A cidade era simulacro de outra cidade que, por sua vez, era simulacro de outra. A tal ponto que deixava em dúvida se ela era real ou ficção.
O padre Velho voltava da casa mal-assombrada. Ao deixar o padre a Rua da Cadeia, encontrou-se com o Dr. Cicrano na abertura do comércio.
Padre, esta decisão de achar o mundo feio e mau, perguntou o bacharel, tornou o mundo mau e feio?
Isto era teoria do desejo. Só acontecia, pois, o que se desejava. Se acaso o desejado não acontecesse, era porque nem o desejo valia a pena.
E saíram ambos nos tropeços sobre as riquezas do Brasil. E Polissíndeto ao vê-los aproximou-se “vaidoso, patético, importuno como eram geralmente os poetas”, como diria Nietzsche, disse o Dr. Cicrano ao padre Velho.
Nietzsche também disse, doutor bacharel, que não se deve esquecer que os grandes mestres da prosa foram quase sempre poetas.
Sem o verso não se era nada, concluiu o padre Velho com desejo em se manter no autor de A Gaia Ciência, com ele se se tornava quase um deus.
A riqueza do Brasil era o café. O aroma invadiu a cozinha da costureira Elipse ao girar a colherzinha na xícara importada. Presente de Morfologia, com quem Elipse foi casada. Ela tinha a borda de ouro.
Morfologia foi um dos sete maridos defuntos da costureira Elipse. A colher girava na boca da xícara e o atrito deu vida ao café com leite.
Na borra do café formou-se a cara de Morfologia. A costureira interrompeu a Singer e admirou a cara de Morfologia na borra.
A costureira Elipse parecia ouvi-lo. Morfologia falava que o casamento era uma batalha na qual se lutava dia após dia.
Ele, antes de casar-se com ela, foi casado com Linguística. Morfologia e Linguística tiveram dez filhos; e a dezena foi devorada pelo mundo.
Pragmática, uma das filhas de Linguística e Morfologia, ainda trabalhava como cozinheira em Maceió. Foi criada nas ruas de Santana, com tranças loiras e olhos claros.
Na Singer, a costureira Elipse, de portas e janelas abertas, acompanhava o movimento na cidade. O Dr. Cicrano foi um dos passageiros que embarcou na Xepa que saía de Santana com destino a Maceió.
O Dr. Cicrano era apoiador de Fernandes Lima! disse a costureira. Lá vai ele todo faceiro.
A costureira Elipse costurava a vida de toda a cidade. Outras costureiras menores e o finado alfaiate Idioma foram exceções em Santana.
O coletivo tomou a buraqueira em direção a Maceió. Na estrada de chão, a poeira anuviava os miolos do Dr. Cicrano, que não se livrava da imagem aflita do piromaníaco Zeugma.
Marceneiro Zeugma fez o Dr. Cicrano bater com a mão espalmada sobre o balcão da botica, como costumava chamar a sua Pharmacia, que estremeceu o solar. E fuzilou:
Ó, seu filho duma...! como se em breve aquela montanha imaginária que representava o corpulento Dr. Cicrano fosse avançar sobre o marceneiro que se amiudava de cócoras entre os próprios joelhos. Por que eu tinha que viver a vida cercado de demônios por todos os lados?
Zeugma pediu arrego ao doutor. Arrependido por ter queimado os picuás do marceneiro de muletas, seu desafeto, marido de D. Xântipe.
Arrependido por ter acompanhado o fogo desde a primeira fagulha.
Viu a oficina do marceneiro de muletas transformar-se em cinzas. Zeugma não acreditava que alguém tivesse sobrevivido naquele fogaréu.
Alguém te viu, desgraçado? quis saber o Dr. Cicrano.
Santana me livrasse! soltou o piromaníaco Zeugma. Já quando começou a juntar gente, sumi, doutor. Fiz como o doutor me pediu. Agora, doutor, queria dinheiro pra fuga.
Era obrigado a voltar ao gabinete, no palácio, ainda esta semana! disse o Dr. Cicrano de costas ao piromaníaco Zeugma.
