A MENSAGEM NA CARTA SOBRE OS 9:000$000 CONTOS DE RÉIS

Contos

Por Marcello Ricardo Almeida

Hipérbole, hipérbole! repetia o padre Velho durante a feitura de novos artigos ao semanário O Liberdade de Expressão. Hipérbole, tudo hipérbole debaixo do sol do sertão cada vez que se abancava em torno de peripécia e banditismo, violência e horror praticados por cangaceiros.
Àquela hora, Zé das Cruzes atravessou a cidade. Ele dirigiu-se ao quartel defronte à capela onde cabeças cortadas eram expostas nos degraus à visitação pública.
No sertão, novembro de chuva. O vento agitava as craibeiras.
No lamaçal, sapo coaxa, coaxa. Queixada de Jumento e Bico de Tamanco chegaram à cidade amarrados por Zé das Cruzes, que os entregou ao quartel. Ele os deixou, e saiu à procura de Conveniência, o Cangaceiro do Rei. Recebeu as informações do Tenente Opróprio, e rumou ao sertão profundo.
Ten. Opróprio à porta do quartel, Zé das Cruzes degraus abaixo, passou diante da capela onde cabeças cortadas eram expostas nos degraus à visitação pública. O povo viu Zé das Cruzes numa breve genuflexão e sinal da cruz, seguiu rumo ao que se convencionou chamar terra seca, pedras, espinhos-de-roseta.
O canto “Kyrie, Eleison” a plenos pulmões naquele pedido “Senhor, tende piedade”. O canto se espalhava como se o padre Velho fosse beneditino, quando agostiniano, fiel à Liturgia das Horas, devoto da mendicância, crente da fé ser a única vereda neste agreste a se chegar à verdade.
Não faço prognóstico! disse o Ten. Opróprio.
Espicharam-se as árvores em busca do sol. Diante da casa da costureira Elipse, sobrinha do padre Velho, o povo a viu correr e pendurar-se à janela com acenos, sendo expansiva com Zé das Cruzes, o homem que virou lenda.
As tardes em Santana eram quentes. Os sons das cigarras atravessavam a cidade com 120 decibéis com os quais machos atraem fêmeas. Chegou aos ouvidos do padre Velho que a costureira Elipse suspirou:
Não me saía do pensamento!
No quartel, o Ten. Opróprio:
Ele estava por sua conta! e soltou um riso de canto de boca.
Entre galhos tortos e vegetação rasteira, Zé das Cruzes passou na Lagoa da Jia. Casaca-de-couro acompanhava o coaxar de sapos na toada, ora parava, ora seguia ritmo célere dos cantores. O vento nos galhos. Nos arbustos, bem-te-vi encontrou o seu alimento.
Na Roída, o vento soprava a velocidade do tempo. Alastrado conversava com o facheiro. Velhos mandacarus cansados da vigília.
Sentado na varanda na Roída, Macambúzio recebia as orientações do Cel. Dr. Cicrano, após ter ido a Maceió apagar a luz do fotógrafo que espalhou em jornais haver cangaceiros no sertão de Alagoas. Gargalhadas do Cel. Dr. Cicrano faziam ecoar tô-fraco-tô-fraco-tô-fraco, alvoroçadas no terreiro atrás de xerém as galinhas-d’angola.
E o retratista, senhor doutor, disse Macambúzio ao seu pai Cel. Dr. Cicrano que não o reconhecia na certidão tampouco no batistério sendo o seu filho, ficou estirado na frente do Livramento.
Foi? perguntou pela enésima vez, e explodiu em gargalhada.
Esperava dinheiro, senhor doutor, e recebeu uma chuva de chumbo.
Chuva, tu disseste – mais gargalhada – no pretérito imperfeito?
Ainda furei o bucho do bicho com essa coisinha, senhor doutor!
