SEMEANDO EM TERRA FÉRTIL

Crônicas

Andréa Cristhina Brandão Teixeira

Era mais um dia nublado de final de inverno. Aqui e acolá, uma chuva calma nos acompanhava por um curto período. Espremidos uns sobre os outros, e ávidas por se libertarem das caixas e outras embalagens que os encarcerava, centenas de personagens nas mais de duzentas obras literárias que seguiam conosco. Muita expectativa no longo caminho desconhecido e cheio de grandes surpresas. O assunto entre nós, claro, era a Educação. Falávamos de nós próprios e de tantos que passaram e passam por nossas vidas cotidianamente. Tantos casos que nos comovem e angustiam. Felizmente, tantos outros de sucesso continuam alimentando nossa esperança e energia para continuar semeando no terreno arenoso, outras vezes argiloso, em que trabalhamos. É preciso cultivar com muito afeto e cuidado, qualquer desatenção e perdemos nossa colheita.

Logo após uma grande curva, deparamo-nos com quiosques de tapume de madeira e palmeiras secas. Pequenas, baixas, com a água da chuva passando por dentro, de morro baixo. Assusto-me:

- Parece abrigo de animal! Aqueles galinheiros cobertos, para evitar chuva e sol em excesso!

Minha companheira olha para mim, perplexa:

- Não para qualquer animal. Nem todos ficariam num lugar desses...

E a paisagem passa a nos mostrar outras dezenas de cubículos parecidos com os primeiros. Nas primeiras horas da manhã, surgindo com o sol, um ou outro morador aparece por ali. Sempre maltrapilho, de pele curtida pelo sol. Quase sempre com uma enxada na mão e chapéu na cabeça. Chama nossa atenção uma caminhonete de luxo estacionada ao lado dos abrigos. Dicotomia total. Angústia de nossa parte ao tentarmos imaginar aquelas humanas vidas, seus cotidianos, perspectivas e sonhos, talvez...

Ao chegarmos mais perto de nosso destino, obrigamo-nos a mudar o foco dos nossos pensamentos e nos concentrarmos em nossa missão: entregar as obras doadas com tanto carinho por amigos leitores, escritores, amantes dos livros e suas mágicas letrinhas.

O caminho parece não ter fim. Pergunta aqui e ali. Finalmente, alguém nos diz:

-É a próxima cidade, logo ali...

A nossa expectativa aumenta. Cito a imagem que tenho em mente, alimentada pela descrição de minha grande amiga, diretora da Escola para a qual nos dirigíamos.

- Devemos ver as casas no alto de algum morro.

Depois de alguns minutos, as construções no alto de um morro, podem ser avistadas, entrecortadas pelas imensas árvores à beira da estrada. Pronto, agora é descobrir o caminho para subir. Não demora muito e encontramo-lo. No início da subida, ainda perguntamos pela escola do primeiro platô: é só seguir em frente, foi a resposta que gratamente ouvimos.

No final da subida, deparamo-nos com mais um motivo de risadas e símbolo de alegria: um pequeno circo: O Circo da Gabi! Um pouco mais à frente, avistamos o nosso destino.

À primeira olhada, avisto minha grande amiga, uma das diretoras da escola e que provocou nossa vinda. Somos recebidos pela comunidade escolar e até crianças da vizinhança com muito carinho. Mais a emoção estava apenas começando. Nossa chegada, e aquilo que trazíamos, era motivo de extrema comoção. Havia uma festa à nossa espera. A princípio, apenas achamos engraçado, embora eu já houvesse avisado por telefone que não precisava preparar nenhuma recepção, apenas levaríamos aquilo que nos fora pedido com tanta esperança e que havíamos conseguido com a ajuda de amigos.

Mas, o assunto era muito sério para todos os anfitriões. Um professor da escola transformou-se em mestre de cerimônia. Formou-se uma mesa: diretoras, professores, representantes da Secretaria Municipal de Educação e eu. Até aí, tudo normal, até que começaram as falas... Muitas. E emocionantes. Contive-me a muito custo. Nunca imaginara que aquele pequeno e despretensioso gesto pudesse gerar tanta energia positiva, tanta alegria e gratidão. Aquelas pessoas esperavam pelo maná que surgia milagrosamente em suas vidas com uma fé e esperança que eu não conseguia alcançar a magnitude. Havia emoção e olhos lacrimejando a cada fala. Após as falas da mesa e de mais alguns professores que se encontravam na escola, começaram algumas apresentações dos alunos, igualmente emocionadas. Uma aluna do 9º ano resume:

-É importante ouvir a fala dos professores, mas também é muito importante ouvir o que nós, alunos, temos a dizer! Estamos muito felizes e agradecidos pelos livros que chegam hoje à nossa escola, num gesto de caridade, e que nos ajudarão a construir um futuro melhor!

Difícil resistir...

Mas não, não é um gesto de caridade. Solidariedade, provavelmente. Não fizemos nada que os órgãos públicos responsáveis não pudessem ter feito melhor e muito antes de nós. Mas, a comunidade justifica:

- Somos uma escola nova, ainda não temos nem IDEB!

Depois que as escolas foram destruídas, junto com mais da metade de toda a cidade, por uma grande enchente há três anos, ficou difícil, parece que impossível, assistir o alunado com políticas públicas como PNBE, PNLD... Não entendemos, mas a população parece entender.

Que as obras que levamos ajudem a formar uma população cada vez mais falante, politizada e consciente de seus direitos. Nossa semeadura terá rendido uma fantástica colheita!

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