Ia aonde, doutor?
Onde não te interessava, incompetente dos infernos! berrou o Dr. Cicrano. Eu me sentia mesmo uma ilha, como disse o meu avô, em oceanos de loucos.
O Dr. Cicrano remoía:
Fui perseguido por curandeiras, na minha botica. Vi aranhas cercarem de teias os meus remédios. Vi sumirem os doentes. E não tive o apoio nem do padre nem do amigo Polissíndeto.
Remoía os botões de seu terno:
Vi prosperar nos negócios aquele carroceiro, que foi de Bé Carroceiro a Bé do Algodão, sem poder impedi-lo. Nem o primo Dr. Cicrano conseguiu mudar o destino do filho da curandeira.
Remoía com o seu chapéu de massa na mão:
Fui receber Tudão, que chegou na Xepa com o Código Criminal. E Tudão vivia enfiado no semanário O Liberdade de Expressão. Tudão não foi contratado pra essas coisas de jornais.
Remoía dum lado a outro:
Desceu da Xepa como rábula. Não ouvi falar que Tudão fosse periodista. O objetivo dele aqui era relaxar a prisão de Assíduo, preso por uma eternidade.
Zeugma acompanhava o Dr. Cicrano com os olhos. O bacharel remoía da porta da rua à porta dos fundos:
Assíduo, um pobre inocente. Filho da mulher que me amamentou. E onde se viu correr em Santana com faca de ponta atrás da filha daquela curandeira!
Remoía dum lado a outro:
Obrigado a retornar ao gabinete, no palácio. O primo Dr. Sicrano quando voltava da Europa?
O piromaníaco encolhia-se feito cururu. E o Dr. Cicrano remoía as ideias entre as prateleiras de sua botica:
O carroceiro teve a petulância em trazer até engenheiro. Disse ao mundo todo que aqui não seria fazendão. Faria escolas. Ousadia dele em transformar o Panema; perenizá-lo. Sonhou com hidrelétrica. O lugar de sonho era o cemitério. Comprou terras, gado. Agora, o sogro do carroceiro fazia estrema com a minha propriedade aqui perto da rua, a Roída, onde o meu avô criava cabras.
Fazer uma hidrelétrica aqui? Ficou doido de pedra. Hidrelétrica era moda depois que surgiu aquela na cachoeira de Paulo Afonso?
Remoía de porta a porta:
Qualquer dia, quando abrisse a minha janela, via o progresso em Santana. Via em lugar de urubus linhas férreas. Via trens, na cidade.
Um de cócoras. O outro furava o piso de ir e vir duma porta à outra:
Santana eletrificada, com trens. Uma revolução industrial na região. Luzes em lugar de lampiões.
Mas só era o que me faltava!
Faltava... doutor?
Não era da tua conta, diabo!
A Xepa avançou na rodagem. Balançava-se sozinha na buraqueira como se fosse um trem fantasma. O Dr. Cicrano não se livrava do crime do piromaníaco Zeugma:
Potoca, Zeugma! censurava o cururu, na Pharmacia que ocupava o andar térreo, no solar. Não ordenei nada desta natureza.
Que maçada, Zeugma! o Dr. Cicrano viajava, via a vegetação esturricada em ambos os lados da Xepa, sem conseguir livrar-se das imagens da vingança de fogo do marceneiro piromaníaco.
Queimar a família de um desafeto como se fosse um ninho de ratos.
Zeugma, acostumado a conversar com gente da roça, julgou o Dr. Cicrano mal. Zeugma virou, mexeu, desistiu de argumentar.
Se tinha medo de represália, Zeugma, fosse ficar uns dias na fazenda. Não na Roída, que era perto da rua; fosse na Desvalida, que ficava na Mata Pequena. Lá, os vaqueiros e Macambúzio, que fugiu da cadeia, te davam serviço.
Consertar cercas, doutor?
Ficasse lá homiziado por um tempo.
Homi o que, doutor?
Sumisse de Santana! explodiu. Fosse caçar serviço na Desvalida.