E a gargalhada do Cel. Dr. Cicrano, que não se interrompia, ganhou força. Este outro filho bastardo do Cel. Dr. Cicrano repletamente ufano ante a aprovação do pai biológico.
A Fazenda Roída avançava sobre o Panema e dirigia-se ao São Francisco. De longe, as gargalhadas do Cel. Dr. Cicrano:
A juventude não temia qualquer tipo de morte, esta serpente traiçoeira e hostil. A sede e a fome acompanhavam a sombra do morticínio.
Mais gargalhadas:
Dramas, desigualdades acompanhavam os jovens e as famílias. A riqueza era sem escrúpulo na vegetação que se alargava; a pobreza dobrada, atenta ao primeiro grito, aos gritos altos, a quem gritasse mais.
Fenômenos estranhos!
No chão, ao lado Cel. Dr. Cicrano, Ethica Ordine Geometrico Demonstrata. Nas mãos o Jornal do Ser Tão, impresso no Rio.
O meu mandato é divino! e gargalhava, e batia no peito. O meu mandato! e ria, autoritário e violentamente, com todo o cinismo. O que é meu, é meu!
O espaço em volta ao Cel. Dr. Cicrano atópico, e as alianças eram sempre de sangue. Quando não eram as guerras, eram as bodas familiares.
Todos a serviço dos senhores unidos nas intenções belicosas. Nenhuma vontade livre era vista no horizonte, diziam as manchetes no Jornal do Ser Tão ora folheado pelo Cel. Dr. Cicrano na terra plana de pedras e espinhos-de-roseta:
O diabo publicou ipsis litteris! gargalhava o Cel. Dr. Cicrano.
Em Maceió, figurava na reportagem lida pelo Dr. Sicrano, primo do Cel. Dr. Cicrano, sobre o cangaceiro Conveniência, Cangaceiro do Rei que se autodenominou de Adjunto de Honra. Faziam parte do bando os cangaceiros Itapema, Lajeado, Modelo, Areia Branca, Campo Erê, Peritiba, Cocal, Timbó, Urupema, Maracajá, Urubici, Campo Alegre, Rio Negrinho, Aurora, Ermo, Ipuaçu, Arvoredo, Vargem e o pai Vargeão, cego dum olho em luta de nó de camisa. E também Ouro, Major, que fugiu da tropa porque um soldado ofendeu a sua irmã.
Ainda tomavam parte entre eles Palhoça, Meleiro, Palma Sola, Gravatal, o irmão Garopava, coxo, cuja mulher o trocou por embornal com brilhantes. Além de Paial, Maravilha, Santinho, Jupiá, Luzerna, Quilombo, Sombrio, Xaxim, Porã, Penha, Tigroso, Pescaria, Água Morna, Papanduva, Maçaranduba, Trombudo, Menino, Canelinha, Rodeio e Piçarra.
O Jornal do Ser Tão nas mãos do Cel. Dr. Cicrano. O texto da extorsão do bando do Cangaceiro do Rei, vulgo Conveniência, o Adjunto de Honra:
“Eu, Adjunto de Honra, aos 15 do mês de nosso Senhor, supracitado, fazia proposta de 9:000$000 contos de réis até sábado, dia 20. Coisa que não se podia fazer a lume. E caso recusasse o dito, Suas Excelências ficassem certas de que, numa moita de tocaia, por ser costume, o cabra designado no grupo deixaria as encomendas aos urubus de quem viesse a obstar a presente missiva, e bispasse a demanda. Eram as nossas leises.”
Foi respondida à extorsão:
“Consideravam-se conchambranças encomenda supracitada de remessa de 9:000$000 contos de réis que se exigiam. Erário indispunha da soma a cabra cangaceiro suplicante. Extorquir não era fazer conchambranças nem donzelices. Sujeito perigoso reconhecia o periculoso e dava causa que atalhasse tal pedido e patifaria. O lugar botaria regime dito julgo pelo malefício praticado ao lugar que arrefecia extorsão. Nossa cadeia, por hora modéstia, encontrava-se ao seu dispor na hospedança de cabra cangaceiro suplicante.”
