D. Amélia, ameaçavam aprisionar o tempo.
Como assim, D. Rosa? disse Cleobulina.
Acorrentá-lo feito fotografia! disse D. Rosa.
Desconhecia D. Rosa que o seu irmão Cronos, que ganhava a vida com fotografias, não a permitiria lhe furtar o seu ganha-pão. Cronos, que vivia como lambe-lambe de feira em feira, de festa em festa, não perdia casamento, batizado.
Adeus, amiga Lucrécia, disse Cleobulina, adeus amiga Fabíola, Dolores, adeus. D. Rosa, adeus, adeus, D. Amélia. Adeus ao sol de Santana. Lucrécia olhava o sol de Santana. Cadê os seus desenhos na escola? disse Cleobulina ao filhinho de D. Aurora.
Cleobulina queria vê-lo correr da escola até à casa de D. Aurora. Cleobulina pedia ao menino que lhe contasse as suas histórias. Cleobulina reclamava das sentenças cretinas. As bruxas mudaram o tempo nos cavalos presas às crinas, disse Cleobulina.
Antes fossem bruxas meras bonecas de pano. Os filhos de Lucrécia se distanciaram da mãe, distanciaram-se do pai. Distanciaram todos das águas turvas do velho Netuno.
Distanciaram-se os barcos na Lagoa Mundaú, distanciaram-se os berços da Lagoa Manguaba. O barco, o canto, o berço, a vela; sozinha no parco horizonte tremulava a triste tela nos olhos tristes de Lucrécia, nos olhos claros de Fabíola, nos olhos suados de D. Rosa e no sorriso de D. Amélia.
O berço em pedaços. Os ventos, os turbilhões arremessavam os vagalhões sobre o berço em pedaços. A fonte d’água secou? disse Cleobulina às amigas do coração. Apenas na perspectiva de súbitos desenhos de P. Ruiz, que desenhava Santana com riscos nas paredes usadas por telas, propagandas partidárias, recados, às palavrinhas, aos palavrões, aos desenhos censurados, às piadas de ocasião. Nas ruas de Santana se ouviam os sons de Amadeus, de Carlos Gomes, de Villa-Lobos. Nos olhos de Cleobulina, o berço, o barco a vela; sozinha no parco horizonte partiu o barco que tremulava à tela.
No Panema vazio da lavadeira Têmis entre panos de ganho e barras de sabão quais pensamentos compulsórios. Pululam nas pedras dos pés dos serrotes O Garoto de Chaplin. Gotejantes horas de carnívoro e maligno horário.
Antes que desabe o céu, disse o pai de D. Aurora ao lado do rádio, há sempre um verme que colabora com outros vermes. Os maus têm castigo igual muito em breve? ouvia as notícias que lhe chegavam do lado leste do Atlântico.
Cleobulina desamassava os fardos de roupas com o ferro à brasa. Ela acompanhava o noticiário que distraía o pai de D. Aurora. A criança corria e brincava de arremessar laranja na rua em outras crianças.
Os céus sempre tão vazios, e os infernos estão sempre tão lotados? disse o pai de D. Aurora ao lado do rádio. Estado institui outra vez o corsário; tudo vira comércio, comércio de interesses meramente mercenários.
E a lavadeira Têmis, presa aos olhos de Cleobulina, que não termina de trabalhar na casa de D. Aurora, bate, bate roupas nas pedras sob o sol do meio-dia.
Das tristezas quem culpado? disse o pai de D. Aurora ao lado do rádio.
Era Carnaval. Tudo era permitido ao Carnaval de Cleobulina. As pernas bambas de tanto Carnaval. Cleobulina interrompera voluntariamente a sua folia.
Não tem compromisso o surdo ao tocar assim! disse o folião anônimo.
Não, gritam agitados os tamborins, escola formal não é isso.
Corpos suado estudam os tambores um bocado, disseram foliões anônimos na Rua do Livramento. Educação é um pedaço de mim.
Passista não toca o chão no ritmo dos taróis. Dias de Carnaval. Transitória felicidade, ouviu Cleobulina nos versos da marcha-rancho.
No Sábado de Zé Pereira, esse ano, eu quero estar em Santana. O Carnaval essa semana começa na feira. Veja o Bloco de Beltrano, veja o Bloco de Fulano. Olá, bom dia, Cel. Dr. Cicrano, cumprimentavam os foliões nas ruas de Santana, olá, bom dia, Dr. Sicrano! No Carnaval reencontravam-se os amigos que não se viam há anos.