A luta de Zeugma (passavam os quadros cinzas na vegetação espinhenta nos dois lados da Xepa) não era contra o marceneiro de muletas, que não dava jeito naquela curandeira, era contra o sistema que ele representava. Os quadros espinhosos invadiam a Xepa ocupada pelo mormaço.
O Dr. Cicrano mastigava a radicalização do marceneiro Zeugma. Tangido à Desvalida e fechada a oficina de marcenaria na Rua da Matança.
Ele era o marido daquela curandeira, doutor.
Que diabos! levantou-se o doutor. Não autorizei a morte dele. Autorizei?
Não, senhor, doutor! encolhido e com o chapéu nas mãos entre as pernas finas. Zeugma arriscou erguer os olhos, e viu a montanha avançar sobre ele.
O desejo, sempre o desejo. Maldito desejo!
Escondia-se. Zeugma acocorado nos bagos, num canto da Pharmacia.
O bacharel circulava. Ia à porta da Pharmacia. Olhava um lado e o outro. Voltava. Mexia nas caixas de remédio, nos vidros de xarope. Metia-se atrás do balcão. Tornava a ir à porta da frente, à porta dos fundos.
A cidade era a ruptura do cotidiano. O que se sabia a respeito dela nunca era escrito. Era responsabilidade da leitura concluir a narrativa.
Poderia não parecer, o Dr. Cicrano (forjado na mesma liga do primo Dr. Sicrano) era a criatura cheia dos palavrórios. Santana via o reluzente símbolo de bacharel no dedo anular e fazia-lhe mesuras.
Os primos, ao se reencontrarem nas festas de Santana, afundavam-se na varanda do solar. Reuniam nas cadeiras de palhinha teorias sociais estrangeiras, acordos políticos extravagantes, soluções econômicas que vinham do outro lado do Atlântico. Durante a noite, o palavreado não era outro.
Não havia objetividade quando se tratava do Dr. Cicrano. Talvez por isto a sua venda de remédios andava mal das pernas. Ele falava em encerrar as suas atividades farmacológicas.
Polissíndeto, que trabalhava num balcão de farmácia com a sua esposa Prosopopeia, falava em negócios com o Dr. Cicrano. Talvez eles ficassem com a Pharmacia do Dr. Cicrano, trocassem-na por umas terras no alto da Camoxinga que a receberam de herança.
Prosopopeia, quando estava sozinha com o marido Polissíndeto, não lhe cabia brevidade; soltava o verbo. Polissíndeto exigia dela brevidade extrema. Foi assim até o dia em que Polissíndeto descobriu em Prosopopeia a força mágica que Virgulino notou em D. Maria.
Não havia sinceridade nas conversas do Dr. Cicrano! no travesseiro, dizia Polissíndeto à Prosopopeia. Nada nele inspirava a verdade.
O casal Prosopopeia e Polissíndeto era de detalhes, de observações, das minúcias. Fugia do lugar-comum. Buscava defender a originalidade e a ousadia. Talvez por isso os dois dormissem em camas separadas, no mesmo quarto.
O Dr. Cicrano, no melhor dos gozos, retornou de Maceió atrás do volante de um Ford A. Trazia o Bigodudo na unha sobre pedras, buracos, bichos miúdos.
Vinha, coberto de poeira e suor, o Dr. Cicrano na direção do Bigodudo. No percurso de mais de 200 km de Maceió a Santana, o motorista pulava que nem pipoca.
Viajar de Maceió a Santana era uma aventura. Comparava-se a caminhar na Muralha da China. E o bacharel guiava o seu Ford A com excessivo orgulho. A primeira parada dele foi em Jactância.
Foi visitar o amigo de partido. E este lhe agradeceu por ter denunciado as foragidas Coesão e Coerência. Ambos se vangloriaram com a prisão da mãe e da filha.
Os arrivistas orgulhosos do poder que controlavam – o doce poder de pai para filho por gerações. Os republicanos substituíram os monarquistas na forma, conteúdo foi preservado.
Ambos dividiam as conquistas sobre as quais triunfaram a qualquer preço. Não se importavam. Feito fera que enfrentava outra na disputa da carniça.