Onde havia excessiva pressão de quem escreveu a carta com a extorsão dos cangaceiros, a escrita indicava ter sido o texto redigido por alguém com forte energia emocional. Não se encontrou na carta palavra que não estivesse grossa de tinta e não ter havido pressão média que revelasse a tranquilidade na escrita.
A redação da carta mostrava todas as palavras inclinadas à direita – e isto caracterizava a ansiedade ao escrevê-la, estava na reportagem do Jornal do Ser Tão. E não havia sido notado desinteresse de quem a escreveu ao redigi-la, caso houvesse, as palavras teriam inclinação à esquerda.
Como as palavras eram irregulares, na extorsão do cangaceiro, avançam para além delas, às vezes abaixo delas, via-se ter sido redigida a carta pela pena da instabilidade. E estas aventuras de Conveniência, o Cangaceiro do Rei, como se seguissem capítulos em folhetins, eram populares no Brasil.
Ninguém sabia o dia de amanhã, sequer sabia o próximo instante. E o voo duma bala fazia a vida de baque parar de respirar. Foi a resposta do Ten. Opróprio à reportagem do Jornal do Ser Tão, sediado no DF, Rio, e com olhos e ouvidos em cada canto.
A dita extorsão foi uma petição de ajuda. Saíram publicadas a imagem e a declaração do cangaceiro Conveniência, no Jornal do Ser Tão.
“Eu nunca invadi fazenda nestas terras”, declarou Conveniência à reportagem. E desconhecia o sertão, por onde jamais andei. Eu era sujeito litorâneo, nascido e criado na praia, sob estes coqueiros, nesta areia branca. E fez o sinal da cruz. Nunca fui cabra de violentar ninguém.
A edição do jornal trouxe que cabras de Conveniência o acompanhavam quais rêmoras fixas ao corpo de tubarões. Eles caçavam restos que caíssem de suas vítimas.
Na reportagem, o jornal fez um recorte dos diálogos que antecederam aos fatos:
PATACÃO: O senhor padre foi dormir. Saísse daqui; fosse embora!
MENINO: Pegasse.
PATACÃO: Que era isso?
MENINO: Sabia não.
PATACÃO: Deixasse quando o senhor padre saísse da sesta.
O mensageiro do bando de Conveniência, Menino, jogou-se nas águas ligeiras do riacho tributário do Panema. Estibungo fê-lo sumir da vista de Patacão com o bilhete sem saber da reação do padre Velho que vinha no chiado do xoboi. Aproximou-se o padre Velho e reconheceu o mensageiro do Cangaceiro do Rei puxado pelos caixões d’água que se formavam no rio naquela época do ano.
PADRE: Que era isso em sua mão?
PATACÃO: Um bilhete.
PADRE: Que bilhete?
PATACÃO: Senhor padre...
PADRE: Me entregue logo, cabra!
PATACÃO: Aqui, senhor padre.
No asno Esperança-de-Nunca-Mais-Empacar, o padre Velho dirigiu-se ao quartel defronte à capela onde cabeças cortadas eram expostas nos degraus à visitação pública.
PADRE: Lesse.
TEN. OPRÓPRIO: Isso não era possível!
PADRE: Não?
Chegaram ao quartel com o padre Velho, o dono de farmácia Polissíndeto e o jornalista Lítotes. Observavam a tensão que se formou entre as paredes, no batalhão.
POLISSÍNDETO: Só se armássemos o povo de Santana.
TEN. OPRÓPRIO: Não havia jeito de entregar 9:000$000 contos de réis?
Primeiro, ouviam-se passos de calçados de sola de madeira como eram as botas pesadas, com corpos pesados. Depois foi a vez de vozes em infindáveis corredores:
Mas eram ousados esses cangaceiros!