Fique atento ao recado
O mundo vai acabar-se
Xô e vá mentir no mato
Amanhã eu passarei lá.
Eu quero estar em Santana, a festa já começou. Na feira, ninguém segura e, agora, o Carnaval nas ruas escorre, e corre o caldo de cana, corre o mela-mela. Os blocos e as batucadas, o coração tique-taque. Ruas cheias em Santana.
O Bloco do Cel. Dr. Cicrano cantava a invenção de Platão. Iansã e Éolo libertaram os ventos na véspera do Carnaval. Oxum uniu-se à Afrodite.
Fique atento ao recado
O mundo vai acabar-se.
Baco e Dioniso bêbados no retorno da Guerra de Peloponeso, cantavam os foliões no Bloco do Cel. Dr. Cicrano. Eles bebemoravam a vitória em copos de vidro grosso.
Mela-mela nas ladeiras da cidade sexta-feira é Carnaval em Santana. Seguem febris o frevo e o maracatu e as bacantes reverenciam Baco aos romanos e na Grécia a Dioniso, no Bloco do Cel. Dr. Cicrano.
Hoje, estou feliz, canta o Bloco do Cel. Dr. Cicrano, e isto é verdade; encontro, aqui, o sol da liberdade; festejo a vida com a paz do amor, e enquanto brinco, eu vejo o bater das asas no beija-flor. Vi hoje cedo a feira em Santana. Ela me trouxe o aroma das ruas de comida que invade as casas pelos caibros, pelas janelas e portas abertas e telhas.
Acorda Santana a serra, que traz o sol, e não deixa morrer a água no Panema. Notas musicais têm fá e lá e si e dó que marcam o passo. Sal no joelho, Cel. Dr. Cicrano, e mexa o mocotó. Pimenta na panela. Salve o molho da vovó.
Não me leve à escola de caligrafia, Cel. Dr. Cicrano, permita que eu também escolha. Não me leve hoje à escola da cartilha de números inteiros, de números primos. Não cobre no caderno a letra cursiva, Dr. Sicrano, primo do Cel. Dr. Cicrano. Ensina esse poder: ler & escrever. Essa escola que se escolhe chamada letramento.
Os metais ensandecidos, súbitos, acordam a cidade no frevo do reencontro, e as caixas enchem as ruas, e os sopros enchem as praças, e os passos dos passistas acordam a passagem dos blocos em Santana. A cidade está em festa; há circo na cidade; as crianças se animam na Rua Tatu. Não, não nesta rua; está o tatu na Rua da Saudade. El Grã Circus Lágrimas. Agora a cidade se alegra com grandes feitos à noite; trapezistas e grã-mágicos; elefantes brancos; tudo de graça. Na estreia, as estrelas no espetáculo e palhaços fazem a festa.
Viva o Bloco do Cel. Dr. Cicrano! grita o povo.
Viva o Bloco do Dr. Sicrano! o povo responde.
Não perca por nada nesse mundo. Tudo é fantástico demais. Os elefantes brancos gigantes, impressionantes, bombásticos. A cidade está em festa há um circo na cidade. Vá; assegure o seu lugar. Aqui, tudo tem pressa.
E em Maceió a praia abissal. Sob as pedras flutuantes mora o mar. Cleobulina louca na dança de sua criação, nas ruas da capital alagoana. A fantasia de Cleobulina escurece o céu, incrédulo, de longe espia esse mar de pedras e sal; e, na terra de areia, as palmeiras balançam ao sopro do vento; o voo de Cleobulina, que brinca Carnaval, acompanha o azul balanço da Terça-Feira Gorda, amanhã Quarta-Feira de Cinzas.
Rosa, amiga de festa de Cleobulina, calada e distraída, acaso ela sabe que isso é o que chamamos vida? Talvez seja misteriosa a biografia dos animais. Vida desde o princípio, e as tragédias pessoais. Logo envelhece a dádiva em súbita, inesperada despedida; acaba-se a poesia que é a vida.
Paci conheceu Cleobulina ou foi Cleobulina que o conheceu. Já não importava mais. Conheceram-se no bloco Boca de Maceió.
Entre ambos vieram as conversas, os passos, os tropeços, os gracejos, os apertos, as mãos nos corpos suados, os abraços, os beijos, os risos, as gargalhadas, as caminhadas de mãos dadas, as sessões de cinema, as conversas no banco da praça, as celebrações, a igreja aos domingos de manhã, aos sábados à noite. Mais cinema. Mais conversas. Mais beijos, mais abraços, promessas honradas, contabilidade feita no escritório do guarda-livros Paci, conhecido e respeitado como o Rei do Método das Partidas Dobradas.