No rosto do amigo que trabalhava com remédios e xaropes, em Jactância, o Dr. Cicrano sempre viu a forte semelhança com o rosto de seu pai, que morreu enforcado. A esposa do amigo, jovem e tímida, era idêntica à sua irmã com quem dividia as intimidades.
Na juventude, o Dr. Cicrano perdeu a irmã. Ela foi morar no Recife. Nunca mais voltou a Santana. Desde que a irmã se foi, ele preferiu ficar sozinho.
Não se purificava, dizia o Dr. Cicrano de volta à estrada, se não fosse pelo castigo. Ele dizia saber que o fogo destruiu a oficina do marceneiro de muletas como manifestação do castigo.
Remoía a legislação de 1888. Procurava brechas. Reclamava da distância entre Maceió e Santana.
Não se apartava de seu clavinote. Este no banco do passageiro. Faca na bota. Duas pistolas nos coldres, porque não se separava da Luger.
Sonhava em tomar o lugar de mando do primo Dr. Cicrano. O Dr. Cicrano foi de mando em Santana e fora dela. Era pouco.
Em Jactância foi recebido com perguntas:
Como andava o Dr. Sicrano? isto o indignava. Todos se referiam ao primo Dr. Sicrano diferente de como se referiam ao Dr. Cicrano. Já voltou da Europa?
No Bigodudo, o Dr. Cicrano no caminho acanhado, mato e poeira, pedras, e não via a estrada, via o solar. Do mirante, via o Dr. Cicrano o Panema que não lavava as suas mágoas. Via o redemoinho do lixo da cidade. Coçava os últimos fios na cabeça. Corria a mão no rosto. Enrolava as pontas do bigode.
Assistencialismo circundava o Dr. Cicrano. E eu precisava urgentemente chegar a Maceió. A cidade não era mais a mesma.
Na ladeira dos Martírios, em Maceió. Pragmática corria e puxava a filha.
Horrorizadas. Pragmática e a filha desciam a ladeira como se fugissem de algum mal inevitável, que as ameaçava alcançar.
Tinha que ir rápido daqui! disse a mãe à filha.
Depressa, depressa, antes que ele voltasse. Se não fosse, ela continuou, se não fosse agora, a gente ia morrer.
A filha olhava a mãe com olhos assustados.
Não fizesse nenhuma pergunta. Não, não, não; deixasse tudo aí mesmo. Minha boneca, mãe! a filha protestou. Deixasse, deixasse tudo. Boneca não; se já tinha oito anos, o tempo de brincar com isso passou.
Os olhos da menina grudados à mãe.
Viu o que eu ganhei ao brincar com boneca!
Pragmática arrastava a filha:
Tinha que te carregar agora aonde eu fosse; não era justo. E também era injusto te deixar.
Corria Pragmática. A filha tentava alcançá-la. E Pragmática analisava o uso concreto da vida em diferentes contextos:
Não conseguia saber do que ele era capaz. Bebia além da conta, e ficava furioso cada vez. Não me dava descanso; queria sempre mais, mais e, se não desse, a gente apanhava sempre mais, mais e mais. E ficava tudo por isso?
Pragmática ia além dos sentidos semânticos:
Não ficava mais lá; nem você nem eu. A vida aqui era um inferno. E não era justo ter que fazer só o que ele queria que fizesse.
Pragmática interpretava a vida em seus aspectos:
Lavava, passava, cozinhava, limpava, dormia, acordava, saía, voltava, e o demônio de olho. O demônio queria saber tudo; não deixava nada passar que o demônio não visse.
Pragmática desenvolveu a capacidade de compreender a intenção de sua vida na vida dos outros. Ela usava diferentes formas de comunicar-se:
Fiquei com o demônio; nunca gostei do demônio, mas o demônio gostava de mim e me maltratava o tempo todo. Era o papel do demônio.
A filha distanciou-se da boneca, que ficou jogada.