A cabroeira teria coragem de invadir como fizeram em Olho D’Água?
Com quartel na cidade, um batalhão com volantes a torto e a direito soltas nas caatingas!
Mas, afinal, por que esses bandidos pediram essa fortuna?
Porque o que abunda não prejudica!
Depoimentos publicados pela reportagem do Jornal do Ser Tão, o bando de Conveniência era derivado de outros não menos populares no imaginário das pessoas de cidades e fora delas. O Cangaceiro do Rei passou em Santana com 20 cangaceiros.
Na frente do quartel passava um mascate com a tropa. De longe ouviam-se os zurros dos animais de carga.
Conveniência, o Cangaceiro do Rei, supera a história do cangaço. Ao que se sabia, Zé das Cruzes, o Caçador de Cangaceiros, seguia o seu rastro.
Era o sertão quem personificava o homem! disse o Ten. Opróprio a volante que saía em outra missão nas barras do São Francisco.
Na frente do quartel, as crianças brincavam de correr umas após as outras. E imitavam diligentes volantes e ávidos cangaceiros.
Gatos cochilam na varanda, cãeschorros caçam moscas com a boca. Zunidos delas preencheram a tarde.
Em Maceió, a mais de 42 léguas de Santana, na Rua dos Mascates, onde pessoas chegavam em navios de lugares longínquos e comercializavam tecidos, homens de chapéu e terno pisavam nas poças de lama com os seus sapatos de couro. Entre os homens de chapéu avistava-se o Cel. Eufemismo.
A residência mais rica, na cidade, ainda era a do Cel. Eufemismo. Pequenas colunas ornavam o terceiro andar onde o coronel morava com a família, criados e cãeschorros. Casado, ele usava as camas das criadas com a desculpa de que era a cachaça. Os seus balaústres desenhados em torno da varanda no primeiro, segundo e terceiro pisos. Lembrava a habitação de um senador romano.
Na Rua dos Mascates andava o Cel. Eufemismo. Não havia nenhuma criatura com beneplácito maior das autoridades. Dizia-se bonachão, consentia qualquer coisa em sua volta com a desculpa de que a cachaça era a culpada.
Que querias aqui, mascate? perguntou o Cel. Eufemismo, um comerciante que fugiu de Santana com Temistocleia, uma das filhas da falecida D. Xântipe e do marceneiro de muletas que foram queimados vivos no episódio Vingança de fogo.
Permiso! escorregou no português, segurou-se no espanhol. Permiso de coroné! na variação linguística, o mascate amparava-se neste sotaque diatópico.
Fale, mascate! autorizou o coronel.
Coroné dava permiso, no?
Não, indagou o coronel, ou sim?
Sim. No?
Eufemismo apareceu no sertão, surgiu em Santana em um conto de Natal. Vivia na porta do armazém, gordo e sorridente, puxava com a ponta dos dedos e soltava o suspensório plaft! sobre o ventre volumoso plaft! Homem casado com quem fugiu Temistocleia, a filha de D. Xântipe e do marceneiro de muletas.
Eufemismo e Temistocleia anoiteceram em Santana e não amanheceram. Assíduo foi preso por correr com faca de ponta em punho atrás de Temistocleia, porque ele a queria e ela o recusou.
O padeiro Eufemismo levou Temistocleia de Santana. O casal morou em vilas, povoados, outra vez em cidades, e chegou a Maceió, onde Eufemismo viu o Atlântico novamente.
Negociou couro do sertão. Importava bugigangas trazidas do estrangeiro. Ficou rico na Rua dos Mascates. Comprou imóveis, títulos, carros, abriu comércio pelo qual exportava oceano afora. Agora era conhecido como Cel. Eufemismo.
Sim. No? o mascate gaguejou diante do ventre volumoso do coronel.
O mascate suava feito chapéu de cuscuzeiro. Tirava a proteção da cabeça e secava o suor com um trapo encardido que arrancava do bolso, na calça de brim. Mascate olhava a rua, que era comprida e larga, sem pavimentação, rua silenciosa com casas acanhadas de ambos os lados.
