Recentemente fui a três velórios, mas confesso que sou avesso a esse momento de tristeza; contudo, sei da importância do gesto como forma de me solidarizar com os familiares e de dar o último adeus ao morto. Eu geralmente chego pelos cantos, meio sem jeito diante de um clima tão lúgubre, condicionado pela perda do parente tão querido. E por mais que a gente tente consolar, não existem palavras ou frases absorvíveis diante da situação reinante. Alguns, inclusive, chegam a ficar em estado de choque, mas sempre foi assim mesmo. Depois nos afastamos um pouco e ficamos a conversar com alguém que chegou um pouco antes. A conversa geralmente vem recheada das mesmas perguntas: o morto tinha quantos anos? Qual foi mesmo o motivo da morte? Por que o médico não fez assim ou assado? Por que não fizeram a revisão do carro antes da viagem? Todavia, o comentário mais comum é aquele que fazemos do morto sempre ressaltando as suas qualidades. “Um grande homem!“ “Que pessoa boa, passou sua vida trabalhando.“ Ou então... “Meu Deus, como ele se foi rápido! Por que a vida guarda essas surpresas?“
Como comentei ainda há pouco, ir a velório é muito melancólico, o clima é sombrio, realmente muito triste. Porém, não são só de tristezas os encontros e conversas em um velório. Aliás, percebi algumas minudências que só encontramos ali. Infelizmente, é isto mesmo: em velório. Vejamos. Em qual outra situação nós poderíamos agrupar todas aquelas pessoas vindas de várias partes, as quais há muito tempo não víamos? É um choque, é paradoxal, pois são alegrias e tristezas juntas em um mesmo lugar. E como eu desejaria encontrar todos aqueles amigos em momentos de felicidades! E pergunto: por que não criamos condições para tanto? Outro fato que me deixa bastante comovido é perceber que ali muitos ficam desprovidos do espírito materialista, provavelmente motivados pelo clima do ambiente. Uma vez fiquei emocionado ao ouvir de quase todos com quem dialoguei frases que expressavam valorização às coisas simples da vida, ao mesmo tempo em que desdenhavam do modelo de vida atual.
Não é comum, em mesas de chás, cervejas, em rodas de amigos ou no trabalho, discutirmos assuntos tão relevantes do ponto de vista humano e do bem-estar coletivo. Talvez exista aí a necessidade de repensarmos a vida, procurando a felicidade nas coisas simples do nosso dia a dia, evitando o consumismo compulsivo, procurando ajudar o próximo, transformando discórdia em união através do perdão, fugindo das batalhas da usura e dedicando o máximo do nosso tempo às pessoas que amamos.
Paulinho da Viola, já nos anos 70, compôs “Sinal fechado”, que foi eternizada na voz de Chico Buarque e conta a história de dois amigos que se encontram em um sinal de trânsito e, durante aqueles poucos minutos do sinal fechado, procuram matar a saudade e se justificar por tamanha exiguidade e por não se verem mais vezes. Tudo isso é explicável e de fácil compreensão, pois fazemos parte da engrenagem de um sistema no qual o lucro e o acúmulo de riquezas é mais importante que nós mesmos. O pior, muitas vezes nem percebemos nossa ausência em casa, nos omitindo da criação dos filhos e gerando um novo problema dentro da sociedade moderna, que são “os filhos órfãos de pais vivos”.
O mundo pós-guerra passou a ser um divisor de águas para o consumismo. O bem-estar individual e o acúmulo de riquezas sempre foram sinônimos do estilo de vida dos americanos, que expandiram através dos meios de comunicação essa filosofia de viver como “o modelo ideal para ser feliz”. Hoje, para qualquer lado que você for, verá sempre as pessoas preocupadas com a imagem. Sim, isto mesmo, com a imagem. Mesmo que tudo isso custe caro, não importa, pois o mais importante é o celular de última geração (mesmo que o seu ainda funcione bem), o novo notebook ou possuir o carro mais moderno que o do vizinho.
Claro, o rei Salomão conseguiu descrever muito bem os estágios da vida em seus três livros: Cantares, Eclesiastes e Provérbios. Em “Cantares”, ele mostra a vaidade do jovem – provavelmente, ele o escreveu antes dos seus trinta anos de idade. Em “Eclesiastes”, ele já se arrepende dessa primeira fase da vida e passa a condená-la, aconselhando as pessoas a não se prenderem às coisas fúteis da vida. Quando escreveu “Provérbios”, Salomão já tinha mais de cinquenta anos, então sua sabedoria e experiência de vida fizeram desse livro, até hoje, um dos mais lidos no mundo.
Como fiquei esperançoso diante dos diálogos que tive, pois ouvi ali coisas que não são comuns às pessoas mais jovens, porque nós só paramos para analisar o que fizemos na vida quando já somos idosos ou estamos em um leito de hospital. Quem não lembra a letra da música “Epitáfio”, do grupo musical Titãs, que em uma de suas estrofes fala assim: “Devia ter complicado menos/Trabalhado menos/Ter visto o sol se pôr /Devia ter me importado menos/Com problemas pequenos/Ter morrido de amor...” Portanto, o que mais entristece é saber que, alguns dias após o velório, a maioria das pessoas voltam a pensar e viver como pensaram e viveram, continuam com os mesmos sentimentos e esquecem tudo que haviam comentado. Quem não lembra a famosa frase de Scarlet O’Hara em “E o vento levou”? Diante de tudo que já havia causado e passado, acreditava-se em sua transformação pela dor, mas ela, com seu coração de pedra, responde friamente: ”Amanhã é outro dia”
Penso diferente dessa filosofia materialista e cultivo minhas ideias e forma de viver me opondo a tal filosofia, entretanto sei das dificuldades em propagá-las, pois enfrentar os meios de comunicação é praticamente impossível. Desse modo, uma única pessoa que se consiga comover já será uma vitória diante de um mundo tão contagiado e insensível. Exceto quando estamos num velório, pois talvez ali as pessoas caiam na real e percebam que a vaidade e os bens materiais não valem nada.
AS COISAS BOAS EM UM VELÓRIO
CrônicasJosé Bento de Melo Filho 12/03/2012 - 18h 23min
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