Pragmática mantinha o sentido prático:
Rápido, rápido porque não queria que ele chegasse e visse a gente aqui. Não podia machucar outra vez. Eu toda roxa. Foi a última vez que ele machucou.
Na tentativa de alcançar a mãe, a filha corria. E Pragmática:
A gente achava um lugar.
Pragmática sabia como analisar o contexto:
Ele não podia me deixar assim. Eu sabia trabalhar, cozinhar, passar, lavar, e sabia limpar. E te ensinei a passar, a varrer, limpar, arrumar, guardar, estender roupas molhadas.
As praias eram distantes em Maceió. A capital estava cheia de ruas e becos, carroças e buzinas de carros. A filha – grudada à mãe Pragmática – distanciou-se da casa onde estava, distanciou-se do bairro que conhecia.
Pragmática soltou a mão da filha:
Soltasse, soltasse porque já era grande. Mocinha ajudava a mãe a cozinhar, não podia andar mais grudada na mãe, quando saía de casa.
Pragmática usava os seus artifícios:
A gente tinha que ir logo. A gente tinha que ficar bem longe daqui. A gente tinha que sair de onde ele pudesse ver a gente.
A reclamação de sede não fez a mãe parar e atender aos rogos da filha.
A menina olhou demoradamente a mãe apavorada, e o pavor foi visto nos olhos da filha pela mãe. A gente não podia fazer nada, a mãe disse; a gente ia continuar em frente, a gente ia continuar sem olhar o que ficou lá atrás.
A filha olhava de baixo, e olhava a mãe em cima. Acompanhava os passos ligeiros da mãe, a filha tropeçava, não conseguia acompanhá-la. Aprendia a filha a apavorar-se.
Desviava-se a filha de pessoas, nas calçadas. A filha atravessava as ruas com a mãe.
Aquele dia não parava de caminhar. A filha reclamava dos pés. Os carros não cessavam, e todos tinham pressa. As tiras no chinelo da mãe arrebentaram.
Era alta à noite quando veio a chuva. Mãe e filha abrigaram-se sob uma ponte. Adormeceram. Ao acordar, a mãe disse à filha Cleobulina ter sonhado; e quis saber se Cleobulina também sonhou.
A filha Cleobulina ouviu da mãe Pragmática que, durante o sono, veio a mulher da praia. Ela trouxe grossas fatias de pães.
A mulher da praia, mamãe, trouxe fatias de queijo coalho, de Santana. E duas xícaras de café com leite, mamãe. Açúcar. E ainda banana-da-terra. Alguns ovos. Banana-prata e aveia, banana-ouro também.
Pragmática observava Cleobulina desenvolver a sua narrativa:
Mamãe, a mulher da praia ouviu que a senhora morria de medo de papai.
Pragmática tirou folhas secas que grudaram em suas pernas:
Era sonho, Cleobulina! disse Pragmática. Tudo sonho, minha filha.
Pragmática seguiu na fuga nas ruas de Maceió. E outra vez anoiteceu nos becos de Maceió.
Bêbadas de sono, Pragmática e a filha procuraram algum banco na praça onde se prostraram. O sono profundo da filha e a vigília da mãe que temia perdê-la aos predadores.
Em becos sujos, entre os prédios, Pragmática e Cleobulina. E não foram poucas às vezes nas quais a mãe negociava o pão dormido com um estranho.
Sonhei outra vez com a mulher da praia, mamãe.
A filha olhava para a mãe, e olhava para a comida. A mulher disse que podia comer tudo se quisesse. Ela comeu. Sorriu porque estava alimentada. E a mãe, ao ficar só com a filha, admirou tudo o que os seus olhos podiam alcançar.
Cleobulina perguntou à Pragmática se elas iam voltar a morar numa casa. Pragmática não respondeu à filha. Cleobulina perguntou à mãe se não teria mais cama, se não teria mais casa.
Escureceu na estrada de Maceió a Santana. E o Dr. Cicrano ficou atento, porque naquelas terras costumava aparecer lobisomem.
O desencanto personificava-se naquela hora da noite. As taras morais e físicas, o Dr. Cicrano podia senti-las no ar da noite.