Um ajudante do mascate lhe trouxe a cornucópia na qual ele bebeu vinho, e ofereceu ao Cel. Eufemismo que, desconfiado, recusou a oferta.
Era isso que chamava de cornucópia? quis saber o Cel. Eufemismo ao se referir ao objeto com o formato de chifre do qual escorria o vinho que lambuzava a cara do mascate, que tornou a limpá-la com o trapo encardido.
Na rua, a tropa do mascate na frente do Cel. Eufemismo. Carregadas as mulas de artigos que atravessaram o Mar Mediterrâneo e o oceano Atlântico.
O Cel. Eufemismo fumava grosso charuto num canto da boca. O mascate via a pobreza em seus dentes enlutados. O Cel. Eufemismo reclamava da vida, da falta de dinheiro, da carestia, das vendas fracas das pernas.
Com pesar, o Cel. Eufemismo lamentava a morte de seu compadre, o Cel. Cordeiro da Paz Carneiro, chefe no município de Poço da Lama. Os mascates atentos ao pesar do Cel. Eufemismo. Os jornais envolviam o nome do Cel. Dr. Vil, no assassinato do desafeto.
O Cel. Eufemismo mudava o rumo, trazia ao assunto os navios mercantes, as guerras no velho continente. Os coronéis tinham motivos e desconfiaça de gente estranha, no sertão.
Volantes recebiam reforços. Santana em destaque no Jornal do Ser Tão. Cangaceiros escondiam-se nas fazendas dos coronéis, traziam as matérias.
O Cel. Popeia, chefe no município de Tessitura de Acordo, o Cel. Perífrase, chefe no município de Escritura Real, o Cel. Metonímia, chefe no município do Ui, o Cel. Paradoxo, chefe no município de Paráfrase e o Cel. Eu, chefe no município Serra dos Elefantes Azuis, associaram-se ao Cel. Eufemismo na exportação de couro o estrangeiro.
Conveniência, o Cangaceiro do Rei, e alguns dos subgrupos foram vistos em Aroeirinha. O Cel. Dr. Vil, chefe no município de Aroeirinha, andava de boca em boca nas capas dos jornais.
O bando de Conveniência, que enfrentou duas volantes, atravessou o São Francisco, em Piranhas. Enquanto a retreta tocava, o chumbo quente cruzou as águas.
Vencido o velho Chico, o grupo de cangaceiros dividiu-se; um foi homiziar-se nas casas de Aroeirinha, outro foi fazer miséria com velhos, mulheres, fechar comércio, queimar armazéns, matar homens valentes, bater nos covardes.
O Cangaceiro do Rei fugiu a pé em direção ao município do Ui, terras sob o domínio do Cel. Metonímia. Dois dias depois, Conveniência foi visto em outro grupo de cangaceiros, onde chefiava, no município de Léxico Encarnado, terras do Cel. Silepse.
Em Léxico Encarnado, o Cangaceiro do Rei destruiu a feira livre. Derrubou e queimou as barracas de miçangas, preservou as toldas de comida. Alimentou o bando e seguiu viagem, não sem antes espancar homens e ofender mulheres.
Novo confronto de cangaceiros e volantes no município de Figura Roxa; estas eram as terras que recebiam a proteção do Cel. Antítese. No município de Faca Cega, o bando de Conveniência pernoitou sob a proteção do irmão do Cel. Dr. Vil, o Cel. Etc.
No município de Faca Cega, os cangaceiros de Conveniência livraram-se dos ataques de volantes. Em Faca Cega só acontecia o que fosse permitido pelo Cel. Etc.
Munidos e descansados, os cangaceiros deixaram Faca Cega. Outra vez atravessaram o São Francisco e viajaram no leito seco do Panema.
