O BAR DE SEU ZÉ SOARES

Crônicas

José de Melo Carvalho

Quem não se lembra dos diversos bares de sinuca de nossa cidade, Santana do Ipanema, onde praticávamos, naquele tempo, o tão apreciado esporte dos mais velhos e também dos jovens de nossa época, alguns fazendo apostas e outros apenas jogando como passatempo? Não obstante esporte, o jogo de sinuca era proibido a menores de dezoito anos, cuja lei era cumprida rigorosamente. A fiscalização ficava a cargo do juiz de menores, como era chamado seu Aloísio Firmo, esposo de Dona Santinha, que morava na Rua Ministro José Américo, vizinho do antigo Supermercado Ceia. Alguns anos depois passei a ser seu vizinho na mesma rua.

Seu José Soares Campos, dono de um dos melhores estabelecimentos da cidade, nessa especialidade, tinha seu bar localizado na Rua Tertuliano Nepomuceno, perto do açougue municipal e vizinho de seu Né Ricardo, pai de Zé Reni. Pessoa de baixa estatura, fumante compulsivo, era leitor assíduo dos livros de bang-bang de pequeno formato, a exemplo do professor Aloísio Ernande Brandão, de saudosa memória. Foi uma estrela de primeira grandeza, bom pai, ótimo esposo e muito querido em nossa terra. Trabalhador, honesto, respeitoso, carinhoso com a leva de filhos que o rodeava e muito calmo e educado no lidar com os clientes. Gostava de ouvir conversas e divertir-se, às gargalhadas, com as brincadeiras e, às vezes, com as mentiras de seus fregueses e amigos.

Sentado num tamborete à porta do bar, ficava horas e horas tragando a fumaça do cigarro, olhando a rua ou lendo as aventuras do velho oeste americano. Vez por outra, vinha cobrar o tempo do jogo das sinucas. Outra vez, despachar uma carteira de cigarros ou mercadorias da bodega.

Comentários das rodas de amigos no ambiente do bar: “O Nego Dézio botou pra lascar naquela partida com Zé Carlos de Caboclo. Saiu pela cinco e encestou até a bola sete. Eita Nego pra jogar! Tamanquinho não chega nem aos pés dele! Mas há uns meninos bons aí, jogando muito.” E mais: “Tonho Bié e Carlinhos Soares serão os campeões, eles prometem. Zé Farias, com a mania de mostrar o revólver, terminou derrubando-o no salão. Que perigo, Hein?” Mais comentários: “O Ipanema ganhou do Internacional de Pão de Açúcar por três a zero. No primeiro tempo, Zuza de Zé V8 fez dois gols. Lau completou, no segundo”, zombou Zé Roberto Monteiro. “Ah! O Jaciobá apanhou do Ipiranga de um a zero, gol de Mário Beleza do Banco do Brasil. Não venham contar vantagens!”, disse Mané Francisco.

Ainda mais: “Mané Guarda, meio ‘queimado’, deu uma tarrafada no Poço dos Homens e pegou cinco jundiás e sete traíras. A tarrafa maior é a Branca de Neve, de Juca Alfaiate; tem quatorze palmos e toda vez que ele a joga no poço vem cheia de bambás, piabas e mandis”, disse seu Vicente Soldado. “Zequinha Boca Rica deu uma facada em uma mulher no ‘Olegário’ e foi preso. Seu Elias de Dona Branca prestou socorro à vítima. Seu Elias é gente boa, não é seu Plínio. Nestor Noya não apareceu para consertar a caçapa da sinuca”, disse O Véio Zé Francisco. “O jipe de Floro Buzica deu uma ‘entrada’, mas ninguém teve nada”, acrescentou Idelzuito Melo. “Também Lilia só vive correndo!”, completou Maneca.
E mais conversa fiada: “A farra de ontem no Bafo da Onça de Zé Chagas foi até às duas da manhã. Zequinha de Caiçara deu trabalho, mas Fernando Soares conseguiu levá-lo para casa. Aqueles homens são uns verdadeiros boêmios: Moreninho, Zé Malta, Miguel Chagas, Zequinha Bulhões, Zezinho de Dona Beatriz, Zé Francisco de Julio Sanfoneiro e Zé Monteiro.”

Enquanto isso grita Cícero de Otacílio, que jogava com Zé Ferreira (Zé Vaqueiro): “Tio Zé Soares, tire o tempo e traga mais cerveja gelada e um prato de galinha.” Aracati de Luiz Parral ganhava mais uma de Romildo Pacífico. Branda e Muriçoca discutiam a soma dos pontos no marcador. Quase sem ninguém perceber, Justino assistia às partidas de bilhar, ao lado, em silencio. Uma cana, uma cerveja, um prato de peixe, pedia outro freguês. “Deixe de gagueira, Zezinho Bodega”, brincava Pedrinho de Tôr.

Assim terminava o dia. Muitas vezes o jogo de sinuca entrava pela noite. Luzes apagadas, bar fechado, e o proprietário subia para sua residência, que ficava bem próximo do posto de Zé Carlos Moroni, após ter cumprindo mais um dia de trabalho duro, rotina com a qual já estava acostumado.

Como o dono do bar gostava muito do autor, tínhamos sinal verde para jogar à hora que quiséssemos, sem apostas. A turma (além do autor, Arquimedes, Lobinho, Colorau, João Neto de Dirce, Raposo, Zé de Aprígio e outros) não tinha ainda os dezoito anos exigidos pelas autoridades. Quando nos sobrava tempo, descíamos até o bar e jogávamos sinuca às vezes em duplas e passávamos tempo e mais tempo na apreciada diversão. Como respeitávamos o dono do bar, não existia bagunça, e as brincadeiras se restringiam exclusivamente ao jogo. Era proibido colocar cigarro aceso na tabela da sinuca, porque poderia queimar o pano verde. Não o colocávamos. Cuidado com o giz: caindo, poderia quebrar-se, partir-se. Tínhamos o devido cuidado. Após o jogo, a ordem era guardar os tacos no suporte. Cumpríamos a ordem. Com isso, asssegurávamos nosso retorno ao jogo, quando a gente assim entendesse.
Numa noite chuvosa, com trovões e relâmpagos para todos os lados, a turma se encontrava no bar, jogando como de hábito. Ao lado, a uma outra mesa de sinuca, dois jovens carregadores de saco jogavam apostando. No final do jogo, notamos que o perdedor estava liso (sem dinheiro) e só tinha o suficiente da aposta. Cadê o dinheiro do tempo?

Lá vem seu Zé Soares fazer a devida cobrança.

- Foi uma hora e meia. Três mangos. Tô liso, e agora, seu Zé?

Reação, de pronto, de seu Zé Soares:
- Agora o quê, rapaz! Como é que você vem jogar sem dinheiro? Isso é coisa que se faça? Você vai me pagar a conta da seguinte maneira: pegue aquela lata no canto da cozinha, desça pela escada e encha-a na bica, depois suba para despejá-la neste tanque. Serão somente trinta viagens! Vou ficar aqui contando.

Sentou-se num banco e iniciou a contagem: uma, duas, três, mais, mais e mais, vinte e nove, trinta. Pronto! Já está tudo pago. Agora saia por aquela porta e, liso, nunca mais venha jogar sinuca aqui, cabra!

Maceió, maio/2007.

Carvalho, José de Melo

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