O Dr. Cicrano viu no espelho o primo Dr. Sicrano, mesmo sem sê-lo. No espelho, o Dr. Cicrano refletia e não o Dr. Sicrano.
E o Dr. Cicrano falou com o Dr. Sicrano como se falasse consigo mesmo. Fazia meandros no corpo, gestos no rosto, revirava o bigode, o jeito nos braços e nas mãos. Cortejava a sua imagem no espelho.
Fingiu enfermidades. O Dr. Cicrano cedeu o seu corpo ao peso do próprio corpo. Ergueu-se com dificuldade.
Dirigia o Ford A em meio a poeira. Quando eu era menino, papai trouxe à nossa casa uma curandeira. Ela profetizava vida longa e poder.
O combustível enfrentava a escuridão. No panorama épico da caatinga, o cangaceirismo revoltava-se; em toda a parte, o Papo Amarelo escorava-se numa forquilha.
Estes eram os lobisomens, dizia o Dr. Cicrano atrás do volante, escorados numa forquilha. Eles enxergavam a sua vítima pelos olhos da lua cheia.
Ó, sertãozinho de lobisomens! disse com a mão no clavinote. Hora destas, estas pestes se topavam com o zunir do fogo-corredor e recebiam talagadas na caixa dos peitos. As pestes iam pra cova antes do combinado.
O trajeto no escuro era voluptuoso. E o Dr. Cicrano lutava contra os seus fantasmas.
As mortes testemunhadas, as de encomenda, as pouco naturais. A noite, a lua... tudo evocava o que não deveria evocar.
No gabinete do palácio, o Dr. Cicrano:
Veja, Vossa Excelência, o exemplar que eu lhe trouxe da redação.
Sua Excelência:
Huuummmm...! enquanto folheava O Liberdade de Expressão. Hummm...!
É semanário de grande expressão! foi o comentário de um dos assessores aos outros que se acotovelavam no gabinete. Circula em todas as capitais.
Correu o zunzunzum:
Eu ri, disse.
Ó, feio!
Silêncio! ordenou Sua Excelência aos assessores, que interromperam os mexericos. E quem foi a divindade que trouxe à luz a Santana?
Eu! apressou-se em informar o Dr. Cicrano. Vossa Excelência...
Novidades, Cicrano?
Aquele carroceiro do qual lhe falei, Excelência, quer acabar com a cidade. E usa a própria com este propósito de acabar com ela.
Huuummmm...! era como se expressava Sua Excelência.
Esses dias, Excelência, o carroceiro esteve na praça central, e disse que vai iluminar a cidade. Fazer o que foi feito em Paulo Afonso.
Huuummmm...! usava costumeiramente o alongamento da vogal nasal.
Se o carroceiro iluminar a cidade, Excelência, o que será dos acendedores de lampiões?
Huuummmm...! como se tivesse dúvida.
Vinha de Maceió o Dr. Cicrano e, na direção do Bigodudo, como o batizou, revive o filme que viu no gabinete do palácio. A vegetação fotografada pela retina mostrava as diferenças e nenhuma igualha.
Este mesmo carroceiro, Excelência, anunciava nas esquinas que, com a perenização do rio, a cidade transformava-se...
Huuummmm...! mantinha-se inquieto.
Se perenizar, Excelência, tangedores de burros vão ficar desempregados.
Huuummmm...! demonstrava aprovação.
Após parar em Jactância, que foi a sua primeira parada depois que saiu de Maceió, o Dr. Cicrano calculou chegar cedo a Santana. Acelerou o Bigodudo. O mundo cobriu-se de poeira.
Voltaram as imagens que se formavam sob o luar. O filme, os lobisomens, tudo atravancava o caminho fatigado. E o crescente medo da noite fê-lo pernoitar na Poli, outra cidade entre Maceió e Santana.
A vida na cidade não era feita de fofocas, estas intrigas paroquiais sempre cansaram o Dr. Cicrano. Ele queria viver epopeias, fazer viagens intergalácticas e vivenciar as guerras entre as galáxias, entre mundos possíveis e impossíveis.