Esse era um momento difícil! disse o Cel. Eufemismo ao mascate. O sertão queimava e a guerra voltou, porque o sertão não vivia sem. O Cel. Metonímia, o chefe no município do Ui, entrou em guerra com o Cel. Zeugma, no município de Semântica Tardia. O gado de um coronel invadiu e destruiu o arame do outro.
O mascate não lhe falou mais nada. Continuava o Cel. Eufemismo:
Impedir a passagem do couro era decretar a minha falência!
No silêncio, o mascate admirava a fisionomia do Cel. Eufemismo.
A admiração do mascate ao Cel. Eufemismo lembrava a admiração na feira quando Temistocleia abandonou Santana por Eufemismo.
O padeiro Eufemismo, então Cel. Eufemismo. Recorrente nas publicações de jornais.
A figura alta, gorda, de pouco cabelo era o Cel. Eufemismo, com o charuto atolado, mastigado no canto da boca. A seriedade na barba branca, nos óculos redondos de aro escuro, testa que avançava até a metade da cabeça; as botinas pretas e o terno de brim naquele calor de novembro, em Maceió.
Por causa de barriga sem reparo! disse o Cel. Eufemismo. Criança nasceu sem pai, que fugiu, foi ameaçado. O Cel. Hipérbato jurou matar o Cel. Polissíndeto se a criança ficasse sem pai.
Em Santana ouvia-se falar no progresso do Cel. Eufemismo. Assíduo, que era rival na disputa por Temistocleia, tornou-se cangaceiro desde o dia em que fugiu da velha cadeia na Rua do Sebo.
O padre Velho, ultimamente, vivia cabisbaixo. Duvidava da existência dos planetas e o que os cercava, desde o dia em que voltou do Sítio Cthulhu.
No asno Esperança-de-Nunca-Mais-Empacar, o padre Velho olhava o sol sem acreditar na existência do sistema solar. A negação girava em torno de seu chapéu preto, formigava em sua batina. O xoboi pesava, pesavam-lhe os pés, as pernas, o corpo abatido e o cérebro incrédulo na vida para além da Terra.
Tudo fazia a cabeça do padre Velho girar! foi assim que ele retornou do Sítio Cthulhu com referência a si na terceira pessoa, havia uma semana.
Venceu léguas entre o Sítio Cthulhu e Santana sem ver a hora de chegar. Renegava a planície de Gizé. Não havia vegetação em parte nenhuma. Pedras, terra seca, espinhos-de-roseta.
O padre Velho renegou Hiparco e a distância da Terra à Lua. E renegou Ptolomeu e toda a sua matemática. Renegou todos aqueles que renegavam Aristóteles e as suas ideias geocêntricas. E renegou Eratóstenes por ter determinado a circunferência terrestre.
Reuniu cada uma de suas negações e as resumiu em uma só. E renegou Copérnico, e renegou Galilei, e renegou Kepler, e renegou Newton, e renegou Darwin.
A semana do padre Velho era pesada, era arrastada, era laboriosa. Dias eram lentos. Era lerda cada noite. Diferente de Lisboa, do Porto, de Coimbra onde fez os seus estudos.
No término do dia, o padre Velho tinha realizado cinco celebrações, três matrimônios, seis recomendações aos que se foram, entre as quais dois adultos e quatro crianças.
Como morriam crianças! o padre Velho chorou.
Os sítios, as aldeias, os povoados convergiam a Santana em busca das palavras do padre Velho. Era gente de Semântica, de Pensamento, de Harmonia...
Recebeu o padre Velho representantes de Semântica. Quem lhe chegou primeiro foi Metáfora, depois Catacrese, seguido por Comparação, e ao sair veio Sinestesia, e quando estava na porta da rua foi a vez de Metonímia, e, por fim, Perífrase.
Era rotina no casarão servir café e bolo de milho recém-ralado pela irmã do padre, a freira Prequência Prequela. A irmã do padre costumava narrar com os mesmos elementos antes imaginados como se repetisse alguma obra original no casarão ao lado do riacho tributário do Panema.