Veio um dia de sol e praia, outro e outro dia e, um dia, Cleobulina e o Rei do Método das Partidas Dobradas dividiram a mesma mesa, os mesmos desejos íntimos, dividiram o quarto, a mesma cama. Estavam casados.
O guarda-livros Paci disse à verdureira Cleobulina que gostava de palavras com vida. Cleobulina retribuiu-lhe com efusivas gargalhadas, que estremeceram o subsolo da cidade. Personagens de Santana preservavam essas gargalhadas.
Ambos de mãos dadas e risonhos na Praça D. Pedro II. O guarda-livros ocupava o ouvido de Cleobulina com segredos. Ela não continha novas gargalhadas.
Evitasse olho-gordo! disse.
O Rei do Método das Partidas Dobradas desnudava Cleobulina com o olhar. Ela era um vendaval que sacudia a Praça D. Pedro II.
Ontem, Cleobulina, eu era um cadáver!
Quê!
Uma fagulha que se desprendia do candeeiro, só, preso ao meu quarto.
Como poderia mentir tanto!
Hoje, Cleobulina, eu sou mágico e cheio de solfejos sempre que a vejo.
É?
E eu que pensei que fosse viver preso à escuridão no corpo de monstro sem amor.
Foi?
Ele falava como um hipocondríaco e o assunto lhe causava repugnância. Deixaram a Praça D. Pedro II, tomaram a Rua Democracia. Ela lhe falava sobre Santana e ouvia dele pormenores da história da Capitania de Pernambuco.
A boca dela batia na boca dele. A boca dele esbarrava com a boca de Cleobulina. E nesse bater de bocas, ambos se foram nas ruas estreitas de Maceió.
Nas horas vagas, Cleobulina, eu escrevia versos.
Nas horas vagas, Paci, eu lavava roupa de ganho.
Decretei guerra à solidão. E seus olhos, Cleobulina, são lanternas que me livram do escuro.
Onde essa terra vai parar?
Por quê?
Já observou o preço do sabão?
Uma mulher magra, que estava emoldurada na janela de uma casa alta na Praça D. Pedro II, viu através da moldura quando o casal se afastou da praça. Ela estava sentada e ele a convencia a ouvi-lo.
Os olhos da mulher magra acompanharam o casal desconhecido. Ele parecia amá-la muito. A praça estava solitária como sempre.
Ela quis estar lá em lugar da jovem sentada que olhava o jovem falar e fazer gestos com os braços. A mulher magra na janela foi surpreendida por lágrimas que não conseguia contê-las.
A mulher magra viu quando a mulher na praça sorriu. Levantou-se. O homem jovem de chapéu estendera a mão à mulher e foi correspondido.
Ela parecia ser a pessoa mais feliz de Maceió, disse a mulher magra espremida nas molduras da janela na casa alta. Era como se a mulher magra lesse os lábios de Cleobulina.
Como era bom experimentar esses momentos, disse a mulher magra antes de fechar a janela na casa alta, na Praça D. Pedro II. Os pés de Cleobulina e Paci se foram da praça.
Escureceu na janela da mulher magra. Amanheceu. A manhã trouxe batuque do retardatário carnavalesco que não se desgrudava da alegria. Na solitária Quarta-Feira de Cinzas:
Carnaval de rua ó! ô! ô!
Carnaval ó! ô! ô! de rua
No espaço a lua flutuou
A louca lua tum! ó! tum!
Batia o surdo na manhã
E lhe sentou o sol a pua
Carnaval ô! ó! ô! de rua
ô! ó! ô! de rua Carnaval
Só se foi mundo no som
Ó! Carnaval de rua ô! ô!
A folia assemelhava-se a uma flor carnívora que a todos tentava alcançar. E alguns eram atingidos por sua natureza, sugados pela magia.
A personagem com quem Cleobulina dormia e sonhava era ela mesma. E Cleobulina aprendeu a ver no sonho o que não conseguia enxergar na vigília.
Cleobulina, outra vez e outra vez, levantava-se cedo e cedo enfrentava outro fardo de roupas sujas numa casa alheia. Isto foi assim durante anos até, de maneira circunstancial, conseguir estabelecer-se na Feira do Passarinho.
A FOLIA DOS NÚMEROS PRIMOS ESTÁ EM TODOS OS JORNAIS
ContosPor Marcello Ricardo Almeida 03/03/2025 - 00h 24min
Comentários