Atrás do balcão, o Dr. Cicrano falava da Guerra do Paraguai. Dela, o avô que subscreveu a Constituição de 1891 trouxe medalhas.
O Dr. Cicrano arrastava à lembrança do padre Velho, que escrevia o seu novo artigo, a Tudão, que diagramava O Liberdade de Expressão, e Polissíndeto, quando um óvni, que não era deste mundo, sobrevoou Santana. Isto aconteceu aqui como aconteceu em outros mundos, disse o rábula que veio do DF, Rio.
Cleobulina Lavadeira desistiu da lavanderia. Subiu na Xepa em direção a Maceió. Tangeu as moscas. Desistiu de ser empresária de si mesma. Não teve o mesmo destino de Bé do Algodão. Cleobulina Lavadeira não sabia por que não conseguiu ser ela própria o seu capital, ser ela própria a sua produção, e ser ela própria a sua fonte de renda.
E o que acaso queria o objeto voador não identificado que sobrevoou nesta cidade? quis saber o rábula contratado pelos primos Dr. Sicrano e o Dr. Cicrano.
Este óvni, disse o padre Velho, jogou enciclopédia sobre a cidade. O texto caiu em nossa língua vernacular.
Papai falava sobre este fato! disse o Dr. Cicrano. Ficou tão impressionado com a leitura da enciclopédia que caiu do óvni, que se enforcou.
Subiu a Xepa a ladeira em direção a Maceió. Cleobulina Lavadeira se foi de Santana sem saber por que o irmão prosperou no comércio, a irmã Aspásia prosperou, e prosperou a sobrinha Asioteia. E a sua lavanderia ficou às moscas.
Qual era o artigo da semana? foi a pergunta do padre a Polissíndeto, que se repetia de conjunções mais do que qualquer outra figura. Era o seu jeito, pois assim intensificava o discurso.
Só existia, Cleobulina, o que a gente entendia que existia. O que a gente não entendia, Cleobulina, não existia. As moscas a importunavam.
Com a queda da enciclopédia, disse o Dr. Cicrano, proliferou-se a bizarrice no mundo.
E as pessoas, concluiu Polissíndeto, começaram a ser atraídas por tudo o que fosse bizarro.
O imaginário conduzia a cidade. E predominavam no relevo os mistérios.
O Dr. Cicrano cercado por obsessões. Tudão por aventuras. Polissíndeto defendia lé com lé, cré com cré. O padre Velho dizia que a vida era um labirinto.
Lesse um trecho do artigo da semana, Polissíndeto! sugeriu-lhe o padre.
No rodapé do semanário de Dr. Cicrano estava escrito que Santana era o sertão. Santana foi de aldeia, vila e cidade.
Como todos aqueles que carregaram correntes – o Dr. Cicrano costumava repetir Nietzsche – o ruído das correntes o perseguia por toda a parte. E era só aquele que inspirava terror que podia comandar os outros.
Santana de Sertãozinho à Maravilha, de Olho D’Água dos Lírios a Olho D’Água das Flores. Da costa ocidental à costa oriental. Onde a Serra da Caiçara era irmã da Serra do Gugy, as primas da Serra da Camonga.
Em Mata Grande, leu Polissíndeto um parágrafo do artigo, zuniram pedras em marimbondos, na caatinga. Quem matou Ferragem, o pai do cangaceiro? Foi Acangaíba. E o que dele disse o Clavinote?
O Liberdade de Expressão era gestado na biblioteca do Dr. Cicrano onde os títulos em diferentes línguas iam do chão ao teto. Os livros nas estantes feitas pelo marceneiro de muletas. Ampliadas pelo marceneiro Zeugma. Ontem, a mãe de Macambúzio, responsável pelo serviço no solar, recebeu caixas e caixas com novos títulos que vieram do leste europeu.
E qual era o nome do artigo, perguntou o padre Velho?
O cangaço! respondeu-lhe Polissíndeto.
Oxi!
REVELAÇÃO
ContosPor Marcello Ricardo Almeida 09/09/2024 - 12h 28min
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