Saíam os representantes de Semântica, chegavam os de Pensamento. E o padre Velho os atendia. Conversava com Antítese, ouvia Hipérbole, chegava a vez de Eufemismo, saía este e vinha Paradoxo, seguido por Apóstrofe, que era substituído pela visita de Prosopopeia, e ao sair parecia Gradação, depois Ironia.
Não havia dia na semana que o padre Velho não tivesse a sua residência paroquial cheia de gente em busca de ajuda à carne e ao espírito. No mesmo dia, o povo de Sintaxe veio ao casarão.
O velho Zeugma, cansado da vida, pediu conselhos ao padre; também lhe pediu Elipse, não a sua sobrinha, esta era outra, casada com Assíndeto, parente de Anacoluto. Vieram de uma só vez Hipérbato, Pleonasmo, Silepse, Apóstrofe e Polissíndeto. Não Polissíndeto da farmácia, não aquele que fazia O Liberdade de Expressão com o jornalista pernambucano e com o padre Velho, no solar do Cel. Dr. Cicrano.
Antes do final do dia, chegaram ao casarão do padre Velho, velhos amigos da aldeia Harmonia, associados à Fonética; eram Paronomásia, Aliteração e as irmãs Onomatopeia e Assonância. As visitas de Semântica eram associadas às palavras nas quais se interrelacionavam; por isso, quando elas começavam a falar não tinha fim as suas falas.
Quem gostava de coincidência de ideias eram os de Pensamento, a aldeia que se encontrava nos extensos limites de Santana. Outra era a aldeia Sintaxe, esta que se interessava pela construção gramatical veio naquela hora convidada pelo padre Velho que usou a seguinte alegoria:
Saísse um pouco. E deixasse de viver como se vivesse acorrentado a uma caverna desde o dia do nascimento. Parasse de cheirar a parede lá nos fundos. E viesse a Santana. Fugisse daquelas sombras por algumas horas, elas não eram as únicas realidades.
Era tarde da noite, quando Patacão, faz-tudo no casarão do padre Velho, veio lhe perguntar:
O que é o destino, padre?
O destino, Patacão, disse-lhe o padre Velho, era uma aranha.
Patacão coçou o queixo. Ficou sem palavras. Quis aprofundar-se sobre o destino. Entregou ao padre Velho livros em capa de couro pedido por ele, como fazia antes de dormir, este optou por um único volume: História de Roma Antiga.
O destino era uma aranha, padre? duvidou Patacão da resposta do padre.
Foi uma aranha que o obrigou a ficar em Santana, não foi?
Foi, sim senhor.
O seu destino estava preso ao dia em que a aranha-armadeira o atacou, Patacão! e assim o padre Velho fez Patacão alcançar uma autorresposta.
O destino é uma aranha! se foi Patacão com a nova máxima. O destino é uma aranha! feliz com a resposta do padre Velho. O destino é uma aranha! saiu Patacão corredor afora. O destino é uma aranha! não se cansava em repetir a descoberta.
Patacão deixou o padre Velho com a História de Roma Antiga nas mãos. No silêncio da madrugada, o padre ouviu a voz da aldeia Semântica.
Metáfora, um dos moradores da aldeia, era figurativo. Costumava dizer:
O coração de Hamlet batia dentro de Ofélia!
Leu Shakespeare? perguntou Metonímia.
O autor de Hamlet! antecipou-se Perífrase, que não sabia ficar calada.
Antes de abraçar definitivamente o sono, fiapos de conversas giravam em torno do padre Velho. E depois das conversas atroadas do povo de Semântica, foi a vez das vozes dos visitantes da aldeia de Pensamento:
Shakespeare era repetitivo! se expressou de maneira inversa Ironia.
O nada em Shakespeare era tudo! contradisse a lógica Paradoxo.
