OS PASSEIOS A SERRA DO CRUZEIRO – Santana de hoje e sempre.

Crônicas

Remi Bastos

Como era gostoso os passeios a Serra do Cruzeiro. Naquela época tinha-se a impressão de que a serra ficava mais distante, tudo parecia absorto, as ruas se assemelhavam às crianças que engatinhavam impulsionadas pelo progresso invadindo os pequenos cercados que circundavam a cidade. Da calçada da minha casa, à sombra de uma castanheira, eu costumava estender o olhar para a Serra do Cruzeiro e na distância situava a capela solitária guardada por dois madeiros carcomidos pelos cupins. Lembro-me que todos os anos por ocasião da semana da Paixão, precisamente na Sexta-Feira Santa, era costume os católicos de nossa Padroeira Santa Ana realizar peregrinações ao Cruzeiro da velha Serra. O caminho era íngreme, a multidão guiada pelo padre da nossa paróquia seguia em fila rezando o terço e entoando cânticos de louvores ao nosso Cristo Redentor. Ainda no sopé da serra o ambiente tornava-se mais convidativo as preces, pela sinfonia sincronizada da zabumba e dos pífanos que executavam lindos hinários de veneração. Foguetes eram lançados aos céus anunciando o início da penitência através de seus estampidos; as mulheres geralmente cobriam os rostos com o véu do respeito e obediência a Deus, enquanto os homens, a maioria usando chapéu para se proteger da insistência do sol participavam juntando suas vozes aos vocativos do vigário.

Tantas outras vezes escalamos a Serra do Cruzeiro, registramos com fotos e lá do alto visualizamos a nossa querida Santana com suas avenidas, suas praças, a Matriz abençoando a cidade, seu povo obreiro e o rastro do Rio Ipanema deixado pela seca. Apenas o Poço do Juá e o Poço dos Homens conseguiam vencer a sequidão expondo suas águas verdes causadas pelo lodo empossado em suas entranhas. Era a Santana dos anos sessenta onde os fatos ocorriam na espontaneidade do acontecer. A liberdade ou o direito de ir e vir eram duas constantes que dignavam a liberdade do santanense. A violência e o desrespeito ao próximo não se sentavam à mesa do cidadão, tudo agia a serviço da paz e da harmonia. Recentemente estive em Santana e me senti muito triste quando ouvi de um amigo por volta das quatorze horas e vinte minutos a seguinte expressão: “Vou guardar meu carro e não vou mais sair hoje”. Perguntei-lhe por quê? E concluiu: “Remi a violência em Santana chegou a um ponto tal que basta um estranho não simpatizar com você para que encontre aí um motivo, de sacar sua arma e lhe dá um tiro que poderá ser fatal ou não”. Diante dessa exposição, retornei a Aracaju e durante toda viagem pensei muito no que aquele amigo havia me dito. Preferi não acreditar e falei comigo mesmo, casos isolados de violência são passíveis de acontecer em qualquer lugar. Não é somente em Santana que fatos desagradáveis e violentos encontrem sempre o mesmo local para desovar. Quero acreditar e aceitar que a cidade que me renova e tece os fios das minhas inspirações continue sempre sendo aquela que com muito amor e carinho eu a denominei de “Santana dos Meus Amores”. Quero contemplar a Serra do Cruzeiro sempre que for a Santana não importa de qual lugar; quero ter aquelas mesmas fantasias de criança, de poder dormir e acordar com o sonho realizado. Quero abraçar os amigos e sentir as mesmas emoções de estarmos juntos e sorrirmos unidos pelo laço da amizade que os cercam; quero me sentir aquele menino que brincou com a valentia do “Panema” e banhou-se no santuário das águas do Riacho Camoxinga; quero chorar de saudade e poder dizer em voz alta “Santana eu Amo Você.

Aracaju/Se, 12/12/2011.

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