HUMANAMENTE NASCEMOS, VIVEMOS E VAMOS MORRER SÓS... O DESAFIO É NÃO ENVELHECER VAZIOS

Pe. José Neto de França

Há um momento — inevitável — em que a vida arranca de nós a ilusão mais confortável: a de que estamos acompanhados. Podemos estar cercados, amados, desejados… ainda assim, há um território onde ninguém entra. Um silêncio interno onde nenhuma voz ecoa além da nossa própria. E é aí que muitos se assustam. Chamam isso de abandono, de vazio, de tristeza. Mas não é. É apenas a verdade crua da existência: ninguém atravessa a própria pele junto com você.

O problema não é estar só. O problema é passar a vida inteira tentando fugir disso. Inventamos distrações, dependências emocionais, barulhos, vínculos frágeis — tudo para não encarar o fato de que existir é, no fundo, um ato solitário. Só que, quando essa realidade finalmente é aceita, algo muda. O peso se transforma em lucidez. A dor cede lugar a uma espécie de liberdade: você já não exige do outro aquilo que ele nunca poderá dar — presença total.

E então vem o tempo. E com ele, a oportunidade rara de amadurecer de verdade. Não essa juventude prolongada que o mundo idolatra, mas uma consciência que só os anos podem esculpir. Pensar como quem viveu, enxergar como quem atravessou perdas, quedas e recomeços — isso sim é evolução. Porque envelhecer não é um defeito a ser disfarçado, é um testemunho a ser assumido. E talvez o maior elogio não seja parecer jovem… mas carregar, com lucidez e firmeza, o peso exato da própria idade.

Pe. José Neto de França
Sacerdote, Nutricionista Integrativo e Escritor

Comentários