Hamlet adorava o tio Cláudio! mostrou o oposto Antítese.
O tamanho de Shakespeare supera o da Europa! exagerou Hipérbole.
O teatro de Shakespeare é grande, preenche o planeta e supera o sistema solar! como era hábito de Gradação aumentar. E Hamlet é de caráter assassino e imaturo, inconsequente e irresponsável! e, quando não aumentava, diminuía.
Fugiam os fiapos de conversas do povo de Semântica, voltavam ao padre Velho os fiapos de conversas da aldeia Harmonia:
E Hamlet mergulhou com tudo nas piores dúvidas: tchibum! representava Onomatopeia com a criação de sons.
Ofélia à janela vê neve no coração de Hamlet, e perde a sua fé! envolveu-se Assonância na conversa com repetição fonética; enfatizava desta vez sílabas tônicas.
O padre Velho folheava outra vez a História de Roma Antiga. O sono era o sonho e este a abstração mental. O livro na mão do padre tombou, quando ele caiu no sono.
A vela de cera começou a chorar sobre a História de Roma Antiga ao lado da cama do padre Velho. O livro aberto no período do império entre 54 a 68 d.C.
Com pressa, derretia-se a vela de cera. Cada pingo que batia nas páginas abertas atingia a crueldade e a violência contidas nas páginas.
A janela aberta permitiu uma lufada de vento que derrubou a vela sobre o livro, e as páginas foram rapidamente consumidas entre a capa e a contracapa de couro de jumento. O fogo começou a queimar o capítulo sobre o ano de 342 d.C. sobre a ruína da Biblioteca de Alexandria.
As labaredas alastraram-se; no meio delas levitou a cama do padre Velho incólume ao fogo. As línguas tomaram o casarão, e cobriram o riacho que corria ao Panema, e invadiram o rio, e subiram as ladeiras, e chegaram à única praça no centro da cidade, e dominaram o solar do Cel. Dr. Cicrano onde O Liberdade de Expressão era confeccionado, e não demoraram em queimar as estantes, a queimar todos os remédios, a queimar todos os livros do chão ao teto.
Mais tarde, as línguas de fogo transformaram em cinza quente o que tinha sobrado do Iluminismo de Abu Ali Alhazen, que o Cel. Dr. Cicrano se propôs a traduzir do árabe. Fim das labaredas e, fim do Iluminismo, voltaram as trevas.
A luz do candelabro, nas mãos finas e alongadas da professora Hipérbole, apagava a escuridão nos corredores. Foi na cozinha que Hipérbole surpreendeu Pleonasmo:
Que fazia na madrugada? quis saber. Perdeu o endereço da cama?
Era a única hora na qual se tinha paz na vida! murmurou Pleonasmo.
Quê! quê!
E assim poderia atualizar as correspondências! continuou com resmungos o professor de matemática à mulher professora de português.
Hipérbole não gostou do que ouviu de Pleonasmo. Estavam naquela casa desde a adolescência de ambos.
A professora parecia ter uma pulga atrás da orelha a ouvir as conversas do professor. E perdeu a paciência com ele como perdia na escola com os alunos que praticavam silabadas.
Escrevia o quê! ela insistiu.
Cartas ao amigo Juan! disse o professor Pleonasmo. Convidava-o a vir a Santana conhecer como surgiu o realismo mágico com o fantástico episódio do sal, na Rua do Cachimbo Eterno.
A professora Hipérbole ergueu sobre a cabeça o candelabro. Deu com a luz na cara do professor Pleonasmo, e iluminou toda a cozinha.
Mexicano! foi a resposta do marido à mulher, como se adivinhasse cada expressão facial naquele rosto iluminado à vela. Era um amigo professor ou era um professor amigo, já não sabia, dos Rulfo!
Pro...fes...sor? correu um fio de vento, que atravessou as frestas e apagou as velas de sebo no candelabro da professora Hipérbole.

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